Mística e alegria

Por Marcelo Barros [1]

Nesses primeiros dias de fevereiro, o mundo parece invadido pelo clima de alegria do Carnaval. Este envolve pessoas de todas as classes sociais. Suas danças e folguedos representam culturas que, a depender do lugar, revivem em expressões indígenas, negras ou europeias. Embora o Carnaval tenha origens religiosas, muitas vezes, as Igrejas cristãs ainda o olham com desconfiança, assim como suspeitam de todo tipo de diversão e prazer. É verdade que, cada vez mais, na estrutura atual do mundo, o Carnaval é dominado por interesses econômicos e expressa as contradições dessa sociedade. Entretanto, não se pode negar: de uma forma ou de outra, em todas as épocas e nas mais diferentes culturas, a atração pela festa e a busca da alegria fazem parte essencial da vocação humana. As religiões deveriam assumir e expressar isso.

No Cristianismo, Evangelho significa boa notícia. No primeiro testamento, Deus se revela para libertar o povo oprimido do cativeiro, dar terra a quem não a tinha e criar na humanidade uma comunhão de vida. No Novo Testamento, cada vez que o Espírito de Deus se manifesta, a consequência imediata é a alegria. Sempre que Jesus fica cheio do Espírito, exulta de grande regozijo. Ele compara o projeto divino no mundo com uma festa de casamento. Conforme o quarto evangelho, o primeiro sinal que ele fez para revelar sua missão ao mundo foi fazer com que não falte vinho e, portanto, alegria, em uma festa de casamento na Galiléia.

Durante muito tempo, a doutrina da Igreja parecia dar mais valor à penitência, à reparação das faltas e à luta contra o pecado do que à graça divina e à alegria do amor. A visão sobre o ser humano e sobre nós mesmos era pessimista e predominantemente negativa. Hoje, as comunidades cristãs são chamadas a valorizar a natureza como criação divina, sinal da bênção amorosa de Deus e reflexo da divindade. Um comentário judaico do Gênesis diz que, quando o universo surgiu do útero do Criador, centelhas da divindade se espalharam por todas as criaturas. Estas não são divinas em si mesmas, mas são divinizadas pela luz do Criador. E o ser humano, criado à própria imagem divina, deve se tornar, pelo seu modo de viver, semelhante ao Espírito, cuidador amoroso do universo e dos seus outros irmãos, assim como de si mesmo. O objetivo da espiritualidade é nos ajudar a atingir essa divinização de todo o ser.  Mesmo com métodos e formas que podem ser estranhas à educação da fé, o Carnaval pode recordar às Igrejas cristãs que a alegria e o espírito de festa são elementos essenciais do projeto divino no mundo. Na carta aos filipenses, Paulo escreveu: “Alegrem-se sempre em Deus. Eu insisto: alegrem-se, porque o Senhor está perto” (Fl 4, 4). Hoje, dizemos: ele está em nós.

 

Marcelo Barros[1] Marcelo Barros, monge beneditino, é biblista de formação e atualmente coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). É assessor nacional das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-escendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação.

fevereiro 04th, 2013 Postado por : vieira Arquivado em: Notícias, Publicações

Seja o primeiro a comentar Deixe uma resposta:

Seu e-mail não será publicado.Campos obrigatórios*