O religioso, o social e o político

Por Marcelo Barros [1]

Nesses dias, a cúria da arquidiocese do Rio de Janeiro proibiu que uma equipe de cinema pudesse filmar uma cena aérea do Rio de Janeiro que incluía a imagem do Cristo Redentor. A cúria afirmou ser proprietária do monumento do Cristo Redentor e considerou que o roteiro do filme poderia ser ofensivo à figura de Jesus. Sem querer entrar nessa polêmica, me coloco simplesmente do lado da pessoa comum que lê jornais e, de alguma forma, acompanha esse tipo de debate. É um incidente que mostra uma imagem da Igreja Católica e de sua hierarquia que não é aquela que o papa Francisco propõe: a de uma Igreja “em saída”, em diálogo amigo com a humanidade. Mesmo assim, podemos aproveitar esse fato para formar alguns critérios e aprofundar esse assunto da relação entre o religioso, o social e o político. Sobre isso, Luiz Alberto Gomez de Souza fez um excelente estudo e em si nada teríamos a acrescentar à sua reflexão. Quero apenas recordar alguns dos argumentos que ele desenvolveu e provocar uma reflexão mais bíblica e teológica que complemente a reflexão:

1o – O Cristo Redentor, ou outra imagem qualquer do Cristo não pode ser confundida com a própria pessoa de Jesus. A estátua é apenas uma representação. Quando alguém diz que um filme poderia ser ofensivo ao Cristo, sem dúvida, a ofensa não seria à imagem e sim à pessoa de Jesus. Essa forma de pensar parte do princípio que Jesus precisa ser defendido por detentores de sua imagem e que esses o protegem contra os descrentes. Conforme os evangelhos, Jesus fez o contrário. Conviveu com pecadores, gente de vida errada e descrentes. E testemunhou a Deus como um “pai que faz nascer o sol sobre pessoas boas e más e faz chover igualmente sobre justos e sobre injustos” (Mt 5, 45). Do mesmo modo, Paulo escreveu: “Há pessoas que falam de Jesus por amor e há outras que o fazem por inveja ou com vontade de polemizar. (…) O que importa? De um modo ou do outro, Cristo é anunciado e disso me alegro e sempre me alegrarei” (Fl 1, 15 e 18). Paulo explicita aí um critério oposto a quem censura e proíbe que se fale do Cristo, por medo de que ele possa ser ofendido.

   2o – O Cristo não é propriedade exclusiva de nenhuma Igreja. Aliás, não é propriedade de ninguém. Dele são todas as Igrejas cristãs e nenhuma deveria se arvorar em ser dona de sua imagem, como uma grife comercial que, na sociedade capitalista, tem contrato de exclusividade.

3o – O monumento do Cristo Redentor foi construído em uma época de atrelamento da Igreja Católica ao Estado. Como bem lembrou Luiz Alberto Gomez de Souza, o Brasil é um estado laico. Quando uma iniciativa de um determinado grupo eclesiástico fere esse espírito é a própria Igreja e todo o país que perde com isso.

Luiz Alberto liga esse incidente da imagem do Cristo Redentor com a campanha eleitoral que está começando. Se o panorama não mudar, a mistura entre religioso, social e político que criou problemas e confusão nas eleições presidenciais passadas poderá dessa vez voltar com ainda mais força. Nessas eleições, temos até um pastor pentecostal, candidato à presidência da República. O seu programa é defender o que ele chama de “princípios cristãos e a valorização da família”.

Atualmente, cada vez mais cristãos das mais diversas Igrejas, desde as históricas, até também comunidades pentecostais redescobrem que Jesus foi condenado pelo poder político do império, mas também pelo poder religioso do templo. Este se sentia ameaçado e condenou Jesus para proteger o que os sacerdotes e fariseus consideravam ser os interesses de Deus. No entanto, se tratavam dos interesses daqueles grupos religiosos e não de Deus. É pena que até hoje, há pessoas que tomam atitudes arrogantes e fanáticas acreditando estar defendendo Cristo de possíveis ofensas.

É importante que nessa campanha política que agora se inicia nos mantenhamos alertas para votar no partido que tenha como proposta o serviço ao povo e a causa dos mais empobrecidos e não apenas os interesses de um grupo religioso ou de uma elite social. Conforme o evangelho, é no cuidado prestado ao mais pequenino dos irmãos necessitados que nós reconheceremos e serviremos a Jesus. Esse cuidado não pode ser apenas vivido como assistência eventual de uma esmola e sim como compromisso para transformar o Brasil em um país mais justo, no qual os empobrecidos não sejam mais apenas objetos de politicas compensatórias e se tornem protagonistas de sua própria libertação.  

MarceloBarros[1] Marcelo Barros, monge beneditino, é biblista de formação e atualmente coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). É assessor nacional das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-descendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação.

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julho 22nd, 2014 Postado por : vieira Arquivado em: Marcelo Barros

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