O MAPA DAS RELIGIÕES NO BRASIL: abrindo a caixa preta do Censo 2010 no meio do caminho

Artur Peregrino[1]

 

A encarnação de Deus em Jesus Cristo, longe de desmentir ou tornar ilegítimos os mitos das outras religiões, é uma sua, ainda que implícita, autorização. É justamente porque o Deus cristão se encarna em Jesus que se torna possível pensarmos Deus também sob a forma de um outro ser natural, como acontece em tantas mitologias religiosas não-cristãs. (Gianni Vattimo).

Os Censos devem ser considerados como um retrato estatístico simultaneamente estatístico e dinâmico de um momento da sociedade brasileira. Teremos novo Censo do IBGE em 2020. No meio do caminho (2015) é bom dar uma parada. Pare, olhe e escute! Via estes dizeres em uma placa ao lado da linha do trem. Ficava perto da casa dos meus pais em uma cidade no interior de Pernambuco. Hoje eles me fazem pensar sobre alguns assuntos.

E o que me chama atenção no momento é sobre a movimentação das religiões no Brasil. Uma das formas para ver a cara do Brasil hoje é ver seu desenho e contornos do pertencimento religioso do seu povo. É bom lembrar que os primeiros números do Censo de 2010 sobre as religiões no Brasil só foram divulgados pelo IBGE no final de junho de 2012. E suponho que o fato da divulgação dos números do Censo de religião de 2010 ter ocorrido quase dois anos depois da aplicação do questionário não é um evento fortuito, mas uma decisão institucional de cunho político. Os números, por sua vez, podem constituir identidades sociais. O resultado do Censo já é um ato político que serve a alguns interesses e fere outros. Várias políticas públicas podem ser geradas a partir dos resultados do Censo. Nesse caso, o Censo interfere diretamente nos repasses de verbas públicas. Além de interferir na representação política. É evidente que o Censo se torna um campo de disputas, não apenas por questões técnicas, mas porque tem um papel fundamental na representação e legitimação. E a legitimidade obtida pode ser usada de diferentes maneiras. Por isso, o interesse crescente pelos números do Censo tende a aumentar. É importante perceber a atenção que os próprios atores religiosos dão aos números de seus rebanhos. Indicando tendências dos líderes a abordarem o mundo religioso como mercado a ser disputado por estratégias de empreendedores conscientes de proselitismo e marketing.

O Censo tem uma história antiga. O primeiro Censo foi realizado em 1872. Na sua história, teve um breve intervalo entre 1920 e 1930, mas seguiu até os dias de hoje. Significa que tem uma história de 130 anos com 13 Censos aplicados. De fato, tem um grande caminho andado. São 130 anos de memória continuada de aspectos fundamentais para entender a sociedade, a cultura, a religião, a vida da nação. Estamos de acordo que isso é muita coisa!

Autores, pós-coloniais, tem dado uma grande contribuição no sentido de produzir narrativas menos institucionalizadas sobre as configurações que a religião vem assumindo na contemporaneidade. Eles rediscutem o próprio conceito de religião a partir das transformações da espiritualidade humana. Um exemplo bem vivo é o que acontece com o turismo religioso e as peregrinações transreligiosas que no Brasil se multiplicam.  Antropólogos e cientistas da religião estão aprofundando pesquisas nessa área. Autores que inauguraram esse aprofundamento, Émile Durkheim e Max Weber,reconheceram, a partir de perspectivas distintas, o estudo da religião como chave para a compreensão e análise das sociedades.

A cada década, um novo Censo traz consigo a tensão de apresentar a cara de um país que sempre nos surpreende. A dinâmica das transformações religiosas redefinem a cara da nação. Até aqui muita coisa já mudou, mas vale a pena conferir o que disse o Censo 2010.

Vejamos alguns números a partir do livro “Religiões em Movimento: o censo de 2010”, organizado por Faustino Teixeira e Renata Meneses, Editora Vozes, 2012:

Os percentuais mais expressivos do Censo 2010, no que se refere à religiões no país, indicam a continuidade da queda do catolicismo de 73,8% em 2000 para 64,6% em 2010, ao lado da também continuidade do crescimento evangélico de 15,4% para 22,2%, e, por fim, um também crescimento, mas em ritmo menor, dos sem-religião, de 7,28% para 8%. Embora, a teóloga Maria Clara Bingemer, afirme que quem lucra com a evasão no catolicismo são menos os evangélicos e mais a “secularização”. Para ela trata-se de uma crise das religiões institucionalizadas.

Um dado a observar é que em um século (passado) a proporção de católicos variou apenas 7,9% (de 1872 com 99,7% a 1970 com 91,8%); ao passo que a partir daí percebe-se uma redução acelerada, através dos anos modernos, do contingente de católicos: 89,2% em 1980, 83,3% em 1991, 73,8% em 2000 e agora 64,6% em 2010. Segundo alguns analistas, uma das explicações mais de fundo para o decréscimo católico é a sua grande dificuldade para acompanhar as migrações internas que revolvem o Brasil contemporâneo. O sociólogo Pedro Ribeiro de Oliveira enfatiza que o aumento de paróquias e padres reflete mais um processo de “clericalização”, ou seja, reforça a institucionalização eclesial e não uma vitalidade.

