A alegria de viver e de crer

Por Marcelo Barros [1]

Há alguns dias, o papa Francisco lançou ao mundo uma exortação às pessoas de boa vontade de todo o mundo, especialmente aos membros da Igreja Católica para que todos redescubram a alegria através do evangelho de Jesus. O documento papal se intitula: “Evangelii gaudium”, “a alegria do evangelho”. Originalmente, Evangelho era uma notícia de anistia política e de libertação para o povo. As primeiras gerações de cristãos chamaram evangelho a notícia feliz de que Deus tem para o mundo um projeto de vida, paz, justiça e felicidade para todos.

Infelizmente, no decorrer dos tempos, o Cristianismo acabou sendo mais associado à lei e à prática religiosa do que ao anúncio alvissareiro do evangelho. Hoje, já é uma boa notícia o próprio fato de que um papa, na sua comunicação com a humanidade, sublinhe mais a alegria e a liberdade do que a lei e o peso da instituição eclesiástica. Já no início da sua carta o papa afirma: “Desejo dirigir-me aos fiéis para convidá-los a uma nova etapa de evangelização, marcada pela alegria e indicar direções para a Igreja nos próximos anos”. Apela a toda a Igreja convidando-a a “recuperar o frescor original da boa notícia dada por Jesus: o Evangelho”. Para isso, ele aposta em uma descentralização da Igreja. Essa compreensão da Igreja, fundamentada nas Igrejas locais, era a do Cristianismo primitivo e foi a teologia do Concílio Vaticano II. No entanto,  nos últimos 30 anos, foi esvaziada e esquecida. Agora, Francisco lança o que ele chama de “uma revolução da ternura” e propõe a missão como  caminho de serviço, humildade e amor fraterno.

O papa sabe as dificuldades que enfrentará. Aqui e ali, já começam a surgir ataques contra Francisco. Há quem proteste contra esse papa que parece falar demais em pobreza e relativizar a fé. Atualmente, começam a aparecer na imprensa internacional quem, direta ou veladamente, acuse o papa de ser demagogo, tomar uma posição populista e parecer mais humanista do que pastor da Igreja.

Como todo profeta e como Jesus, o papa atual desafia. Descontenta a tradicionalistas e desconcerta mesmo a pessoas progressistas que não esperavam tal mudança no Vaticano, em tão pouco tempo. Conforme todas as pesquisas, a maioria da humanidade, religiosa ou não, o aprecia e admira. Mas, a pergunta de todos é se uma instituição como a Igreja Católica consegue mudar assim e rapidamente. Uma breve pergunta foi feita a dez grupos diferentes de católicos sobre o que achavam do papa Francisco. Oito disseram estar muito contentes. Um falou que não entendia o que ele propunha. Um único grupo se disse contrário. No entanto, o mais surpreendente é que quase todos expressaram o temor de que alguma coisa lhe aconteça. Entre dez grupos, oito pensaram que, no Vaticano, o papa corre risco de vida. De fato, complô interno nos meios eclesiásticos para matar um papa parece mais assunto para romances policiais. No entanto, revela que, independentemente se é real ou não, no mundo inteiro, muitos têm da instituição católica a impressão de que alguns funcionários da religião são capazes até de matar o papa para não terem de mudar o sistema que os beneficia. Isso não é novo já que Jesus acusa os religiosos de seu tempo de matarem os profetas e depois construírem para eles templos bonitos (Mt 23, 27- 31). E o próprio Jesus foi condenado à morte, tanto pelo império romano, como também pelos responsáveis da religião judaica do seu tempo. No entanto, apesar de todas essas contradições, as palavras novas e positivas do papa Francisco soam para nós como as do anjo que anunciou o Natal de Jesus em Belém: “Eu vos anuncio uma grande alegria”. É importante que, nesse Natal, acolhamos essa proposta de renovação interior de nós mesmos e de mudança profunda do modo de ser na Igreja como uma contribuição não só para dentro da própria Igreja Católica e sim para construirmos juntos um mundo mais justo, feliz e fraterno.

monge-marcelo-barros-mst1-600x520[1] Marcelo Barros, monge beneditino, é biblista de formação e atualmente coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). É assessor nacional das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-descendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação.

Print Friendly
dezembro 10th, 2013 Postado por : vieira Arquivado em: Marcelo Barros

Seja o primeiro a comentar Deixe uma resposta:

Seu e-mail não será publicado.Campos obrigatórios*