A Terra e a biodiversidade

Por Marcelo Barros [1]

Todos os anos, a ONU consagra o 22 de maio como o “dia internacional da Biodiversidade. O objetivo é de que a humanidade inteira saiba do que se trata e possa cuidar melhor do futuro do nosso planeta. Ha apenas alguns dias, concluiu-se em Boon, na Alemanha, um encontro a mais dos muitos sobre a convenção do clima. Essa reunião congregou representantes de diversos países para preparar o acordo de governantes que se reunirão no próximo ano sobre esse assunto. A meta é que eles se comprometam a reduzir as emissões de poluentes na atmosfera e assim diminuir o aquecimento global. Conforme parece, esse compromisso engaja os governos a partir de 2020 e não se sabe ainda se a redução prevista será de 12% ou um pouco mais. Para quem sabe da realidade do mundo, esse acordo parece tímido e acanhado, mas já será uma grande vitória devido à prioridade dos governos que visam sempre o crescimento econômico e a manutenção do sistema atual que domina o mundo.

Atualmente, toda pessoa esclarecida sabe  que, segundo dados da ONU, desde 1970 ate agora, a biodiversidade da terra foi destruída em mais de 30%. Estão em risco de extinção 22% das espécies de mamíferos  23% dos anfíbios e 25% dos répteis. Essa realidade está ligada à destruição anual das florestas que continua sem solução. No Brasil, o novo código florestal parece mais preocupado em garantir o lucro do agro-negócio e a expansão das fronteiras agrícolas do que em proteger e preservar a natureza e as florestas ainda existentes no país.

Um dos motivos da perda da biodiversidade é o aquecimento global, produzido pelo modo como a sociedade explora a terra, a água e toda a natureza. Ricardo Abramovay, professor da Universidade de São Paulo, afirmou: “durante o século XX, a extração de recursos da superfície terrestre cresceu oito vezes e alcançou um total de 60 bilhões de toneladas anuais, a partir somente do peso físico de quatro elementos: materiais de construção  minerais, combustíveis fósseis e biomassa” (citado por Washington Novaes, (O  Estado de São Paulo, 13/04/ 2013).

Em sua história, o planeta Terra já passou por várias crises e fases de transformações. No entanto, nessa crise atual há um elemento novo: essas mudanças que afetam a vida no planeta estão sendo produzidas pela própria sociedade humana.  E dessa vez, se permitimos que esse caminho de destruição prossiga, não haverá uma arca de Noé como em filmes de ficção científica que sempre preveem uma salvação para os nossos heróis. Por isso, a ONU chama a atenção de todos para o tema da biodiversidade e sobre o estado atual da Terra. Essa atenção da ONU à Terra se vincula a um movimento mundial que elaborou a “Carta da Terra”, documento coletivo que servirá para a ONU como uma carta universal sobre os direitos da Terra e da natureza. Direitos no sentido de necessidades urgentes e direitos de cuidado que a Terra precisa para continuar cumprindo sua função de nos acolher, nos alimentar e nos dar os elementos indispensáveis para uma vida digna e feliz.

Atualmente, a ONU reconhece que as culturas indígenas são as que mais contribuem para que olhemos a terra de um modo mais respeitoso e dialogante. Nas últimas décadas, a partir dos trabalhos do cientista James Lovelook , a própria ciência começou a ver a Terra como organismo vivo e inteligente que reage ao ambiente e cria condições próprias para a vida. Nós, humanos, fazemos parte dessa comunidade da vida.

No domingo passado, as Igrejas mais antigas celebraram a festa de Pentecostes, encerramento das festas pascais e agradecimento pelo fato de que o Espirito de Deus se espalha por todo o universo e se manifesta em toda a natureza. Um dos refrões mais comuns usados nessa celebração é a palavra do salmo 104: “Tu envias teu Espirito, Senhor, e renovas a face de toda a terra.” De fato, para quem crê que Deus é amor, a terra e todos os seres vivos são sinais e sacramentos de sua presença. Em uma sociedade que vê tudo como mercadoria e perdeu a consciência da dignidade da terra, é importante que a espiritualidade resgate essa dimensão ecológica da comunhão universal e que nos une à Terra e a todo o universo. O cuidado diário com a biodiversidade é uma forma de testemunhar que reconhecemos essa presença divina no universo. Como diz o salmo 19: “Os céus revelam a gloria de Deus presente e o universo inteiro testemunha ser por ele criado” (Sl 19, 1).

 

 

Marcelo Barros[1] Marcelo Barros, monge beneditino, é biblista de formação e atualmente coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). É assessor nacional das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-descendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação.

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maio 20th, 2013 Postado por : vieira Arquivado em: Eventos, Notícias, Projetos, Publicações

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