Para que essa Páscoa seja sem fim

Por Marcelo Barros [1]

Clínicas de beleza oferecem tratamento de rejuvenescimento. Academias proporcionam malhações e fisioterapias que prometem milagres físicos. Grupos espiritualistas fazem terapias de renascimento. Todos desejam renovar-se a si mesmos e às pessoas que amam. A tradição bíblica oferece às comunidades judaicas e cristãs a mística pascal como instrumento para uma renovação que atinge a pessoa e todo o universo.

Em tempos muito antigos, a Páscoa era uma dança da primavera e que fazia as pessoas participarem da renovação da natureza no hemisfério norte. Mas mesmo no sertão do Nordeste do Brasil, essa é a época das tão esperadas chuvas e é costume cantar na Páscoa um hino que vem de séculos antigos: “Cristo ressuscitou, o sertão se abriu em flor, da pedra, água surgiu, era noite e o sol raiou, aleluia!”. Essa esperança é o que as Igrejas cristãs celebram nessa semana pascal e ainda por 50 dias como se teimassem em transformar o cotidiano da luta em uma energia de festa permanente.

Na noite do sábado passado ou madrugada do domingo, na grande Vigília pascal, mais importante celebração da Igreja durante todo o ano, as comunidades escutavam um evangelho que narra a corrida das mulheres, amigas de Jesus ao seu túmulo, “na madrugada, quando o sol ainda não havia nascido” (Cf. Lc 24, 1). Essa é a melhor imagem da Páscoa: uma madrugada ainda escura na qual temos certeza de um amanhecer esplendoroso e brilhante. Aurora de um mundo novo, presente do amor divino ao universo que se realiza em nós e toma a forma de uma organização social mais justa e fraterna. Nesses dias, em Túnis, na Tunísia, homens e mulheres, cidadãos de vários países e ligados às mais diversas tradições religiosas ou a nenhuma encerraram mais um fórum social mundial no qual tomaram como bandeira comum: “um novo mundo é possível!”. Essa palavra é a tradução civil e laical correspondente ao que os cristãos proclamam em sua fé: O Cristo ressuscitou realmente e assim Deus inaugurou uma nova criação da qual nós fazemos parte e somos chamados a ser testemunhas.

Quando olhamos a realidade do mundo, constatamos a urgência de que o escuro da madrugada se transforme em luz do dia. Ansiamos por uma economia mais justa e transparente. Em nosso país, queremos uma organização social e política mais participativa. E precisamos de um novo modo de nos relacionar com a natureza. A aurora do dia tem seus mistérios. Se vai raiar um dia de sol ou a manhã será chuvosa e feia, não depende de nós. A aurora social e humana, sim. Podemos ajudar a que a madrugada ainda escura de nossa realidade se transforme em dia ensolarado da justiça e da fraternidade. Isso é Páscoa. Fazemos isso ao participarmos de todo esforço social por um mundo mais justo, mas também no nosso dia a dia ao tornarmos mais amorosas nossas relações com as pessoas. No Oriente, nesses dias, os cristãos recordam a memória de um santo monge que foi uma espécie de Francisco de Assis russo. Viveu no século XIX e se chamava Serafim de Sarov. Vivia em uma floresta e cada vez que em seu caminho encontrava alguém, se curvava diante do desconhecido e dizia: “Ao ver você, constato que verdadeiramente Jesus ressuscitou e atua em você fazendo de você uma pessoa nova. Graças a Deus!”.

Marcelo Barros[1] Marcelo Barros, monge beneditino, é biblista de formação e atualmente coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). É assessor nacional das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-escendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação.

abril 01st, 2013 Postado por : vieira Arquivado em: Notícias, Publicações

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