Faustino Teixeira nomeia nossa realidade religiosa como “diversidade acanhada”, onde a área cristã concentra 86,8% das declarações de pertença, restando para outras religiões a “faixa estreita” de 4,7%, acrescido dos 8% dos sem-religião. Citando o sociólogo Peter Berger questiona a falsa suposição de uma decisiva afirmação da secularização em curso. Concorda que, trata-se, na verdade, de uma posição que é alvo de debate. Para Peter Berger, o que ocorre de fato é uma singular e vigorosa “ressurgência” da religião, que ganha uma fisionomia particular. Para estes teóricos da religião, fica claro que não há razão plausível que justifique a menor presença do dado religioso no mundo atual.

Segundo o Censo 2010, dos 190.755.799 de habitantes do país, 42.275.440 eram “evangélicos”; 7.686.227 “evangélicos de missão” (18,18%); 25.370.484 (60,01%) “pentecostais”; 9.218.129 (21,81%) são “evangélicos não determinados”. Segundo os dados, os estados mais evangélicos do Brasil são Rondônia e Acre, enquanto os dois últimos no ranking são Sergipe e Piauí. Percebe-se que há uma crescente diversidade, complexidade e desigualdade no mundo evangélico brasileiro. Uma olhada nos números percebemos que há um decréscimo do grupo dos “evangélicos de missão” e para uma explosão dos “evangélicos não determinados”. Na primeira década do século XXI os “evangélicos de missão” (luteranos, presbiterianos, adventistas, metodistas, batistas, congregaçionais) caíram de 26,50% para 18,18% do total dos evangélicos. Enquanto isso os “evangélicos não determinados” (“desigrejados”), (não têm uma igreja determinada ou nenhuma) pularam de 4,85% para 21,81%. Muitos evangélicos no Censo, não revelaram sua denominação. Uma questão central seria: porque não revelaram? Alguns estudiosos vêm aí um certo enfraquecimento da prática dos evangélicos e o fato de que eles estão adotando uma identidade mais frouxa.

Os evangélicos pentecostais (maiores grupos: Assembléia de Deus, Congregação Cristã do Brasil, Igreja do Evangelho Quadrangular, Igreja Pentecostal “O Brasil para Cristo, Igreja Pentecostal Deus é Amor e os neopentecostais: Igrjeja Universal do Reino de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus, Igreja Apostólica Renascer em Cristo, Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra) continuam crescendo. Quase que triplicaram de tamanho, em termos absolutos, de 1991 a 2010: saltando de pouco mais de 8 milhões para mais de 25 milhões. Comparando os indicadores socioeconômicos dos grupos evangélicos, observamos que os pentecostais estão nos extratos mais baixos, são os mais pobres. Por que será que o pentecostalismo se expressa como a opção religiosa dos mais pobres?

Os sem religião foram um destaque do Censo 2010. Esse grupo respondia por 7,4% dos declarantes em 2000, passou a responder por 8%. Foram 15,3 milhões de pessoas que se declararam sem religião em um quadro que ateus ou agnósticos são apenas 615 mil e 124,4 mil declarantes, respectivamente. Onde estão os sem religião? A tendência é que eles estão na categoria das pessoas com maior renda e escolaridade e que vivem em centros mais urbanizados, nas regiões mais ricas do país e que a idade média dos sem religião é de 26 anos. Segundo Regina Novais, as representações e práticas religiosas não se fazem apenas por dentro dos circuitos institucionais, mas também “por fora e à margem, mas sempre incluem disputas – e não ausência – de valores”.

Conforme o Censo de 2010, 0,3% da população (isto é, 588,797 indivíduos) se declara pertencente a religiões afro-brasileiras. Aqui temos uma situação problemática. Por vários motivos sabemos que o catolicismo é uma máscara usada por setores das religiões afro-brasileira, máscara que as esconde igualmente dos recenseamentos. Alguns estudiosos da religião dizem que boa parte dos afro-brasileiros estão escondidos nas rubricas “católicas” e “espíritas”. A religião dos orixás continua sendo religião de pequenos grupos. Por suas origens culturais e históricas, não fazem proselitismo nem são capazes de enxergar as outras religiões como oponentes. Mesmo sendo pouco tolerados são tolerantes. Dificilmente reagem aos ataques de setores evangélicos que o demonizam.

