Carta a Dom Oscar Romero

Por Marcelo Barros [1]

Querido irmão Dom Romero,

Em primeiro lugar, peço perdão a você e a Deus por mais uma vez ter sido ingênuo e, sobre esse assunto da sua beatificação,  ter deixado “cair a profecia”, sem que nem percebesse que ela tinha caído…

Aprendi com o meu mestre, o padre José Comblin que, na Igreja Católica, nos últimos séculos, os processos de canonização se tornaram instrumentos de manifestação do poder eclesiástico romano, com pouca dimensão evangélica. No entanto, dessa vez, ao se tratar de sua beatificação, eu pensava que poderia ter um conteúdo importante. Mesmo ao fazer isso somente 35 anos depois do seu assassinato, o magistério de Roma proclamaria ao mundo que se tratou mesmo de um martírio e faria um ato de justiça a você e ao povo salvadorenho. Todo mundo sabe que até agora a posição oficial era de que você era uma pessoa boa e santa, mas frágil e teria se deixado manobrar por assessores de esquerda que o levaram a arriscar a vida. Teria morrido, vítima dessa manipulação. Agora, depois de tantos anos, finalmente, embora sem reconhecer que se enganou (autoridade nunca se engana), a cúria romana resolveu retomar o processo de sua canonização. Por isso, pensei que, além de ser um ato de justiça, esse evento teria uma boa consequência social e política para El Salvador, para a América Latina e para a nossa Igreja.

Estranhei quando, pela imprensa, vi que a beatificação seria uma cerimônia imensa, de três horas de duração com centenas de padres e dezenas de bispos, com todas as pompas e solenidades comuns a um jeito de ser da Igreja que não era o seu. Mas, relevei isso. Cada um fala a linguagem que compreende. Só que, mesmo hoje, não me parece ser essa a linguagem evangélica que o papa Francisco está propondo à Igreja Católica: uma Igreja “em saída”, isso é, que vive para os outros e especialmente os mais pobres. Em relação a ele mesmo, desde sua eleição, tem sempre preferido a simplicidade de vestes, de gestos e de comunicação. Em um dos países mais pobres do mundo, fica difícil acreditar que a Igreja Católica quer ser uma Igreja pobre e dos pobres se para proclamar beato um bispo pobre que deu a vida pelos pobres se realiza uma cerimônia que pareceria mais adequada a uma corte oriental antiga. E é muito estranho homenagear uma pessoa com uma cerimônia em um estilo totalmente contrário a tudo o que ela representa.

Estranhei mais ainda quando soube que o lema escolhido para a cerimônia foi apresentar você como mártir do amor e da reconciliação  (nada de justiça nem de libertação). Diziam que você foi um bispo de profunda oração, gostava muito da adoração ao Santíssimo Sacramento e era fidelíssimo à Igreja… Sem dúvida, foi. Mas, segundo eles, é por isso que você é santo… Coisa estranha! Onde esconderam o verdadeiro Oscar Romero?

Ali, presente na cerimônia, estava Roberto d’Arbuisson, filho do coronel – presumido mandante do crime. Todo mundo sabe que, há algum tempo, esse senhor tinha ido pessoalmente a Roma pedir para que interrompessem esse processo de canonização. Teria ele mudado de posição ou foi a Igreja que mudou o modo de falar de você, Romero, para torná-lo mais palatável? Assim, hoje, mesmo as pessoas que mais fizeram oposição ao seu nome, agora são seus devotos. Agora, estavam todos lá. Quem parece que não estava era você.

Ao lhe pedir perdão por meu engano, deixe ainda eu lhe pedir uma última coisa: lá no céu, onde sem dúvida, sem depender de Roma, você está, dê uma forcinha para que, mais tarde, eu não tenha de escrever uma carta semelhante ao meu querido Dom Helder, sobre quem também a mesma Congregação da Causa dos Santos começou o mesmo processo de canonização….        

Que Deus ajude o Papa Francisco nesse trabalho imenso….
Abençoe esse seu irmão pobre e pecador

 

[MarceloBarros1] Marcelo Barros, monge beneditino, é biblista de formação e atualmente coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). É assessor nacional das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-descendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação.

 

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junho 08th, 2015 Postado por : vieira Arquivado em: Marcelo Barros

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