A nova reforma da Igreja

Por Marcelo Barros [1]

Cada ano, no final de outubro, os cristãos celebram o Dia da Reforma. Conforme a tradição, no 31 de outubro de 1517,  o doutor Martinho Lutero iniciou o movimento da reforma protestante ao pregar suas 95 teses na porta da catedral de Winttemberg na Alemanha. Ele afirmava: “A Igreja reformada tem de se reformar permanentemente”. Essa verdade é um pensamento comum a toda a Igreja e, nesses meses, tem sido diversas repetido pelo papa Francisco. Ele tem recordado aos católicos que a Igreja tem sempre de se renovar. E assim, tem chamado padres e bispos a uma conversão mais profunda ao evangelho do Cristo.

No século XVI, Lutero denunciou a hierarquia católica porque esta tinha se distanciado muito da fé bíblica e da Palavra de Deus. Denunciou que os padres negavam o sacerdócio comum de todos os fiéis. Pregavam que as pessoas se salvam por suas obras ou mesmo pelas indulgências oferecidas pela hierarquia às vezes até compradas pelos fiéis. Esses e outros escândalos presentes na Igreja da época, graças a Deus, com o passar dos tempos, foram superados. Em 1999, um documento assinado pelos representantes da Federação Luterana Mundial e da Igreja Católica Romana selava o acordo das duas Igrejas sobre a salvação pela fé e o sacerdócio comum de todos os batizados. O documento constatava que, mesmo se as palavras usadas podem ser diferentes, as duas Igrejas têm a mesma fé. Esse acordo pôs fim a uma divisão de quase 500 anos. No entanto, revelava também a necessidade de uma reforma permanente das Igrejas. Há mais de 50 anos, para colocar a Igreja Católica em um caminho de renovação evangélica, o papa João XXIII convocou e abriu o Concílio Vaticano II. Pouco depois, Harvey Cox, teólogo e pastor batista norte-americano, propunha a todas Igrejas uma nova reforma, baseada em uma atualização da linguagem da fé para o homem e a mulher de hoje.

A partir dos anos 60, o mundo mudou muito. Embora a humanidade tenha feito progressos imensos no campo da técnica e das comunicações eletrônicas, nem por isso se tornou mais justa e pacífica. Ao contrário, as diferenças entre ricos e pobres aumentaram. Atualmente,  a consciência sobre vários direitos sociais tem crescido. A ciência permite a muitas pessoas viverem mais do que há 50 anos. Mesmo assim, o mundo de hoje, como está organizado, parece pior e menos humano do que aquele no qual a minha geração nasceu e cresceu. E isso, apesar de que o número de Igrejas e religiões tenha crescido muito. Mesmo se a sociedade é mais secular e, graças a Deus, mais pluralista e diversificada, em todo o Ocidente, o Cristianismo ainda é a religião majoritária e os seus ministros continuam a gozar de certo prestígio.

Essa situação social do mundo é sinal de que alguma coisa anda errada. Apesar de toda pregação do Evangelho cristão e da mensagem de amor, comum a todas as religiões, as Igrejas não têm conseguido que o mundo supere as ameaças de guerra, vença as injustiças sociais e viva em paz, justiça e cuidado com a natureza. No plano interno de cada Igreja, cada vez mais aumenta o número de pessoas que se dão conta: é necessária uma nova reforma das Igrejas. É preciso voltar ao projeto original de Jesus e, ao mesmo tempo, ser capaz de expressá-lo em linguagem e sinais mais acessíveis à humanidade de hoje. E as Igrejas, ao se reaproximarem do Evangelho, poderão experimentar uma nova unidade entre elas. Não para formar uma superestrutura centralizada e sim para, ao viver sua diversidade, as Igrejas se comportem como comunidades irmãs no serviço amoroso à humanidade. Esse será o testemunho de que Deus é amor e se manifesta onde as pessoas aceitam viver o amor solidário como principio de vida. Que esse 31 de outubro, aniversário da reforma, lembre a todos os cristãos a palavra de São Paulo: “O ser humano renovado (ou reformado) nunca deixa de se renovar à imagem daquele que o criou” (Cl 3, 10).  

Marcelo Barros[1] Marcelo Barros, monge beneditino, é biblista de formação e atualmente coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). É assessor nacional das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-descendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação.

outubro 29th, 2013 Postado por : vieira Arquivado em: Marcelo Barros, Notícias, Publicações

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