Binaridades não ajudam a entender as relações sociais manifestadas nas eleições. Entrevista especial com Berenice Bento para o IHU Unisinos

berenice-bento“Agora que o debate sobre democracia e justiça social apareceu com cores um pouco mais fortes, se fala em divisão. O que era democrático, agora aparece como negativado”, critica a socióloga.

“Precisamos de um pouco mais de tempo para entender realmente o que está acontecendo”, diz Berenice Bento à IHU On-Line ao comentar o resultado das eleições após uma série de manifestações que ocorreram no país desde Junho de 2013. Para ela, as tentativas de explicar o resultado das eleições, as disputas políticas e as manifestações através de “binaridades não nos ajudam a compreender as dinâmicas das relações sociais”.

Na entrevista a seguir, concedida por telefone, Berenice Bento comenta as “reações de ódio” aos nordestinos após a reeleição de Dilma e lembra que “o preconceito aos nordestinos não é algo inventado nestas eleições. Em São Paulo, falar que alguém fez uma ‘baianada’ é o mesmo que qualificá-lo como portador de pouca inteligência. No Rio de Janeiro, o ‘baiano’ é transmutado em ‘paraíba’. Então, a desqualificação das pessoas, tomando como referência a região, é algo recorrente”.

Contudo, a reação durante as eleições é explicada pela socióloga como um preconceito contra o ex-presidente Lula. “O Partido dos Trabalhadores tem como grande líder um nordestino, de origem pobre, com pouco estudo e que não se envergonha de falar disso, que não fez concessão à elite intelectual, no sentido de performatizar um conhecimento acadêmico que não tem. (…) O ódio ao nordestino, nesse contexto, tem outro texto: O ódio de classe que encontra no PT e no Lula a materialização de um medo profundo de perder os privilégios seculares baseados na exploração da força de trabalho”, afirma.

Berenice enfatiza ainda que é sem sentido identificar o voto à Dilma com pessoas sem formação. “Quase 100% dos reitores das universidades votaram pela reeleição da Dilma (e não apenas os reitores das universidades nordestinas), a elite intelectual do Brasil, a que faz pesquisa, que produz, que coloca o Brasil nos periódicos científicos nacionais e internacionais e que participa de eventos, não vou dizer 100% porque seria um absurdo da minha parte, mas a grande maioria votou no PT. Por que isso? Porque obviamente é um voto de interesse. Parte importante da classe média alta, como, por exemplo, muitos professores de universidade com salários na faixa dos 10 mil a 15 mil reais, votou na Dilma. Portanto, aqui há outro erro em identificar a classe média brasileira como eleitora do PSDB. Parte considerável desta classe votou no PT.”

Berenice Bento é professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN. Doutora em Sociologia e pós-doutoranda na City University of New York (EUA/Bolsa do CNPq).

Confira a entrevista.

novembro 21st, 2014 Postado por : Kiko Secchim Arquivado em: Notícias

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