O Capitalismo e o tráfico humano

Por Marcelo Barros [1]

Entre as diversas datas que, anualmente, a ONU promove, nessa semana, especificamente, no dia 23 de maio, celebraremos a solidariedade com os povos de todos os territórios coloniais e, no dia 25, o dia da libertação da África. Tanto a superação do colonialismo, como a libertação plena dos povos não se completará enquanto a humanidade não passar da competição para a cooperação, da idolatria do dinheiro para o reconhecimento da sacralidade de toda a vida. Desde o século XIX, já se sabe que, por sua própria natureza, o Capitalismo faz das pessoas humanas mercadoria e gera uma cultura na qual a pessoa vale pelo que produz ou pelo que pode valer de dinheiro.  Não é por acaso que, nesse tipo de sociedade, depois da droga, o tráfico humano é o segundo império comercial maior do mundo.

Na Itália, acaba de ser publicado um livro no qual um jornalista entrevista um criminologista, especializado na investigação do tráfico internacional de pessoas. Em um trabalho que durou dois anos, pela primeira vez no mundo, o jornalista e o criminologista conseguiram levantar ou descobrir método, rotas e a organização interna de empresas que em inglês se chamam “smuggling” e que consiste no tráfico de pessoas para serem vendidas como escravas. Essas empresas têm escritórios, computadores, telefones, carros, barcos e até em alguns casos aviões. Conforme o livro[2], os lucros dessa holding giram em torno de dez bilhões de dólares ao ano.

  Há concorrência internacional e os chefes são ocultos da polícia e da imprensa, mas são conhecidos de todos. El Douly, 40 anos, um chefe do tráfico humano no Egito, declarou que se trata de uma organização internacional descentralizada e que atua como rede. Essa máfia tem empresas de fachada que funcionam para ter conta em banco, transferir dinheiro, abrir um escritório em capitais e administrar o tráfico de migrantes clandestinos que trabalharão no tráfico de drogas ou na prostituição ou simplesmente na segurança.

O tráfico humano se aproveita de guerras, de epidemias de fome e do desemprego que assola no mundo, como resultado do neoliberalismo e se enriquece com a migração forçada de milhares e milhares de pessoas. Não existem cifras exatas, mas se calculam que no mundo, chegam a 800 mil, as pessoas que, a cada ano, são vítimas do tráfico humano entre migrantes clandestinos enganados por agenciadores, moças e rapazes que buscam emprego e caem vítimas das redes de prostituição internacional, crianças que são roubadas e vendidas para escravidão infantil ou tráfico de órgãos.  Atualmente, o mundo estarrecido toma consciência do sequestro de meninas e adolescentes em regiões da Nigéria. Embora as motivações pareçam diferentes, já que o pano de fundo é o fundamentalismo religioso, a cultura é a mesma.

O livro sobre o tráfico humano trata desse flagelo na região do Mediterrâneo, portanto na Europa e na África. Ao fazerem essa pesquisa, os dois autores descobriram redes que se estendem pela Ásia e pela América de norte a sul. No Brasil, a Campanha da Fraternidade desse ano, coordenada pela conferência dos bispos católicos (CNBB), tem como objetivo denunciar e lugar contra o tráfico humano. É fundamental que, após a Quaresma e Páscoa, essa campanha não acabe e se crie uma consciência coletiva que impossibilite no mundo esse tipo de crime contra a humanidade.  É tarefa de cada pessoa e comunidade espiritual comprometer-se para que toda pessoa humana seja respeitada em sua dignidade e sua liberdade fundamental. Como escreveu o apóstolo Paulo, “foi para que sejamos livres que Cristo nos libertou” (Gl 5, 1).

 

MarceloBarros[1] Marcelo Barros, monge beneditino, é biblista de formação e atualmente coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). É assessor nacional das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-descendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação.

[2] – Cf. ANDREA DI NICOLA e GIAMPAOLO MUSUMECI, Confessioni di un trafficante di uomini, Chiarelettere, 2014.

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maio 19th, 2014 Postado por : vieira Arquivado em: Marcelo Barros

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