Ressurreição e Transformação

Por Marcelo Barros [1]

Nesses dias, as comunidades cristãs celebram a ressurreição de Jesus, como o eixo fundante da fé e garantia de vida nova para todas as pessoas que creem. O apóstolo Paulo afirmou: “Se Cristo não ressuscitou, a nossa fé é inútil e vazia. Além disso, nós (que cremos nisso) seríamos de todas as pessoas, as mais dignas de lástima” (1 Cor 15, 18- 19). No entanto, a fé de que Jesus ressuscitou não diz respeito somente a ele. Afirma que ele, Jesus, é o primeiro fruto de uma humanidade nova e início de um universo transformado.

Através de todas as filosofias, culturas e religiões, a humanidade sempre se debateu diante da morte como um enigma e sobretudo como um escândalo. De tal forma, as pessoas aspiram à vida e a uma vida plena, que a ideia de uma vida que vence a morte está incrustrada no mais profundo do coração humano. Em todas as culturas e religiões, de algum modo, persiste um horizonte de esperança. A tradição judaica assume essa tradição quando ensina que, no final da história, o amor divino realizará uma transformação radical e absoluta do mundo e da vida. No primeiro testamento, o termo ressurreição aparece como parábola do ressurgimento do povo de Israel como povo livre e altaneiro, “de pé” e congregado pelo Espírito (Ver Ezequiel 36 e 37). No Novo Testamento, as cartas paulinas e os evangelhos afirmam que a ressurreição de Jesus é o inicio de um mundo novo e de uma humanidade renovada. A ressurreição de Jesus revela que, apesar de todo o poder do mal no mundo, quem venceu não foi o opressor e sim o oprimido. A vítima triunfou sobre o seu verdugo e nessa vitória, todos os povos, comunidades e pessoas podem ter esperança de justiça e libertação.

Na América Latina, para a maioria das pessoas a realidade atual ainda é mais de cruz do que de ressurreição. Por isso, talvez, até hoje, os ritos que lembram a morte de Jesus têm mais popularidade do que a celebração da ressurreição. No entanto, é preciso que vejamos na própria cruz o sinal da vitória e possamos celebrar a cruz na esperança e na alegria antecipada da ressurreição já presente como força de resistência e profecia de justiça. Nas últimas décadas, diversos países latino-americanos vivem um processo social e político novo no qual os mais pobres vivem sua caminhada de libertação.

Muitas pessoas ainda têm medo do termo revolução. Essa palavra parece ser sinônimo de violência.  Ao contrário, Paulo Freire definia revolução como todo processo transformador que vai até a raiz dos problemas, atinge toda a estrutura social e política e tem como efeito a paz e a liberdade para todos. 

MarceloBarros[1] Marcelo Barros, monge beneditino, é biblista de formação e atualmente coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). É assessor nacional das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-descendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação.

Print Friendly
abril 22nd, 2014 Postado por : vieira Arquivado em: Marcelo Barros

Seja o primeiro a comentar Deixe uma resposta:

Seu e-mail não será publicado.Campos obrigatórios*