Para um Dia das Mães mais humanizado

Por Marcelo Barros [1]

O Dia das Mães é considerado pelo comércio a festa mais importante do ano, logo depois do Natal. É claro que essa importância é medida pelo volume de vendas nesses dias. De fato, embora em datas diferentes, quase todos os países têm um “dia das mães”. Mesmo em tempos mais duros, na Cuba socialista, descobri que todo filho procurava comprar algum presente para a sua mãe.

De fato, em uma sociedade em que as famílias são obrigadas a se dispersar para sobreviver, certamente, é bom ter um dia em que os filhos e filhas voltam à casa para conviver e expressar seu amor pela figura da mãe.

No contexto brasileiro, cada vez mais é frequente encontrar mães que assumem sozinhas a responsabilidade de criar e educar seus filhos. Recentemente, o papa Francisco afirmou: “Mães solteiras não são menos mães. Toda mãe é mãe e é o que basta”. Em nossas periferias, em muitos casos, as famílias são governadas pelas mães e a presença masculina é quase só de passagem. E, em geral, as mães assumem essa tarefa com muita dignidade e competência.

Infelizmente, nas situações de desumanidade, em meio a população de rua e de forte degradação social, tem sido cada vez mais comum encontrar jovens mães dependentes de crack que não conseguem dar leite e alimento algum a seus filhos recém-nascidos ou pequenos. Em muitos casos, a tragédia é que, ao sentir-se angustiadas com o choro das crianças famintas, elas colocam na mamadeira um pouco da droga para dopá-los. São casos nos quais o vício consegue vencer o instinto do amor maternal. Isso também tem ocorrido em situações limites de violência e até de morte que têm sido notícia nacional. É difícil imaginar que  uma mãe chegue ao ponto de matar seu próprio filho ainda criança.

É possível ler isso como casos monstruosos e pessoais, mas certamente merece uma leitura mais estrutural da sociedade, na qual isso ocorre. Afinal, toda planta tem frutos, mas só se conhece bem sua natureza quando se estudam as raízes. A função materna supõe uma sociedade que não destrói a família e não corrompe as relações reduzindo tudo ao dinheiro ou à mercantilização das pessoas.

Nesses próximos dias, o 13 de maio nos lembra o acontecimento que a história oficial chama de “abolição da escravatura”. Esse nome é ambíguo porque todos sabemos que a Lei Áurea jogou milhares de famílias negras na rua, sem nenhuma indenização ou possibilidade de sobrevivência digna. Durante os longos séculos da escravidão oficial e mesmo depois, no sistema social que escraviza as pessoas sem assumir que o faz, a figura da mãe negra é quase a imagem de uma mártir sofredora. Ela dá a sua vida por seus filhos e garante às novas gerações de pobres o milagre da sobrevivência e a permanente busca da dignidade humana.

Nesse sentido, o dia das mães poderia ser uma data não apenas para dar presente às nossas mães, mas para possibilitar que o carisma maternal possa ser vivido por todas as mulheres que são mães, independentemente de sua classe social e de seus recursos humanos.

Nas tradições espirituais, toda mãe é uma parábola viva do amor divino e do comportamento que cada ser humano deveria desenvolver. Conforme a tradição budista, cinco séculos antes de Cristo, no famoso sermão de Benarés, Sidharta Guatama,  o Buda, afirmou: “Todo ser humano deve olhar o seu semelhante como uma mãe carinhosa e cheia de ternura vê o próprio filho ou filha que carrega em seu útero”.

Na Bíblia, escrita em uma sociedade de cultura patriarcal, a imagem mais comum da divindade é a de um pai bondoso que vela pela vida de seus filhos e filhas. No entanto, diversas vezes, os profetas falaram de Deus como mãe que cuida carinhosamente de nós. E Isaías chega a nos dizer como palavra de Deus: “Poderia uma mãe esquecer ou abandonar o seu próprio filho? Do mesmo modo, eu jamais deixarei de cuidar carinhosamente de vocês” (Is 45).

No Evangelho, Jesus  diz a seus conterrâneos: “Assim como uma mãe galinha junta seus pintinhos debaixo das asas, eu quis reunir vocês” (Lc 13, 34). E, conforme o quarto evangelho, no seu discurso de despedida pascal, afirmou: “Quando uma mulher está para dar a luz sofre porque chegou a sua hora, mas depois que dá a luz fica contente por ter dado ao mundo uma pessoa nova. Assim também eu verei vocês de novo e aí a alegria de vocês será perfeita” (Jo 16, 21 ss). Assim ele compara sua manifestação à comunidade como ressuscitado a um parto que gera vida nova. Assim, ele fez de toda mãe uma imagem profética da sua ressurreição e de vida nova para toda a humanidade e o universo. 

MarceloBarros[1] Marcelo Barros, monge beneditino, é biblista de formação e atualmente coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). É assessor nacional das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-descendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação.

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maio 05th, 2014 Postado por : vieira Arquivado em: Marcelo Barros

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