Aprender a renascer

Por Marcelo Barros [1]

No domingo passado, no Rio de Janeiro, concluiu-se a Jornada Mundial da Juventude, evento católico coordenado pelo papa Francisco que contou com a participação de milhares e milhares de jovens católicos do mundo inteiro. Ao comentar esse evento, insisti que esse encontro da juventude deveria despertar em nós a vocação para sempre nos renovar. No artigo da semana passada, citei a palavra de Jesus: “é preciso nascer de novo”. Alguém me perguntou:  “Renascer interiormente é algo possível de se aprender?”.

Atualmente, grupos espirituais ligados a correntes da nova consciência (new age) fazem terapias de renascimento e, através de exercícios de respiração, afirmam alcançar a consciência de vidas anteriores e de consciência mais aguda do próprio ser e da missão de cada pessoa nessa terra. Outras tradições propõem esse caminho de renovação interior no próprio cotidiano da vida e sem precisar de referências a vidas anteriores ou futuras.

Em primeiro lugar, é preciso se dar conta: enquanto todos os animais nascem de uma vez por todas e, se puderem, vivem de acordo com a sua natureza e seu instinto, o ser humano é diferente. Seu nascimento é incompleto. Não nascemos totalmente. A cada momento da vida, temos de enfrentar a fadiga de gerar-se de novo ou ser gerados. A água é o ambiente perfeito para o peixe. O ar é o espaço feito para os pássaros, mas nenhum mundo se adapta perfeitamente ao ser humano. Por mais que nos esforcemos, somos sempre, de alguma forma, incapazes de nos adaptar. Nenhum sistema consegue nos prender de forma absoluta. Essa é nossa riqueza maior e, ao mesmo tempo, nosso tormento. Como nunca nascemos totalmente, somos sempre chamados a criar um mundo novo e a parir incessantemente em nós um ser novo e no mundo um ambiente que acolha e favoreça essa humanidade renovada.

Alguns caminhos espirituais, principalmente no Oriente, desiludidos da possibilidade desse caminho novo, procuram desnascer, ou seja, anular o nascimento e atingir o nada, em uma espécie de aniquilamento do eu, fusão no Bhrama eteno e coletivo dos hinduístas, ou no Nirvana budista.  No Ocidente, Maria Zambrano, grande filósofa espanhola do século XX, afirmava: “A esperança é fome de nascer do todo, de completar aquilo que dentro de nós, de forma apenas esboçada, carregamos. Nesse sentido, a esperança é a substância da nossa vida, a sua dimensão mais profunda, como o fundo de um poço. Graças a ela, somos filhos e filhas dos nossos sonhos, daquilo que não vemos e não podemos verificar. Assim, confiamos a nossa vida a algo que não existe ainda, a uma incerteza. Por isso e para isso, temos tempo. Se fôssemos já totalmente formados e completos, não teria sentido consumir-se nesse esforço”[2].

Essas palavras da filósofa veem a tarefa do renascimento como esforço humano de sempre renovar-se interiormente. O Judaísmo, Cristianismo e Islã creem que o renascimento é pura graça divina que a pessoa recebe pelo amor. Esse acolhimento supõe uma abertura interior e se expressa através de um esforço para se viver isso na relação consigo mesmo e com os outros. A pessoa aprende a renascer interiormente através da solidariedade e do esforço concreto em função da justiça social e da construção de um mundo novo possível. Quando nos abrimos ao outro e saímos de nós mesmos para servir e nos consagrar aos outros, dialeticamente nos encontramos a nós mesmos de forma mais profunda e realizamos essa construção a qual Jesus se referiu ao afirmar: “Quem quer salvar a sua vida para si mesmo a perderá e quem aceita perdê-la, por amor de mim, a salvará” (Lc 9, 24).



[2] – Cf. MARIA ZAMBRANO, Verso un sapere dell´anima, Rafaello Cortina Editore, 1996, p. 90. 

Marcelo Barros[1] Marcelo Barros, monge beneditino, é biblista de formação e atualmente coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). É assessor nacional das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-descendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação.

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julho 30th, 2013 Postado por : vieira Arquivado em: Marcelo Barros, Publicações

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