Marina e o Chavismo

Por Marcelo Barros [1]

Nesse domingo à noite, surpreendi-me ao ler, no site da Agencia Carta Maior, a declaração de Marina Silva: “A minha briga, nesse momento, não é ser presidente da República. É contra o PT e o chavismo que se instalou no Brasil”. Como a declaração teria sido feita à agência Globo, em primeiro lugar, é preciso confirmar se foi isso que ela afirmou exatamente. Tenho dificuldades de acreditar. Conheci Marina e dela me tornei amigo desde os tempos em que a encontrava no Acre, depois como senadora e finalmente ministra do meio ambiente. Conheci a Marina, evangélica e de uma integridade profunda. Não posso crer que tenha resvalado para uma politicagem que troca um projeto de transformação do mundo e do Brasil por uma briguinha contra o PT e contra o que ela chama de “chavismo que se instalou no Brasil”. Só poderia compreender isso como profunda desinformação histórica ou irresponsabilidade política, não coerente com a ética evangélica que ela se propôs a seguir.

Mesmo que ela discorde de certos elementos ou aspectos do Chavismo, não deveria entrar na campanha deletéria da pior parte da elite brasileira e latino-americana contra um ideal profundo e nobre como é o novo Bolivarianismo em curso em toda a América Latina. Esse processo social e político, conduzido até a morte pelo presidente Chávez é o que eu e muitas pessoas que têm fome e sede de justiça desejaríamos imensamente que estivesse instalado no Brasil e contasse, de fato, com o apoio e participação do PT. Será que Marina não sabe que se os governos do PT não apoiaram a sua luta pelo meio ambiente foi justamente por não terem entrado mais profundamente no espírito do Bolivarianismo ou como diz ela do Chavismo? Se não fizeram reforma agrária e se não mobilizaram a sociedade para uma nova Constituinte soberana e cidadã que faça as transformações estruturais de que precisamos na sociedade, é exatamente porque o governo brasileiro não é chavista. Se ainda temos no Brasil privatização de hospitais públicos, estradas, portos e aeroportos, é exatamente porque o Brasil não segue os princípios do bolivarianismo, conduzido pelo presidente Chávez e pela maioria do povo venezuelano. 

Já em 1965, durante a quarta sessão do Concílio Vaticano II, o querido Dom Hélder Câmara escreveu em uma carta circular: “O encontro com Monsenhor Dell´Acqua, secretário do papa Paulo VI, merece menção.(…) A problemática da América Latina e do 3º Mundo lhe era familiar. (…) Entende e estimula o novo Bolivarianismo, no sentido do esforço conjunto para a independência econômica do Continente, em articulação sempre maior com o 3º Mundo e abertura para o mundo inteiro. Entende e estimula a cobertura da Igreja à ideia de um Mercado Comum Latino-americano…”[1].

Não posso acreditar que Marina prefira os tratados de aliança com os Estados Unidos como a ALCA (na qual nós, brasileiros, entraríamos como país submisso) à nova integração latino-americana, conduzida pelo presidente Chávez, que hoje se expressa na ALBA (Aliança bolivariana dos povos da América), UNASUR (União das Nações do Sul) e CELAC (Comunidade dos estados latino-americanos e caribenhos). Será que Marina não leu que a ONU declarou que a Venezuela, a partir do tempo de Chávez, foi o país latino-americano que mais conseguiu acabar com a desigualdade social e a pobreza? Não sabe que a Venezuela chavista ganhou o prêmio da UNESCO por ter conseguido reduzir o analfabetismo a zero? Não leu que a FAO, organismo da ONU contra a fome, declarou que a Venezuela garantiu a segurança alimentar para todo o seu povo? Por que então essa rejeição à integração latino-americana e ao novo processo social e político emergente nesses países?

Seria por uma rejeição estratégica ao caminho para o Socialismo que a República Bolivariana da Venezuela, através do presidente Chávez, tem assumido como opção? De fato, como afirmou o professor Boaventura de Sousa Santos: “A América Latina tem sido o continente, onde o socialismo do século XXI entrou na agenda política”[2]. E devemos isso ao presidente Chávez. Sem dúvida, é mais fácil fazer aliança pragmática com o dito PSB tucanizado, que é tão socialista quanto uma empresa de petróleo pode ser ecológica.

No segundo turno das eleições presidenciais de 2010, Maurício Abdala, escritor de Vitória, ES, escreveu um artigo, no qual retomava a canção de Caymi e afirmava: “Marina, morena, não pinte esse rosto de que eu gosto e é só seu. Marina, morena, você já é bonita com o que Deus lhe deu”. Espero de Marina uma retratação e que ela possa fazer as distinções necessárias. Se quiser, critique sim o PT, simpatize ou antipatize esse ou aquele estilo ou palavra do Chávez. É seu direito discordar, mas deixe claro que se une a nós todos, latino-americanos irmanados nesse processo bolivariano. Assim, não teremos a tristeza de cantar como o poeta finaliza a canção: “Desculpe, Marina, morena, mas eu tô de mal, de mal de você…”. Uma vez, alguém me disse: “Uma pessoa é boa até que deixa de ser”. Sua declaração, minha irmã Marina, me faz recordar essa afirmação de um amigo e sábio popular.



[1] – DOM HELDER CÂMARA, Circulares Conciliares, Volume I – Tomo III, 68ª Circular, Roma 16/ 17. 11. 1965, Recife, Editora CEPE, Instituto Dom Helder Câmara, 2009, p. 253.

[2] – Cf. BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS, A esquerda tem o poder político, mas a direita continua com o poder econômico. In Caros Amigos, março 2010, p. 42. 

Marcelo Barros[1] Marcelo Barros, monge beneditino, é biblista de formação e atualmente coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). É assessor nacional das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-descendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação.

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outubro 10th, 2013 Postado por : vieira Arquivado em: Marcelo Barros, Notícias, Publicações

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