Mulher: Protagonismo e Invisibilidade

Valdênia Brito Monteiro [1]

A XIII Semana da Mulher 2015 da Unicap, seguindo a temática proposta pela Campanha da Fraternidade do mesmo ano, dá início aos seus preparativos, dessa vez buscando um diálogo entre o protagonismo e invisibilidade da mulher em vários lugares: igrejas, pastorais, movimentos sociais das periferias, entre outros. A ideia é descortinar uma realidade que não é só de protagonismo, mas ainda é de muita invisibilidade. É paradoxal a discussão, até porque as mulheres vêm sendo alpinistas dos seus direitos. Mas que de que mulher estamos falando? Será que as experiências cotidianas de mulheres afrodescendentes, indígenas, LGBTs, da periferia, são visibilizadas nas suas lutas do dia a dia? Muitas vezes, a nossa visibilidade é seletiva e reprodutora de discriminação.

O convite para participar da Semana traz um desafio: mergulhar, sem preconceito, no mundo de mulheres que não conseguimos perceber, na sua dimensão humana, pois a invisibilidade cobre o sofrimento, as privações materiais, culturais, espirituais e muitas vezes afetivas. É tão simples de entender a invisibilidade e tão difícil de perceber, porque mundos diferentes tornam-se imperceptíveis aos nossos olhos. José Saramago, no livro Ensaio sobre a cegueira, tratou do mecanismo da invisibilidade, dizendo: “nós estamos doentes, não porque os olhos tenham alguma deficiência, mas porque deixamos de saber olhar. Deixamos de querer ver. E deixamos de nos ver a nós mesmos. No fundo, esse é o desfecho desse processo de alienação. Tornamo-nos cegos”.

O protagonismo da mulher ainda não é suficiente para quebrar nossas barreiras, a partir de mundos, e construir a possibilidade de um mundo inclusivo. A incapacidade de perceber o outro é incomensurável em uma sociedade líquida. Nós não damos margem para a alteridade, porque faz parte de nossa insensatez de viver em outra dimensão… Mia Couto, poeta moçambicano, ao falar da resistência à condição de invisibilidade, diz que os moçambicanos têm buscado força para dizer: “queremos permanecer, queremos ser parte do mundo, queremos ser parte de um universo que não é sempre periferia”.

Assim, o convite é sair da periferia das discussões, romper as barreiras de vozes silenciadas e mergulhar na realidade das mulheres que são, sem sombra de dúvida, protagonistas para a construção de um mundo melhor.

Fica aqui a reflexão a partir da poesia Enterro de Isolina, de Cecília Meireles.

“Enterro de Isolina”

  • “Não faz mal que a chuva caia!
    Aguentaremos a água nos olhos,
    Depois, cobriremos a cabeça com a saia!
  • Não faz mal que no barro entremos!
    Quem tropeçar fica ajoelhado.
    De barro fomos feitos e seremos!
  • Mas ninguém suje o caixão de Isolina!
    Levantem bem, que o caixão é leve
    Onde vai a virgem menina!
  • Não faz mal que nos sujemos:
    Mas levantem os ramos de rosas
    E os de dálias e Crisântemos!
  • Andaremos léguas de estrada,
    Com léguas de chuva por cima.
    Mas que Isolina não fique cansada!
  • Esperou tanto pelo seu dia!
    Mas teve vestido de seda branca
    E manto igual ao da Virgem Maria.
  • Tão bonitinha, Preta, preta!
    Que vai ser a alma dela, agora?
  • Ou beija-flor ou borboleta…!”

Meireles, Cecília, “Enterro de Isolina”,
em Mar Absoluto/Retrato Natural,
Ed Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1983.

[1] Valdênia Brito Monteiro é mestra em Direito Público pela UFPE, professora de Direito e Coordenadora o Curso de Especialização em Direitos Humanos da UNICAP.

Confira a programação AQUI

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dezembro 05th, 2014 Postado por : Jose Maria Arquivado em: Notícias

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