Por que Semana Santa

Por Marcelo Barros [1]

No final dessa semana, muitas pessoas aproveitam os três dias de feriado para passear, ou para visitar parentes ou mesmo para simplesmente descansar. Em alguns lugares, grupos encenam a paixão de Jesus Cristo. Nas Igrejas de tradição antiga, as comunidades celebram o fato mais importante de sua fé: a festa da Páscoa.

A Páscoa surgiu como uma celebração da primavera no hemisfério norte. E de acordo com a tradição judaica, foi por ocasião de uma celebração da Páscoa que um grupo de escravos no Egito (do clã dos hebreus) sentiu-se chamado por uma energia divina para sair da escravidão e caminhar para uma terra livre. Até hoje, em todas as sinagogas do mundo, a cada ano, as comunidades judaicas comemoram a Páscoa para recordar a libertação do Êxodo. Ao fazerem isso, elas atualizam  a mensagem de que toda pessoa humana tem a vocação da liberdade e de sempre caminhar para um mundo novo e mais feliz.

Para as Igrejas cristãs, foi durante uma Páscoa, em Jerusalém, que Jesus de Nazaré foi morto e Deus lhe deu uma vida nova. Essa vida nova, Jesus, reparte com todas as pessoas que aceitem segui-lo, na missão de testemunhar no mundo o projeto divino de paz e justiça.

São esses fatos que, a cada ano, as Igrejas históricas celebram na Semana Santa.   O apóstolo Paulo escreveu aos coríntios: “Este é o tempo da graça, hoje é o dia da salvação” (2 Cor 5). Então, todo dia é dia de graça e toda semana é santa. Mas, as comunidades cristãs gostam de dedicar uma semana do ano e especificamente um tríduo para atualizar a memória desses acontecimentos mais centrais da fé.  Durante muitos séculos e até hoje, em muitas comunidades do interior, as pessoas simples fazem ritos que recordam a morte e o sepultamento de Jesus. Em alguns lugares da América Latina, as procissões do Senhor morto reúnem multidões.

Na Igreja Católica, a renovação das celebrações pascais, iniciada na década anterior, foi completada pelo papa João XXIII, há cinquenta anos. E o papa Francisco, ao falar da alegria do Evangelho (Evangelii Gaudium), escreveu que os cristãos não podem ficar em uma Quaresma sem Páscoa. O mais importante é que mesmo no meio da dor e das lutas da vida, celebremos a resistência e a esperança da vitória já alcançada, ao menos, como promessa. Um dos antigos cristãos dizia que, para quem vive a fé, as celebrações pascais que fazemos cada ano fazem da vida da gente, mesmo no meio das dores e das lutas, uma  festa permanente.  Ao celebrar a ressurreição de Jesus, os cristãos celebram a vida nova que ele nos dá.  Para significar isso, a Igreja batiza os cristãos adultos na grande celebração pascal. E durante os 50 dias do tempo pascal, os cristãos antigos oravam de pé, sem nunca se ajoelhar, para sinalizar a atitude de quem, diante da vida, se coloca altaneiro e resistente.

Todos esses símbolos e crenças pertencem a grupos cristãos. Atualmente, no plano cultural e religioso, o mundo é diversificado e pluralista. Uma cultura não deve se impor sobre outra e menos ainda tem sentido uma religião civil, como se fosse a ideologia religiosa da sociedade dominante.  Não se trata de fazer como alguns países da Europa que, sob pretexto da laicidade, ocultam racismo contra os muçulmanos e proíbem as mulheres de usar véu. Nem é questão, no Brasil, de vetar o uso de tambores ou de sacrifícios de animais em terreiros afro. Nesses casos, são sempre grupos minoritários e pobres que são visados. Trata-se sim de dar a todos os segmentos a mesma liberdade e de ajudar cada grupo a se abrir aos outros.

Embora em datas diversas, a Páscoa é uma festa comum a duas religiões (o Judaísmo e o Cristianismo). Entre as Igrejas cristãs, todas as Igrejas antigas a celebram. Assim mesmo, para que a Páscoa tenha um sentido para toda a sociedade, é importante que, sem perder o sentido próprio que ela tem para as Igrejas, juntos com toda a humanidade, os cristãos possam recuperar a sua dimensão ecológica. Assim, cuidaremos melhor da natureza para celebrar sua renovação como sinal do amor divino pelo universo. Paulo escreveu aos gálatas: “O importante é que se manifeste a criação renovada. Essa é a obra de Deus”.

 

MarceloBarros[1] Marcelo Barros, monge beneditino, é biblista de formação e atualmente coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). É assessor nacional das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-descendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação.

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abril 14th, 2014 Postado por : vieira Arquivado em: Marcelo Barros

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