POLÍTICA: Um aspecto da missão cristã ou a missão cristã por excelência?

POLÍTICA:
Um aspecto da missão cristã ou a missão cristã por excelência?

João Luiz Correia Júnior[1]

Irmã Maria do Rozário Cláudio[2]

SUGESTÃO:

ANTES DE LER ESTE ARTIGO, PROCURE REFLETIR E RESPONDER À PERGUNTA FORMULADA NO TÍTULO ACIMA.

Muita gente diz abertamente, por aí, que ninguém merece o seu voto, porque todos os políticos são corruptos e só estão interessados mesmo em seu próprio bolso. Por isso, viram as costas à política.

Em cada eleição isso se confirma, pois é grande o números de pessoas que anulam o seu voto ou “votam” em branco.

Estão errados os que se aproveitam da política só pensando em si mesmos, bem como os que não querem saber de política, fechando os olhos para os problemas do campo ou da cidade onde mora, e para o seu compromisso com a resolução desses problemas, na busca de uma melhor qualidade de vida.

Como cristãos e cristãs somos chamados(as) por Deus para reverter esse quadro, por dois importantes motivos:

1º) Porque a ação POLÍTICA é fundamental para o bem comum (cidadania).

Política é a luta pelo BEM COMUM, ou seja, pelo bem-estar de todas as pessoas da Cidade, do Município, do Estado, da Região, do País, do Continente e do Mundo.

De fato, a palavra “política” vem da palavra grega pólis, que significa cidade. Assim, política é o compromisso de cada cidadão e cidadã com a sua cidade, ou seja, com o meio e com o grupo social onde vive.

2º) Porque a luta pelo BEM COMUM (a luta POLÍTICA), é missão cristã.

O cristão (a cristã) é toda pessoa que, motivada pela fé cristã (do grego pístis, absoluta confiança na proposta de Jesus Cristo), procede eticamente em prol do bem estar do seu semelhante (bem comum). Daí se entende a necessária prática social, a política (inserção nas relações sociais dentro da pólis), inerente à sua vocação.

O próprio evangelista Mateus chega a afirmar que seremos julgados por Deus a partir da nossa atuação social em prol do bem comum (compromisso ético-político de solidariedade).

Em Mt 25,31-46 (a única perícope dos Evangelhos que trata do conteúdo do juízo final), as pessoas serão julgadas pela fé que tiverem em Jesus, isto é, pelo reconhecimento e compromisso com a pessoa concreta de Jesus. Porém, onde está Jesus? Está identificado com os pobres e oprimidos, marginalizados por uma sociedade baseada na riqueza e no poder. Por isso, o julgamento será sobre a realização (ou não) de uma prática de justiça em favor da libertação dos pobres e oprimidos.

Essa fé, portanto, não é coisa teórica ou mero sentimento interior; é o compromisso que se manifesta concretamente em atos e fatos visíveis (Tg 2,14-26; cf. Mt 7,21).

O próprio Jesus não só ficou nas palavras, mas fez: toda sua ação neste mundo visou a restaurar a vida de cegos (Mt 9,28-30), paralíticos (Mc 2,1-12; Mt 11,5), doentes físicos (Mc 1,40-41) e mentais (Mc 5,8); visou a orientar as pessoas, despertando nelas a consciência crítica (Mt 5-7; Jo 13,14-15; Mt 23,1-6). Tal atuação nasce de profunda compaixão.

Na verdade, o extraordinário em Jesus era o fato de que Ele se misturava socialmente com os últimos dos últimos e identificava-se com eles. Por que Jesus agia dessa forma? A resposta surge muito claramente nos Evangelhos: a compaixão.

“Viu uma grande multidão e, tomado de compaixão, curou os seus doentes” (Mt 14,14). “Ao ver a multidão, teve compaixão dela, porque estava cansada e abatida como ovelhas sem pastor” (Mt 9,36, comparar com Mc 6,34). Ele foi tomado de compaixão pela situação e pelas lágrimas da viúva de Naim: “Não chores”, disse-lhe (Lc 7,13). Dizem-nos explicitamente que ele teve compaixão de um leproso (Mc 1,41), de dois homens cegos (Mt 20,34) e daqueles que não tinham o que comer (Mc 8,2).