Outras religiões são computadas no Censo 2010, mas sem significar algo a alterar profundamente o mapa da religião no Brasil a curto e médio prazo. Quanto a questão indígena o Censo brasileiro introduziu a categoria “indígena” no quesito “cor ou raça” no questionário utilizado. Segundo o Censo de 2010, 896.917 pessoas. Destes, 324.834 vivem em cidades e 572.083 em áreas rurais, o que corresponde aproximadamente 0,47% da população total do país. As religiões orientais no Brasil continuam como minorias religiosas. Conforme os números do Censo 2010 415.267 pessoas autodeclararam-se  adeptos ou praticantes de uma religião oriental. Em número absoluto corresponde a 0,22% da população brasileira. O maior segmento deste universo é o do budismo representado por 243.966 pessoas, ou seja, 0,13% da população brasileira. Já os mulçumanos registrou a presença de 35.167 pessoas no Censo de 2010. Quanto aos mulçumanos, esses dados devem ser analisados criticamente, como mostra o caso de Belo Jardim, em Pernambuco, que possui uma comunidade formada por convertidos ao islã, mas aparece no Censo como não possuindo população mulçumana. Neste mesmo apanhado censitário o número de adeptos do judaísmo registrou a presença de 107 mil pessoas. Observação que chama atenção é que o número de nascimentos entre os judeus brasileiros é bastante baixo. Mais pessoas morrem na comunidade do que nascem. No entanto, sua visibilidade ainda é muito grande. Quanto ao espiritismo, passaram de 1,3% da população (2,3 milhões) em 2000 para 2,0% em 2010 (3,8 milhões). Segundo o Censo, os adeptos do espiritismo possuem as maiores proporções de pessoas com nível superior completo (31,5%) e taxa de alfabetização (98,6%). Este crescimento de aproximadamente 65% no número de espíritas autodeclarados significa a ascensão do prestígio, bem como o resultado de exitosas ações institucionais da parte das lideranças espíritas, no qual o papel das produções cinematográficas em torno da vida e da obra do médium Chico Xavier tem considerável papel. As informações contidas neste texto nos dão elementos para melhor entender esse complexo e dinâmico campo religioso brasileiro. O Censo apresenta não só uma “autodeclaração religiosa”, mas também um retrato do país que desafia as religiões diante do humanismo. Nesse sentido fica a pergunta: qual o papel da religião numa sociedade secularizada? A resposta poderia caminhar na direção de ajudar as religiões a terem uma espiritualidade mais libertária. Na realidade o que uma religião traz de revelação é para todas as outras e para salvar o mundo.

Como pesquisador da religião me junto, de modo particular a antropóloga Clara Mafra, que lamenta que os tomadores de decisão de uma instituição do porte do IBGE tenham preferido se alinhar com uma opinião de postergar a divulgação dos dados sobre religião e, assim, precarizar ainda mais a interlocução social sobre a construção dos números de religião no país. Oxalá, que para 2020 tenhamos uma construção mais democrática e transparente dos números de religião. Mas o resultado depende também da pressão dos pesquisadores/as e das lideranças de diferentes tradições religiosas. Esperamos, sinceramente, que isso aconteça. Mas esperança não é esperar, é caminhar. Esse texto já quer contribuir nessa direção.

A epígrafe, no início do texto, com um pensamento do filósofo Gianni Vattimo nos faz pensar na Encarnação e o estar-aí-para-os-outros. O papel das Igrejas na pós-modernidade no pensamento de Vattimo, a encarnação é um importante pressuposto para a dissolução das ideologias totalitárias e o estabelecimento do diálogo inter-religioso, não apenas porque elimina o discurso fundamentalista, mas também porque valida a experiência religiosa para além do universo judaico-cristão. E por tudo isso e com todos, devemos avançar pelas tortuosas, mas belas e esperançosas, trilhas da reflexão sobre os caminhos de Diálogo ecumênico, inter-religioso e intercultural. Porque segundo Michel Meslin (L’expérience humaine du divin), “só podemos captar o sagrado na própria existência do ser humano”.

Essa abertura para o outro nos coloca no caminho de uma espiritualidade libertária. E para continuar este caminho ecumênico lembro dois eventos que contribuirão enormemente para um mundo mais humanizado e sagrado. O primeiro é a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos que acontecerá já agora em 2015 e será preparado pelo Brasil. Será uma contribuição do Brasil para o mundo. O segundo é a Campanha da Fraternidade de 2016 que voltará a ser ecumênica. Por fim lembro as palavras do teólogo da libertação José Comblin: “As religiões servem na medida que ensinam a amar; se não o fazem, são nocivas porque subtraem energias humanas do seu fim verdadeiro”.

Artur[1] Mestre em Antropologia pela UFPE; prof. do Curso de Teologia na Unicap e integrante do Instituto Humanitas Unicap; pesquisador do Grupo de pesquisa UNICAP/CNPq Religiões, identidades e diálogos, na linha de pesquisa Diálogos inter-religiosos. Email: arturperegrino@gmail.com

Print Friendly

março 19th, 2015 Postado por : vieira Arquivado em: Notícias

Seja o primeiro a comentar Deixe uma resposta:

Seu e-mail não será publicado.Campos obrigatórios*