A laicidade e o sagrado

Por Marcelo Barros [1]

De acordo com a Constituição, o Brasil é um país laical, isso é, não tem nenhuma religião oficial. Respeita a diversidade de crenças e defende a liberdade de todos os cultos. Reconhece e garante os direitos de todos os cidadãos, religiosos ou não, brasileiros e estrangeiros que vivam ou estejam entre nós, unidos pelo laço comum de sermos cidadãos da mesma família humana e membros da comunidade dos seres vivos que habitam o planeta Terra. No entanto, até as pedras sabem que, ainda no Brasil de hoje, a religião continua a ter um poder imenso sobre os destinos da sociedade e, uma vez ou outra, é usada para fins políticos e interesses individuais ou grupais que nada têm a ver com o projeto da fé. Nesses dias, está novamente em discussão, um projeto de acordo entre a Igreja Católica, representada pelo Vaticano e o Estado Brasileiro. Em tempos não tão remotos, uma Concordata semelhante garantia alguns privilégios especiais para as instituições católicas no país. Ao mesmo tempo, sabe-se que alguns grupos visam tornar o Brasil um país de cultura “pentecostal”. Na Câmara, uma bancada de deputados se auto-intitula “evangélica”. Sem maiores preocupações éticas e em nome da fé, esses deputados vetam projetos que lhes parecem contrários ao modo como eles compreendem ao pé da letra alguns preceitos bíblicos, enquanto fazem questão de esquecer outros. E, ao mesmo tempo, como se fosse uma missão sagrada, defendem os interesses das empresas que financiaram suas campanhas ou de seus grupos ditos religiosos.  A dificuldade de relacionar a laicidade dos Estados com as questões religiosas não existe somente no Brasil. Atualmente, em vários continentes, aparecem sob a forma de fortes tensões e violências. Em países como o Senegal e o Paquistão, muitas pessoas foram feridas e algumas mortas em conflitos inter-religiosos. Na Nigéria e em outros países africanos, dezenas de Igrejas cristãs, principalmente evangélicas, foram incendiadas e muitas pessoas foram assassinadas. Cristãos africanos pagaram um preço alto porque alguns jornais da Europa, considerada pelos muçulmanos fundamentalistas, como cristã, insultam Maomé e os princípios da fé islâmica. Da mesma forma, minorias islâmicas são discriminadas e perseguidas em alguns países da Europa e em algumas regiões da Índia. Na Irlanda ainda persistem conflitos culturais e políticos que se manifestam como divisão entre católicos e protestantes.

Na Europa ocidental, uma boa parte da sociedade política e cultural considera que as religiões estão moribundas ou mesmo acabadas. Por isso, sentem-se com o direito de insultar a fé das pessoas e usar o nome de Deus como motivo para chacota e caricaturas de cunho pornográfico e de baixo calão. E defendem esse modo de proceder como direito e liberdade de expressão. Em nome da laicidade, o governo francês proíbe que a mulher muçulmana use o véu islâmico nas ruas e ambientes públicos. No entanto, as freiras católicas viajam de trem ou avião, com o véu religioso e nenhuma foi acusada de desrespeitar a lei.

Arautos do Capitalismo veem nesses conflitos um choque de civilizações. Na verdade, é apenas um choque de cinismos e simplificações racistas. No Brasil, feriados religiosos ainda são impostos a todo país, mas contanto que eles sejam católicos. Em muitos lugares, para não perder o emprego, adventistas do sétimo dia são obrigados a trabalhar no sábado. E quase a cada dia, um templo de algum culto afro-brasileiro é vítima de violência e preconceito.

Ao celebrar nesses dias a Quaresma, as Igrejas mais antigas leem textos do evangelho como as acusações de Jesus contra os sacerdotes do templo que exploravam viúvas pobres e ensinavam que Deus precisa de sacrifícios para abençoar e proteger as pessoas. Jesus revelou que o mais sagrado de tudo é a vida. Deus mora no coração de todas as pessoas humanas e pede a cada um/uma de nós descobri-lo no outro, no respeito às outras culturas e religiões, como no cuidado com a natureza e na comunhão com todo ser vivo.


[MarceloBarros1] Marcelo Barros, monge beneditino, é biblista de formação e atualmente coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). É assessor nacional das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-descendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação.

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Março 18th, 2015 Postado por : vieira Arquivado em: Marcelo Barros

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