O novo Bolívar

Por Marcelo Barros [1]

Quando os meios de comunicação noticiaram o falecimento do presidente Hugo Chávez, certamente muitos homens e mulheres, comprometidos com a transformação do mundo, em toda a América Latina, se recordaram de uma palavra do comandante sandinista Tomás Borge. Junto com muitos outros companheiros, ele estava preso e torturado em uma prisão nos subterrâneos da ditadura somozista em Nicarágua. Para quebrar a resistência dos prisioneiros, o carcereiro entrou na sala de interrogatório e com um sorriso nos lábios anunciou: – Trago uma notícia de última hora: o comandante Carlos Fonseca acabou de morrer. No meio do alarido que a notícia provocou entre os revolucionários, Tomás Borge levantou a voz e gritou: – Carlos Fonseca é dos homens que não morrem nunca.

Mesmo se as tradições espirituais falam em ressurreição dos mortos ou em alguma forma de vida depois da morte, sem dúvida há pessoas cujo testemunho de vida vai além da sobrevivência física. Sem dúvida, todos os que amam a causa da transformação do mundo lamentam a partida do presidente Chávez. Sua partida do nosso meio deixa um vazio imenso e é um grande golpe para todos os que aprenderam a estimá-lo e a considerá-lo como comandante do processo de mudanças sociais e políticas emergentes em nosso continente. Seu carisma único, sua inteligência brilhante, sua sensibilidade humana rara e, poderíamos dizer, sua mística revolucionária nos fará falta e é insubstituível. Entretanto, sua herança continuará viva e atuante.

O ideal libertador de Simon Bolívar nunca ficou apagado ou esquecido em Venezuela e em vários países do continente. No entanto, a partir da década de 70, um grupo de jovens militares, liderados por Hugo Chávez, propôs um novo bolivarianismo. Baseado na educação para todos, na valorização das culturas autóctones, na igualdade entre homens e mulheres e no cuidado respeitoso com a natureza, assim como na radicalização da democracia, esse ideal bolivarianista ganhou uma dimensão revolucionária e socialista inédita na história do continente. Essa bandeira ninguém conseguirá roubar nem derrubar. De fato, sem mistificações nem endeusamentos inadequados, é verdade que o presidente Chávez assumiu nesses anos recentes a figura de um novo Bolívar, totalmente consagrado à libertação do seu povo e à integração do nosso continente como uma pátria grande e libertada. Sem dúvida, sobre ele, se poderia aplicar o que um biógrafo afirmou de Simon Bolívar: “independentemente de religião, pelo fato de ter assumido no mundo um projeto de vida e de libertação motivado pelo amor solidário, ele era um santo secular”.

Como toda pessoa humana e principalmente alguém muito visado pelos meios de comunicação, o presidente Chávez teve suas limitações e pode ser criticado por isso ou por aquilo. Entretanto, apesar de tudo, a partir de agora, em todo o continente latino-americano, quando em qualquer encontro ou evento social, alguém pronunciar o nome do presidente Hugo Chávez, haverá sempre um grupo imenso de pessoas, cidadãos dessa nova pátria grande, que responderão: Presente! 

Marcelo Barros[1] Marcelo Barros, monge beneditino, é biblista de formação e atualmente coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). É assessor nacional das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-escendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação.

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Março 09th, 2013 Postado por : vieira Arquivado em: Eventos, Notícias, Projetos, Publicações

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