O papa, Jerusalém e a Palestina

Por Marcelo Barros [1]

Nesse domingo, 25 de maio, o papa Francisco chegou a Jordânia e de lá foi a Jerusalém e a Belém. Quis assim retomar a peregrinação que, há 50 anos, o papa Paulo VI fez à Terra Santa, onde se encontrou com Atenágoras, bispo de Constantinopla, o mais importante dos patriarcas das Igrejas do Oriente. Ali os dois se abraçaram e cancelaram a excomunhão mútua que, em 1054, o papa e o patriarca da época emitiram cada um contra a outra Igreja. Aquele encontro de janeiro de 1964 entre o papa e o patriarca foi o primeiro grande gesto de reconciliação e unidade entre as Igrejas do Oriente e do Ocidente. Agora, o papa Francisco quis retomar esse gesto. Fez o mesmo itinerário de Paulo VI e levou consigo dois amigos de confiança: o rabino chefe do Judaísmo em Buenos Ayres e o imã que dirige os muçulmanos daquela região da Argentina. Em Jerusalém, rodeado por esses dois representantes das  religiões maioritárias naquele país, o papa se encontrará com Bartolomeu I, atual patriarca de Constantinopla e primeiro dos patriarcas cristãos do Oriente. Depois de anos em que o diálogo entre as Igrejas ortodoxas e a Igreja Latina foi prejudicado por gestos de arrogância eclesiástica e proselitismo, esse gesto dos dois pastores irmãos poderá ser muito importante para todas as Igrejas cristãs.

   Nesse momento em que lhes escrevo, não sei ainda como a visita transcorrerá. Possivelmente, os órgãos de segurança do Estado de Israel farão de tudo para que o papa e o patriarca não tenham contato com a realidade dolorosa e terrível do povo palestino. No entanto, além da profecia de unidade que o encontro do papa e do patriarca em Jerusalém significa, é importante que essa visita deixe claro: para Deus, a vida das pessoas empobrecidas e a realização da justiça são mais importantes do que qualquer relíquia histórica. Por  mais que os lugares da vida de Jesus sejam queridos e veneráveis para os cristãos, o lugar mais sagrado em que Deus nos encontra é sempre a vida e a pessoa das pessoas que sofrem injustiça e esperam de nós, crentes, o testemunho de que Deus é misericórdia e justiça.

É importante que essa visita do papa possa ajudar o mundo a levantar o véu que encobre a realidade social e política daquela região e mobilize a sociedade internacional a se solidarizar com os palestinos. Trata-se de um dos povos mais empobrecidos, explorados e perseguidos que, hoje, existem no mundo. É preciso denunciar com toda clareza que a repressão violenta e a ocupação militar que, diariamente, o Estado de Israel comete contra as comunidades palestinas é um crime contra a humanidade. Além disso, a cada dia, judeus ortodoxos chegam com sua família e acampam em colinas e terrenos que a ONU designou para as comunidades palestinas. Com o apoio do governo, esses colonos judeus começam a cada dia uma nova cidade. Assim, os palestinos são expulsos de sua própria terra. Aqueles que protestam são perseguidos, torturados e muitas vezes assassinados.

Apesar de que os conflitos em Israel são de natureza social e política e nada têm a ver com a religião, envolvem comunidades de três grandes tradições espirituais. No passado, pela posse de Jerusalém, muçulmanos mataram judeus, cristãos fizeram cruzadas contra os muçulmanos e atualmente judeus fundamentalistas usam textos bíblicos para justificar seu imperialismo contra palestinos. Por isso, é importante que as religiões se unam no mesmo testemunho de que Deus é amor e seu projeto é de paz e justiça para todos.

Recentemente, cristãos da Terra Santa escreveram juntos um documento que se chama Kairós Palestina. Um documento semelhante, feito por cristãos da África do Sul, nos ano 80, foi importante na luta para vencer o apartheid naquele país. Esperamos que esse consiga mobilizar a solidariedade de todas as pessoas de paz e desejosas da justiça no mundo inteiro em uma grande campanha de solidariedade ao povo palestino massacrado por um império militar que nada tem a ver nem com a religião judaica, nem com o generoso povo de Israel do qual nasceu Jesus, profeta e enviado de Deus para nós.

Que a visita do papa Francisco e do patriarca Atenágoras possa nos conduzir ao caminho da justiça e da paz na Palestina e no mundo inteiro. 

MarceloBarros[1] Marcelo Barros, monge beneditino, é biblista de formação e atualmente coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). É assessor nacional das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-descendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação.

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maio 26th, 2014 Postado por : vieira Arquivado em: Marcelo Barros

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