Inti Raimi, a festa do Sol

Por Marcelo Barros [1]

Nessa semana, a partir do 23 de junho, dia do solstício do inverno no hemisfério sul, a partir da Plaza Mayor de Cuzco e por muitos recantos da Cordilheira dos Andes, os Quétchua e outros grupos indígenas realizam os festejos de Inti Raimi, a festa do renascimento do Sol Rei da vida. Corresponde ao 24 de dezembro do hemisfério norte, festa que, no século IV, deu origem às festas atuais do Natal. Nos Andes, a festa de Inti Raimi vem do tempo dos antigos Incas. As comunidades indígenas nunca deixaram de celebrá-la, mas, durante séculos, por causa da opressão dos sistemas coloniais, foi proibida. Nas últimas décadas, ganhou a praça e a liberdade. Não pelo fato da sociedade ter se tornada mais pluralista e acolha melhor as manifestações indígenas em sua profundidade, mas porque as agências de turismo descobriram que essa festa, com seus costumes ancestrais, atrai visitantes e rende dinheiro.

Alguns grupos de cristãos fundamentalistas condenam a festa como idolátrica. Eles preferem ver na vida e na cultura do povo mais a ação do diabo do que a presença amorosa de Deus que se manifesta de mil maneiras, se revela com mil nomes e ama tanto a humanidade que encontra seus filhos e filhas, onde quer que eles estejam, no Carnaval, nas festas juninas ou no Inti Raimi.  Aliás, no Brasil, as festas juninas correspondem ao Inti Raimi andino.

Essas festas têm origens pré-cristãs e estão ligadas às mudanças de estação. No Brasil, o catolicismo popular promoveu os festejos de Santo Antônio, São João e São Pedro com brincadeiras caipiras, quadrilhas e comidas típicas de cada região. Algumas das danças juninas vieram das cortes da Europa e são hoje o que se chamam “quadrilhas” que ainda usam termos franceses e fazem as pessoas se vestir de caipiras e dançar como a nobreza de outros séculos. Nos “casamentos da roça”,  as comunidades caricaturam figuras como padres e juízes, como se eles só se interessassem por dinheiro e a polícia estivesse sempre a serviço deles. Em tom de brincadeira, essas críticas revelam o modo como as camadas mais empobrecidas do povo podem expressar sua crítica e seu protesto social. Também ao venerar os santos de sua devoção (Santo Antônio, São João e São Pedro, as comunidades aproximam as figuras dos santos da realidade da vida e relativizam a imagem por demais sisuda e até tristonha que, tantas vezes, a religião cristã tradicional costuma dar aos assuntos do céu. Ao venerarem Santo Antônio como “santo casamenteiro”, São  João com a fogueira que “deve ser acesa no meu coração:”, o povo simples liga os santos às realidades do dia a dia.

No Cristianismo antigo, São João Batista era o santo mais venerado da Igreja. Junto com Maria, mãe de Jesus, é o único santo do qual, a cada ano, os fiéis celebram o nascimento (24 de junho) e a morte (29 de agosto). Para os evangelhos, ele tem a missão de preparar os caminhos para Jesus no mundo e no coração de cada um/uma de nós. Para o evangelho de João, ele é mais ainda: é testemunha da presença de Jesus como filho e enviado do Pai que vem trazer alegria ao mundo inteiro. O próprio nome João significa “Deus dá a graça”. Por isso, festejar São João é também reconhecer a graça divina presente em nossas vidas.

Outro aspecto que as festas juninas revelam é que nosso povo tem uma grande capacidade de se organizar (quando deseja e se o assunto é do seu mundo afetivo). Em um mundo sem perspectivas, esse caráter lúdico da crítica popular, latente nas brincadeiras juninas, pode ser um ensaio não apenas de uma dança de quadrilha ou de uma encenação caipira. Os mesmos índios que desfilam de roupas longas e coloridas na Plaza Mayor de Cuzco derrubam governos, exigem justiça e ensaiam uma sociedade nova na qual todos são protagonistas. Assim, na alegria e de forma despretensiosa, grupos e comunidades populares sinalizam uma realidade nova que se aproxima ao que os evangelhos chamam de reinado de Deus. Do seu modo e em sua linguagem lúdica, traduzem uma palavra que os evangelhos atribuem a São João Batista: “Mudem de vida porque a realização do projeto de Deus no mundo está próximo!” (Mt 3, 2). 

MarceloBarros[1] Marcelo Barros, monge beneditino, é biblista de formação e atualmente coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). É assessor nacional das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-descendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação.

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junho 25th, 2014 Postado por : vieira Arquivado em: Marcelo Barros

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