O que tornou diferente o bom samaritano da parábola foi a compaixão que sentiu pelo homem deixado semimorto à beira da estrada (Lc 10,33). O que tornou diferente o pai amoroso da parábola foi o excesso de compaixão que sentiu por seu filho pródigo (Lc 15,20). O que tornou Jesus diferente foi a compaixão sem limites que ele sentiu pelos pobres e pelos oprimidos.

A palavra “compaixão” é fraca demais para exprimir a emoção que movia Jesus. O verbo grego splagchnizomai, usado em todos esses textos, é derivado do substantivo splagchnon, que significa intestinos, vísceras, entranhas, ou coração, isto é, as partes internas das quais parecem surgir as emoções fortes. O verbo grego, portanto, significa movimento ou impulso que brota das próprias entranhas da pessoa, uma reação das tripas. É por isso que os tradutores precisam lançar mão de expressões como “ele foi tomado de compaixão ou piedade”, ou “ele sentiu piedade”, ou “seu coração se comoveu com eles”. Mas nem mesmo essas expressões conseguem captar o profundo sabor físico e emocional da palavra grega para compaixão.

A compaixão de Jesus pelos empobrecidos(as) é resposta ao sofrimento por que passa o ser humano em tal situação. É importante sentir compaixão e simpatia pelos que sofrem, mas tudo isso se tornaria um mero sentimentalismo estéril se não mover a pessoa a uma ação concreta. Jesus partiu para libertar as pessoas de toda forma de sofrimento e angústia. E o fez concretamente através do contato físico com doentes (por ex. Mc 1,31.41; 6,56; 8,22-25). Ele as tocava, tomava-as pela mão, ou colocava sua mão sobre elas.

Por meio de tal prática, estava naturalmente incutido o desejo de despertar a mesma compaixão e a mesma fé nas pessoas ao seu redor. Nisso estaria se configurando concretamente a instauração do Reino de Deus no contexto concreto da história humana.

Não é essa também a nossa MISSÃO?

De fato, o Reino de Deus, como categoria teológica, expressa-se concretamente na história por meio de atitudes políticas que se fundam na solidariedade. A fé cristã é essencialmente comunitária, social. O seu ponto de referência é o Outro (Deus) e o outro (homem-mulher).

A partir da prática misericordiosa e transformadora de Jesus Cristo, sentir compaixão pelos que sofrem nos leva a uma mobilização que deslancha em ações concretas em prol dos/as crucificados/as pelo sistema social injusto. É preciso entender e assumir que a nossa PRÁTICA CRISTÃ é sobretudo uma PRÁTICA POLÍTICA. Não podemos dar as costas à política, não podemos dar as costas à nossa missão, se quisermos continuar sendo cristãos e cristãs no sentido verdadeiro da palavra.

Questionamentos importantes para a reflexão:

1) Honestamente, o que você sente pela grande massa populacional empobrecida e excluída da nossa sociedade?

2) Esse seu sentimento, tem levado você a agir concretamente de que maneira em relação a tais pessoas?

3) O que você precisa fazer para agir politicamente conforme o exemplo de Jesus e de tantas pessoas que souberam dar sentido à vida por meio da compaixão e da solidariedade?

4) E quanto ao questionamento inicial deste artigo: o que você responde agora, após a leitura do artigo?

Bibliografia utilizada

ECHEGARAY, Hugo. A prática de Jesus. Petrópolis: Vozes, 1984.

FABRIS, Rinaldo. Jesus de Nazaré: história e interpretação. São Paulo: Loyola, 1988.

GALLARDO, Carlos Bravo. Jesus: homem em conflito. São Paulo: Paulinas, 1997.

GNILKA, Joachim. Jesus de Nazaré: história e interpretação. Petrópolis: Vozes, 2000.

LOHSE, Eduardo. Contexto e ambiente do Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2000.

MALONEY, Elliott C. Mensagem urgente de Jesus para hoje: o Reino de Deus no Evangelho de Marcos. São Paulo: Paulinas, 2008.

NOLAN, Albert. Jesus antes do cristianismo. São Paulo: Paulinas, 1988.

PIKAZA, Xabier. A figura de Jesus: profeta, taumaturgo, rabino, messias. Petrópolis: Vozes, 1995.


[1] João Luiz é teólogo, professor da Universidade Católica de Pernambuco.

[2] Irmã Rozário é religiosa, integrante da Pastoral e do INSTITUTO HUMANITAS da Universidade Católica de Pernambuco.

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agosto 13th, 2010 Postado por : admin Arquivado em: Publicações

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