No princípio, a bênção

Por Marcelo Barros [1]

No interior do Rio Grande do Sul e Santa Catarina as chuvas provocam inundações destruidoras. Enquanto isso, perto de São Paulo, católicos tradicionais fazem procissões para pedir a Deus chuva que melhore o nível de água das represas que abastecem as cidades. A situação é tal que até Deus parece impotente. A destruição ecológica produzida pela ambição humana fará a Terra sofrer cada vez mais contrastes extremos. Parecem gritos de dor do planeta sofrido. Por isso, no norte de Minas, algumas comunidades indígenas sobem a Serra da Mantiqueira para fazerem rituais de cura da mãe Terra.

 Enquanto as tradições espirituais indígenas e afrodescendentes sempre viram todas as criaturas como sagradas e procuraram descobrir a presença divina no universo, as Igrejas cristãs despertaram recentemente para a responsabilidade ecológica. A teologia cristã nunca negou a bondade das coisas criadas e a presença amorosa do Espírito em todo o universo. Mas, por motivos culturais, acabou se concentrando mais na história do pecado humano e da redenção realizada pelo Cristo. Hoje, os cristãos continuam a afirmar a centralidade da morte e ressurreição de Jesus para a fé bíblica, mas procuram ligar a revelação de Jesus no Evangelho à importância da natureza como permanente e incessante criação divina. Antes, as Igrejas sublinhavam mais os acontecimentos da salvação oferecida à humanidade através de Jesus. No entanto, a respeito da criação, Paulo escreve que “onde o pecado abundou, a graça divina foi ainda mais transbordante” (Rm 5, 20). Isso significa que mesmo a grande desordem humana, presente na história e todo o mal que daí decorre não conseguem diminuir a beleza da vida e a energia amorosa da bênção divina para todo o universo.

Nos evangelhos, Jesus fala na criação do universo ao falar no reino de Deus. Nas culturas antigas, afirmar o reinado divino era lembrar que o cosmos é dirigido por uma inteligência amorosa. Por isso, Jesus disse: “Olhem os pássaros do céu. Olhem os lírios do campo. Deus cuida deles. Não vai cuidar de vocês?” (Mt 6 e Lc 12). E, aos pobres, confirma: “vosso é o reino divino” (Lc 6, 20). Isso significa que todo ser humano tem uma dignidade de rei neste reinado divino no mundo. Mestre Eckhart, um dos maiores místicos cristãos da Idade Média, ensinava: “Todo ser humano é de sangue real. Nasceu das profundezas mais íntimas da natureza divina e do projeto divino de ter um representante seu para espalhar amor e assim recriar permanentemente toda criação divina”.

A interpretação literal da Bíblia levou as pessoas a pensar que tinham direito de dominar a natureza e explorá-la em seu proveito. O Capitalismo que domina grande parte do mundo olha a terra, as plantas e os animais apenas como mercadorias a serem explorados. Uma espiritualidade verdadeira mostra a dignidade própria de todo ser vivo e como a terra, os animais e as plantas merecem respeito.  

A Bíblia ensina que o ser humano recebeu de Deus a missão de ser jardineiro e gerente do universo criado pelo amor divino. Ser testemunha do amor divino é superar a ideia de um deus que poderia nos fazer medo. Se Deus existe, só pode ser amor e bênção para nós e para todo o universo. Bênção significa pronunciar uma palavra que produz bem (bendizer é dizer o bem). É comunicar amor e paz. A bênção divina restaura a cada dia a natureza. Ela nos faz sentir parte desta criação divina, unidos a todos os seres vivos. Alegra, consola e fortalece a cada um de nós na caminhada da vida. Ao ressuscitar, Jesus elevou consigo toda a energia do universo e quer levar a criação à sua plenitude. Então, como afirmou São Paulo, “Deus será tudo em todos” (1 Cor 15).

MarceloBarros[1] Marcelo Barros, monge beneditino, é biblista de formação e atualmente coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). É assessor nacional das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-descendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação.

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agosto 08th, 2014 Postado por : vieira Arquivado em: Marcelo Barros

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