2º CONCÍLIO DA IGREJA DOS POBRES DA NAÇÃO ROMEIRA

 (2º Seminário dos Romeiros e Agentes de Pastoral de Romaria  – Comissão Diocesana da Pastoral de Romaria – Diocese de Crato – Anotações e impressões de um participante)
Caruaru, 02, 03 e 04 de maio de 2014
Por Artur Peregrino[1]

“Cercados por tantas testemunhas (profetas e profetizas) vamos continuar a caminhada, correndo em direção à meta que nos foi proposta por Deus”. (Hb 12.1)

Irmãs e irmãos da caminhada,

Caruaru, a capital do Agreste pernambucano, recebeu romeiros de vários lugares do Nordeste para mais um encontro da Igreja dos pobres a caminho. Logo que iam chegando foram cantando um bendito feito especialmente para o 2º Concílio da Nação Romeira que dizia: Eu vou pra romaria em Caruaru / Tem romeiros do Nordeste, do Norte e do Sul.

Com a coordenação da Ir. Annette Dumoulin e apoio de toda Comissão de Pastoral de Romaria do Crato, Artur Peregrino e o padre Vileci Vidal, assessoraram o andamento dos trabalhos. Vale recordar que dedicamos nosso encontro a Irmã Romeira Ana Tereza, Irmã Therezinha Stella Guimarães, da congregação Cônegas de Santo Agostinho. Ela fez sua Páscoa e entregou toda sua vida partilhando a alegria de ter encontrado o Senhor em sua Palavra amorosa. Ela foi uma luz evangélica que se concentrou no essencial. Estava conosco no 1º Concílio da Nação Romeira em 2012. Sua presença entre nós era de alguém que semeou muito. Ela sabia que o jeito que a semente vai brotar, está na esfera do mistério. Estes sinais são visíveis na Nação Romeira. Obrigado Ir. Ana Tereza!

A pastoral de romaria, em comunhão com toda Igreja do Brasil observou o planejamento da CNBB, a partir das Diretrizes da Ação Evangelizadora – 2011/2015, que diz: Evangelizar, a partir de Jesus Cristo e na força do Espírito Santo, como Igreja Discípula, Missionária e Profética, alimentada pela Palavra de Deus e pela Eucaristia, à luz da Evangélica Opção Preferencial pelos pobres, para que todos tenham Vida, (Jo 10,10) rumo ao reino definitivo.

Fizemos uma memória do 1º Concílio da Igreja Romeira acontecido em 2012. O tema da Espiritualidade do Caminho e do Templo. Lembramos as palavras do Padre Alfredo Gonçalves, nosso amigo e amigo dos migrantes, que dizia: “Quem caminha tem o horizonte da história aberta. Quem caminha purifica a mala e purifica a alma. Quem caminha passa a se simplificar, leva bagagem pequena, quem caminha leva apenas o necessário, Quem caminha depura a mala e depura a alma. Quem caminha vê o templo como uma casa de repouso para retomar logo o caminho”.

O Concílio da Igreja dos Pobres da Nação Romeira é um momento de tomar um banho de Espiritualidade do Caminho, Espiritualidade Romeira. É um encontro da Igreja dos Pobres. Segundo o papa Francisco, em sua exortação apostólica, A Alegria do Evangelho, “para a Igreja a opção pelos pobres é mais uma categoria teológica do que cultural, sociológica, política ou filosófica”. Deus se manifesta a eles, por isso é preciso que “todos nós nos deixemos evangelizar por eles”. Os romeiros vivem uma espiritualidade do caminho. Essa espiritualidade tem a lucidez das estradas e naturalmente dos pobres e da natureza no seu entorno. Os estudos e aprofundamentos que aconteceram neste encontro da Nação Romeira têm nos mostrado que a Espiritualidade Romeira se afirma muito mais pelo encontro e diálogo com os pobres, e seus amigos no caminho, que com quem se situa a partir do Templo. A Espiritualidade Romeira, que é uma Espiritualidade do Caminho centrada no grito dos pobres, marginalizados e excluídos, expressa-se com justiça, Tolerância e Diálogo onde a imagem de Deus será sempre inclusiva e amorosa.

Todos receberam um livrinho de cântico com toda programação. A música, o canto, fez parte integrante de todo encontro. Do início ao final. O povo romeiro é um povo cantante. É um povo festivo. Através de seus benditos e cânticos expressam sua visão de mundo. O canto do povo romeiro faz voltar à fonte que anima a fé e irriga a esperança. O cântico expressa a consciência da Nação Romeira. O canto na linha da tradição romeira é um alimento que mexe com raízes que vão para além do alcance da razão. Certa vez, o poeta Vital Farias, assim se expressou: “Só é cantador quem traz no peito o cheiro e a cor de sua terra, a marca de sangue dos seus mortos e a certeza de luta de seus vivos”. De fato, o canto ajuda a não desistir da caminhada e a resistir em um jeito próprio de ser igreja no coração do Nordeste.

