Bíblias contra a Bíblia

Por Marcelo Barros [1]

Na Câmara do Recife um projeto de lei propõe que a Secretaria de Educação distribua gratuitamente Bíblias para todas as crianças das escolas públicas do município. Esse tipo de iniciativa não ocorre somente no Recife. Espalha-se, por todo o Brasil, de um modo ou de outro, por iniciativa de vereadores/as e deputados/as que representam Igrejas e grupos pentecostais e neopentecostais.

Aparentemente, é um projeto educativo que beneficia crianças pobres com uma Bíblia. Afinal, essa é um livro sagrado para duas religiões: o Judaísmo e o Cristianismo com suas centenas de Igrejas, ortodoxas, evangélicas, pentecostais e a Católica romana. Sou padre e biblista. Dediquei toda minha vida ao estudo da Bíblia e a uso diariamente como leitura e oração. Por isso, me sinto com autoridade moral para vir a público expressar meu total desacordo com essa proposta. E não somente eu: a Comissão de Ecumenismo da Arquidiocese de Olinda e Recife, assim como pastores e cristãos de várias Igrejas se unirão ao Fórum Diálogos (para a defesa da diversidade religiosa em Pernambuco) na denúncia contra esse projeto de lei.

Ao distribuir Bíblias para crianças das escolas públicas em Recife, o município estaria ignorando e mesmo discriminando outras tradições religiosas, não representadas pela Bíblia; tradições essas às quais pertencem muitas crianças das escolas públicas e suas famílias. Por ignorar outras religiões, esse projeto de lei não é verdadeiramente educativo.  Isso já é motivo suficientemente para rejeitá-lo, mas, acima de tudo, ele é inconstitucional. Desrespeita o caráter laico e independente do Estado brasileiro. Segundo a Constituição Federal, o Estado deve possibilitar o exercício livre de todas as religiões, mas não pode privilegiar a nenhuma. Menos ainda gastar dinheiro público para promover a doutrina de uma religião específica.

Como discípulo de Jesus Cristo, vejo nessa proposta de lei uma contradição com o espírito do evangelho e o modo de ser de Jesus. Conforme o evangelho, os tais reis magos, que, na verdade, eram astrólogos (seguidores de outra religião) foram capazes de, sem nenhuma Bíblia, reverenciar Jesus que nasceu. Enquanto isso, os professores da Bíblia reconheceram no livro sagrado a verdade do que estava escrito, mas isso não os tocou interiormente. Ao contrário, o modo deles usarem a Bíblia acabou dando a Herodes a informação que levou o rei a mandar matar as crianças de Belém (Cf. Mt 2, 1 – 11). E assim, naquele caso, a Bíblia serviu para, indiretamente ajudar um rei poderoso a matar crianças. Como, em outros momentos da história, quando a Bíblia serviu como pretexto para discriminar e condenar as religiões dos povos indígenas e afrodescendentes no nosso continente.

Ao contrário, em toda a sua vida, Jesus valorizou a presença divina em pessoas consideradas hereges pela própria religião judaica (os samaritanos). Elogiou a fé de um oficial romano que adorava os deuses do Império (Mt 8, 5- 13). Mudou de posição e curou a filha de uma sírio-fenícia que seguia a religião dos cananeus (Mt 15, 21- 28). Jamais discriminou ninguém por ser de outra fé ou religião. Uma vez, discípulos dele queriam condenar pessoas de uma aldeia samaritana, porque essas não quiseram receber o Mestre. Jesus os repreendeu. (Lc 9, 55). Isso nos faz pensar que o próprio Jesus estaria totalmente contrário a esse projeto de lei.

monge-marcelo-barros-mst1-600x520[1] Marcelo Barros, monge beneditino, é biblista de formação e atualmente coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). É assessor nacional das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-descendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação.

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Fevereiro 19th, 2014 Postado por : vieira Arquivado em: Marcelo Barros
  1. Leandro de Lima Bezerra
    22nd fev 2014

    Eu entendo que a distribuição de bíblias nas escolas públicas, com algumas ressalvas, não implicaria numa discriminação ou acepção a outras tradições religiosas. É muito claro que a bíblia é um texto básico e fundamental para a religião cristã como um todo e o estado é laico,não deve privilegiar a nenhuma religião, porém não é laicista. O estado também tem a sua cultura e sua história, quer queiram ou não, essa história é marcada fortemente pela tradição cristã. Não vejo razão para tirarmos a bíblia das escolas, isso seria, no meu ver, como negar o texto que mais influenciou a forma ocidental de pensar. Isso me parece uma contra-cultura.
    É lamentável que os nossos jovens saiam das escolas sem o minimo conhecimento do que representa a cosmovisão cristã e o texto bíblico. Existem muitos jovens nas universidades que quando são perguntados acerca do que vem a ser o cristianismo a resposta é algo como: “é uma religião antiga fundada por um tal Jesus que me parece antiquada para os nossos dias”. O texto bíblico não é apenas um livro com conotações religiosas é um verdadeiro registro histórico e por que não dizer filosófico. Temos na pratica um pequeno número de jovens e crianças de religiões de matrizes não-cristã, o que não justifica discriminação. Porém esses jovens não-cristãos não me parecem radicalmente “não-cristãos”, por exemplo, as religiões afro-descendentes não estão tão distantes do cristianismo como parece, o brasil é exemplo disso. Essas religiões de origem Africana historicamente mantem um relacionamento sincrético com elementos da religião cristã, principalmente do catolicismo, seja nas representações das suas divindades seja nos próprios ritos e símbolos.No caso dos ateus, também não vejo problema, pois se são ateus isso é indiferente para eles. Eles sequer tem a bíblia como escritura sagrada, encaram-na como um texto qualquer, mas até eles deveriam, de forma livre, conhecer esse livro tão intrigante e importante. O que quero dizer é que o texto bíblico em si não fere as demais religiões, o verdadeiro problema está na postura preconceituosa que uma minoria assume para com os demais, o que infelizmente não vemos apenas partir do lado dos “religiosos”.
    Mas o problema é na verdade um caso de pressupostos. Quando se fala de bíblia o que vem na mente das pessoas, quase automaticamente, é religião. As coisas não deveriam ser assim. Não concordo com o comentarista Padre Marcelo Barros na questão do mal uso do texto bíblico por Herodes ou por quem quer que seja, pois nesse caso teríamos que queimar todo o tipo de literatura, aja vista, qualquer texto e literatura ser objeto de interpretação, logo passível de “boas interpretações ou não”. Temos na hermenêutica uma multiplicidade de maneiras de olhar para um mesmo texto seja ele qual for. No caso de Herodes eu não acredito nem a maioria dos estudiosos da bíblia que o texto bíblico deve ter tido alguma responsabilidade na morte dos inocentes.
    Todavia, no começo do meu texto eu indiquei que falaria de algumas ressalvas. Na minha humilde opinião essa distribuição deveria ser feita de forma democrática e respeitosa, sem constrangimentos nem obrigatoriedade, só aceita quem quiser. A distribuição não deve ser feita precedida de manifestações religiosas nas escolas nem muito menos proselitista. Não deve conter “recomendações especiais” como: leia e medite ou coisas desse tipo. Também não deve ser o brigado ao aluno levá-la pra escola. O debate continua e não deve ser decidido sem ele.

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