O divino projeto de mudar

Por Marcelo Barros [1]

Dizem que Deus é bom, mas vive cercado de amigos que, embora, em sua maioria, não sejam maus, usam seu nome para manter costumes e estruturas que deveriam mudar. De fato, no decorrer da história, em nome de Deus, líderes religiosos das mais diversas religiões  defenderam a escravidão dos negros, o racismo, a violência contra os que não creem como eles, a pena de morte e até guerras contra outros povos. Atualmente, no Congresso Nacional, um bom número de parlamentares que se dizem cristãos faz os verdadeiros cristãos ficarem com vergonha de se apresentarem como tais. Se Deus fosse como esses senhores dizem, egoísta, prepotente, mesquinho, homofóbico, cruel com os que não creem e pouco sensível à justiça, nós todos deveríamos pregar o ateísmo e combater o mal terrível para a humanidade que seria a religião.

De fato, a um rapaz que lhe disse: “Sou ateu”, o bispo profeta Dom Pedro Casaldáliga respondeu: “De que Deus?”. Ele quis mostrar que do deus, cujo nome aparece nas cédulas de dólar, na sede alguns bancos e em certos templos suntuosos, nós todos deveríamos ser. Afinal, somos discípulos de Jesus que, embora profundamente fiel à fé e à espiritualidade judaica, combateu a forma de religião do templo de Jerusalém e denunciou como hipócritas chefes religiosos do seu tempo.

Em um mundo no qual governos que usam o nome de Deus são menos humanos e menos solidários do que os que se dizem ateus, o papa Francisco propõe uma nova forma de testemunhar Deus. Há poucos dias, no Vaticano, reuniu um sínodo de bispos para mudar a forma como a Igreja Católica continua falando de moral da família. De fato, pouco antes de morrer, em 2012, o Cardeal Carlo Martini, ex-arcebispo de Milão, afirmou que, sobre esse ponto, a Igreja Católica está, ao menos, 200 anos atrasada em relação à humanidade. O papa tomou consciência disso e afirmou claramente aos bispos: “Deus não tem medo de mudanças. Ele gosta de novidades”. Pouco depois de encerrar essa sessão do Sínodo de bispos, o papa convidou ao Vaticano líderes sociais de todo o mundo para escutá-los e se colocou ao lado deles na luta pacífica por um mundo mais justo e igualitário. Tomara que padres e bispos que imitavam papas,  quando esses tomavam atitudes dogmáticas e rígidas, agora sigam o exemplo do atual bispo de Roma que se coloca à escuta das organizações sociais cristãs e não cristãs e se ponham realmente a serviço da humanidade. Como pastor da unidade das Igrejas, o papa age assim como uma proposta para que bispos locais e padres em suas paróquias possam continuar esse diálogo com os movimentos sociais e as organizações de serviço à humanidade.

Neste novembro, mês em que no Brasil se celebra a união e consciência negra, em Brasília, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) publicou um livrinho com o título “Na casa do meu Pai há muitas moradas” (Conversas com um pastor pentecostal sobre a Bíblia e as outras religiões). Esse livro escrito em forma de conversa simples e leve procura mostrar como ler a Bíblia de modo que se valorizem e respeitem as tradições religiosas negras e indígenas. É profundamente vergonhoso que, até hoje, em várias cidades brasileiras, templos do culto afro-brasileiro, assim como seus sacerdotes e sacerdotisas sejam discriminados e, às vezes, até perseguidos por pessoas e grupos que se dizem cristãos e em nome da Bíblia e de Deus.

Todas as tradições espirituais têm como meta construir a morada divina no mais profundo do ser humano e que isso seja a semente para transformar as estruturas do mundo. Enquanto a religião for exterior, mas não mudar profundamente o coração de cada pessoa, não atingirá a sua meta. O projeto divino é um mundo renovado na base da justiça, paz e respeito e comunhão com a natureza. As pessoas que creem devem dar testemunho desse projeto, começando por si mesmas o caminho da justiça e da paz. Simone Weill, mística e pensadora francesa, afirmava: “Conheço quem é de Deus não quando me fala de Deus, mas pelo seu modo de ser solidário e amoroso com as outras pessoas”.


MarceloBarros[1] Marcelo Barros, monge beneditino, é biblista de formação e atualmente coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). É assessor nacional das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-descendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação.

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novembro 13th, 2014 Postado por : vieira Arquivado em: Marcelo Barros

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