Foi com esta atitude romeira, de continuar o caminho, que 90 participantes (romeiros e agentes de pastoral) aceitaram a convocação do 2º Concílio da Igreja dos Pobres da Nação Romeira. O Agreste pernambucano vibrou de alegria ao se tornar a “casa” acolhedora onde romeiros de todo Nordeste puderam chegar para refletir sobre a caminhada tendo presente o tema: “Padre Ibiapina, Padre Cícero, Frei Damião e os Beatos e Beatas nos caminhos Romeiros do Nordeste”.

Há um provérbio africano que diz: “há gente simples fazendo coisas pequenas, em lugares pouco importantes, conseguindo mudanças extraordinárias”. Assim é o povo romeiro. O romeiro passa a ser um facho de luz no lugar em que mora.

Um outro subsídio foi entregue a cada participante. Profetas da Caminhada e Santos do Povo Nordestino, 2º Concílio da Igreja dos Pobres da Nação Romeira foi o título. O texto apresenta uma introdução onde o assunto dominante é manter vivo o equilíbrio entre a Espiritualidade do Caminho e do Templo. O texto contém também o relato de pessoas que foram testemunhas e deram a vida pela causa do Reino de Deus, se colocando a serviço dos marginalizados de sua sociedade. Foram elas: Padre e Mestre Ibiapina: Missão Criativa junto aos pobres (1806 – 1883); Os Beatos e Beatas – Antônio Conselheiro: a conquista de um lugar para os pobres (1830 – 1897); Padre Cícero: Patriarca do Nordeste (1844 – 1934); Frei Damião: Apóstolos do Nordeste (1898 – 1997); Monsenhor Murilo: o Vigário do Nordeste (1930 – 2005); Os romeiros e os anjos da Pastoral de Romaria” – o Caminho e o Templo. As leituras dos textos eram aprofundadas a partir de perguntas provocadoras. Isso olhando o exemplo de vida e o legado deixado pelos personagens de nossa história. Com certeza foi uma decisão acertada, escolher estas figuras proféticas para a reflexão em todo encontro. Cada figura profética é um facho acesso para continuarmos nossa missão profética hoje. Verificou-se qual a herança que cada personagem profética deixou e como estamos vivendo nos dias de hoje.

Os desafios para os agentes de Pastoral de Romaria continuam. Como fazer uma Pastoral de Romaria que fale ao coração do romeiro? O agente de pastoral tem a missão de apresentar o belo e o bem, a fim de alcançar os corações. Para isso vimos que nossas estruturas tem que transformar-se em lugar de acolhimento. Os olhos de quem acolhe devem brilhar. O amor ao romeiro começa por um movimento em direção a ele. Após alguém deixar-se atingir pelo olhar do romeiro, é necessário que ele dê o primeiro passo de ir ao encontro desse romeiro. Não se faz pastoral de romaria num escritório, diante de um computador.  Para iniciar esse processo há necessidade de contato pessoal. A pastoral de romaria é um caso de amor. O amor começa no momento da percepção do olhar questionador que se dirige ao agente de pastoral. Sem a percepção do olhar do romeiro, o resto se torna abstrato. Ninguém perde por dar amor, perde é quem não sabe receber.

Sob o olhar da Mãe das Dores e de meu Padrinho Cícero realizamos um Concílio rico em humanidade e espiritualidade. Ao pé da cruz, Cristo nos leva a Maria. A Mãe das Dores é aquela que tem o coração transpassado pela espada que compreende tudo. Maria, Mãe das Dores, é a grande patrona da Nação Romeira. Ela é sinal de esperança para todos que sofrem as dores do parto. Ela é a missionária que está junto de todo romeiro e agente pastoral de romaria com seu afeto materno. Daí surge o verdadeiro acolhimento. Olhar Maria é acreditar na força revolucionária da ternura e do afeto.

Quanta coisa para agradecer a Deus! Quanta coisa para contar aos que estão à nossa espera! A espiritualidade vivida pela Nação Romeira nos anima a continuar o caminho. Caminho da esperança de dias melhores e por isso lutamos por um mundo onde se viva a justiça e a solidariedade.

Os nossos profetas da caminhada e santos do povo nordestino nos deixaram seus exemplos de vida. “Oxalá vocês escutem hoje o que Ele diz” (Sl 95, 7).  Agora compete a nós continuar o caminho. Termino com uma frase que escutei de um romeiro de Alagoas partilhando sua motivação para participar do Concílio: “Nós quer lembrar os nossos santos para continuar seu caminho aqui na terra”.

 


[1] José Artur Tavares de Brito é Mestre em Antropologia Cultural pela Universidade Federal de Pernambuco (1999). Possui graduação em Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1995), graduação em Bacharelado em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1996), graduação em Teologia pelo Instituto de Teologia do Recife (1987). Tem experiência na área de Antropologia, com ênfase em Antropologia da Religião, atua principalmente nos seguintes temas: teoria da complexidade, antropologia urbana, sistemas simbólicos, ritualidade, catolicismo, terra, sertanejo, contemporaneidade, religião, cidade e pastoral. É integrante do grupo de pesquisa Transdisciplinaridade e Diálogo entre Culturas e Religiões. Atualmente é Professor da Universidade Católica de Pernambuco – UNICAP e colaborador do Instituto Humanitas Hunicap – IHU.

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julho 17th, 2014 Postado por : vieira Arquivado em: Notícias

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