A juventude e a fé

Por Marcelo Barros [1]

Os meios de comunicação já noticiam a primeira viagem internacional do papa Francisco. Na próxima semana, ele virá ao Rio de Janeiro para participar da Jornada Mundial da Juventude. Comumente, os meios de comunicação estão pouco interessados na jornada da juventude. Eles se interessam, sim, pela mobilização do papa, por tudo o que ele fizer e disser durante essa viagem. Os próprios organismos da Igreja Católica não escondem que o objetivo principal da Jornada é a vinda do papa e os eventos que fazem parte dessa visita do bispo de Roma. Isso é compreensível, já que a própria ideia desses encontros de jovens veio do papa João Paulo II e, desde o início, em 1986, teve como objetivo o encontro do papa com jovens do mundo inteiro. Ao propor a Jornada, o objetivo do papa era reaproximar a juventude da Igreja. Para isso, o papa propôs que todas as dioceses do mundo passassem a realizar uma jornada  diocesana da juventude, a cada ano, sempre no domingo de Ramos. E a cada dois ou três anos, acontece a Jornada mundial e sempre com a presença do papa. Esses encontros internacionais já ocorreram em vários países e continentes. Na América Latina, essa Jornada de 2013 será a segunda já que em 1987, a Jornada foi em Buenos Ayres.  A mais recente (em Madri) reuniu dois milhões de jovens. Em jornadas passadas, o papa tem insistido em alguns temas fundamentais da fé e da vida. Alguns meios de comunicação têm adiantado que, nessa semana no Rio de Janeiro, na sua mensagem à juventude, o papa falará das manifestações de rua e do direito do povo manifestar sua vontade e expressar seu desejo de mudar o mundo e o país.

No mundo atual, atomizado e pouco democrático, toda iniciativa que leva ao diálogo e ao encontro de culturas e gerações só pode ser bem-vinda. A vocação de uma igreja cristã é justamente a de reunir em uma só caminhada, a diversidade das pessoas e grupos humanos. E por se tratar de uma instituição multissecular como é a Igreja Católica, um verdadeiro encontro entre o papa e a juventude só pode ser positivo. O importante é que o objetivo da Jornada Mundial da Juventude não seja apenas os jovens verem e escutarem o papa, mas que seja um verdadeiro encontro humano que possibilite o diálogo bilateral e o serviço da Igreja à juventude e não (Deus nos livre!) uma instrumentalização dos jovens por parte dos pastores da Igreja.

Conforme a teologia do Concílio Vaticano II, o objetivo da Jornada não pode ser apenas trazer de volta a juventude para a Igreja e sim colocar a Igreja a serviço da juventude, no seu caminho humano. A Igreja é testemunha e serviço para que se realize no mundo o projeto divino, aquilo que o evangelho chama de reino de Deus.  Na estrutura atual, não é fácil, mas como seria importante que o papa se dispusesse a ouvir uma representação da juventude e não somente do tipo de jovens católicos que aderem a esse tipo de encontro religioso e fortemente institucional.

No Brasil, a maioria da juventude ainda pertence às classes mais pobres e enfrentam a frustração de viver em condições precárias e sem os meios necessários a uma vida digna. As Igrejas cristãs precisam compreendê-los nesse sofrimento, acompanha-los em sua luta e solidarizar-se com eles na defesa da vida e no caminho da libertação. Como seria bom que a juventude dos movimentos sociais e das pastorais sociais também pudesse ter vez e voto em um encontro como esse. A Jornada assumiria um caráter ecumênico com jovens das várias Igrejas cristãs reunidos/as não apenas para confirmar as atuais estruturas eclesiásticas e sim para ser fortalecidos/as na sua missão de construtores de um mundo novo possível e urgente. Dialogar com a juventude e pôr-se a seu serviço despertam em nós a jovialidade como sinal do Espirito de Deus em nossa vida. É como se o contato com jovens nos fizesse acessar em nós o jovem ou a jovem que existe no interior de cada um de nós, adultos. Sta Mectildes ensina: “De maneira maravilhosa, Deus conduz a criança e o jovem que existe dentro de nós. Leva a alma a um local secreto e brinca com ela. Em Deus, nós nos tornamos jovens”. 

Marcelo Barros[1] Marcelo Barros, monge beneditino, é biblista de formação e atualmente coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). É assessor nacional das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-descendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação.

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julho 18th, 2013 Postado por : vieira Arquivado em: Marcelo Barros, Publicações ,

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