O voto e o programa

Por Marcelo Barros [1]

No próximo domingo, o povo brasileiro dará o seu voto a um/a dos candidatos/as à presidência da República e para os governos estaduais, assim como para deputados federais e uma parte do Senado. No sistema atual brasileiro, votamos em pessoas, mas, de fato, somos governados por partidos ou por associações de partidos que se unem em coalisões. Em uma democracia, de fato, deveríamos escolher o partido e o/a candidato/a de acordo com o programa que cada partido apresenta. Esse programa deveria ser pensado e proposto, não apenas com a finalidade de ganhar eleitores, mas para um projeto de Brasil, em uma visão a longo prazo. Deveria conter propostas e diretrizes concretas sobre como conduzir a economia do país. Ao votar, as pessoas deveriam escolher que proposta querem para o Brasil: a autonomia social e política para o país ou, ao contrário, uma dependência das potências estrangeiras. Com relação à saúde, o programa de cada partido deveria clarear se o governo daquele partido manterá e até ampliará as politicas distributivas e o acesso democrático aos serviços públicos de saúde ou se, ao contrário, se ocupará com os 20% dos brasileiros mais abastados, deixando a maioria da população abandonada à própria sorte. No campo da educação, o povo tem o direito de saber se o governo pensa em garantir educação para todos, em todas as etapas e se respeitará a diversidade e o direito de expressão das culturas ainda marginalizadas ou oprimidas, como a dos grupos indígenas e das comunidades afrodescendentes. Finalmente, precisamos ter claro se os candidatos e seus partidos continuarão o diálogo e a solidariedade com os países latino-americanos e caribenhos e se apoiarão os organismos de diálogo e de integração continental.  Além disso, como critério para dar o nosso voto,  precisamos ver se o candidato/a e seu partido se propõem a aprofundar relações mais diretas com a população, especialmente com os movimentos sociais organizados da sociedade civil. Cada vez mais, no mundo inteiro, assume-se a democracia parlamentar representativa, mas a ela se procura incorporar instrumentos de democracia participativa e popular. É fundamental que o povo se sinta representado pelo Congresso e não substituído.

Atualmente, na guerra pelo voto, há uma tendência de os/as candidatos/as confundirem comunicação com marketing. E o marketing vende candidato/a como se fosse produto de consumo. Os partidos políticos mantêm nomes e adjetivos de fantasia, como se fossem empresas comerciais. Termos como “socialista”, “trabalhista”, “democrático” e outros são palavras esvaziadas de qualquer significado. Nesse contexto, os/as candidatos/as preocupam-se apenas em garantir a melhor imagem e anular a argumentação do/a adversário/a. Além disso, alguns meios de comunicação transformam as eleições em show. Essa pasteurização agrava ainda mais a desilusão de muitos com relação à política.

Nesses últimos dias antes das eleições, seria importante prestarmos mais atenção aos programas e propostas dos partidos e de seus/suas candidatos/as. O Le Monde Diplomatique Brasil de setembro 2014 publicou um artigo colocando lado a lado os programas de governo de todos os/as candidatos/as à Presidência da República. De fato, são programas de governo e não projetos mais amplos de Brasil. De todo modo, seria importante que fossem mais conhecidos e avaliados. Todos os candidatos propõem mudanças estruturais, embora saibam que para realizar essas reformas, precisarão da maioria de votos favoráveis no Congresso, o que no sistema atual, é muito difícil. O artigo mostra ainda que também é importante saber o que pensam e falam os principais assessores/as e conselheiros de cada candidato/a, como também descobrir que forças econômicas estão financiando cada candidato/a. Eles terão muita influência no modelo de desenvolvimento a ser adotado”.

Além disso, é importante ver como cada candidato se comporta em relação a problemas fundamentais do país como o modelo de desenvolvimento que destrói a natureza. Nesses dias, pela primeira vez, as nascentes do rio São Francisco secaram. O rio está agonizando. Nenhum/a dos principais candidatos/as à presidência se mostra preocupado/a com isso. Nenhum/a visitou as populações ribeirinhas atingidas por essa tragédia. Nem apresenta proposta alguma para reverter essa calamidade. 

Tudo isso mostra que votar corretamente não é fácil. Para quem tem fé cristã, o voto não pode ser dado apenas por conveniências de parentesco, amizade, ou interesse profissional. Temos de escolher as pessoas que julgamos mais aptas para servir a todo o povo brasileiro. O evangelho propõe um critério: escolher as pessoas mais ligadas à causa da libertação dos mais empobrecidos, nos quais quem crê é chamado a ver o rosto do próprio Jesus.

MarceloBarros[1] Marcelo Barros, monge beneditino, é biblista de formação e atualmente coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). É assessor nacional das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-descendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação.

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outubro 01st, 2014 Postado por : vieira Arquivado em: Marcelo Barros

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