Renovar o ano novo

Por Marcelo Barros [1]

reveillon-copacabana-2011-4O mundo inteiro faz festas de ano novo. A maioria da humanidade segue o calendário ocidental e festejam o 1º de janeiro. Mesmo os habitantes do hemisfério sul, onde o solstício do inverno ocorre em junho e não no final de dezembro celebram as festas de ano novo junto com os povos do norte. Judeus, islamitas, chineses e outros, têm calendários próprios, mas, nesses dias de festa, se unem à maioria da humanidade e celebram conosco o ano novo.

As culturas antigas valorizavam muito o símbolo do ano novo. A depender do clima, era o reinício do ciclo agrícola. Mesmo em meio à pobreza ou a dificuldades da vida, o ano novo sempre recorda que todos nós temos dentro de nós o forte apelo interior para nos renovar permanentemente. Mesmo em culturas nas quais os mais velhos têm lugar de destaque, todo mundo desejaria ser sempre capaz de se renovar. Em algumas tribos, se costumavam queimar roupas usadas no ano anterior e vestir roupas novas, como símbolo da vida nova que se desejava viver. No Israel antigo, a noite de ano novo era marcada por um culto no qual, em nome de Deus, se fazia um sorteio de terras de modo que a terra fosse, a cada ano, novamente repartida entre as tribos.

Hoje, em uma sociedade que domina a eletricidade, o dia e a noite, assim como a escuridão do inverno ou a claridade do verão já não marcam mais o tempo como antigamente. Entretanto, luz e trevas permanecem símbolos de processos interiores e, no mundo inteiro, as luzes se apagam no momento do ano novo para deixar que uma luz nova nos ilumine e os fogos artísticos iluminem a noite. Então, as pessoas se abraçam e se desejam feliz ano novo. Quando vivemos o amor, a generosidade, a solidariedade e a partilha de vida, então, o nosso desejo de que o mundo caminhe para melhor se torna mais eficaz. Não temos força para mudar organizações sociais e sistemas complexos e baseados em leis estruturais, mas podemos contribuir para que se criem as condições necessárias para transformar as leis e sistemas e tornar o mundo mais justo e fraterno.

meditacaoha5Se você quiser, de fato, que este ano seja um tempo de profunda renovação da sua vida e isso repercuta bem para as pessoas ao seu redor e para todo o universo, refaça neste início de ano novo o compromisso de, a cada dia, consagrar um tempo, por mínimo que seja, de gratuidade e interioridade para renovar um diálogo verdadeiro e profundo consigo mesmo/a, comprometer-se em ser cada vez mais uma pessoa de diálogo com os outros seres humanos, inclusive com aquelas pessoas que pensam e agem a partir de valores que não são os seus e você não aprova. O diálogo mais fecundo é justamente com os que pensam e atuam diferentemente de nós. Além disso, procure de todos os modos intensificar a comunhão solidária com a terra, a água e todos os seres vivos do planeta. Faça isso e a bênção deste ano novo se realizará em você e, a partir de você, no mundo inteiro. Você constatará, então, como se tornarão verdadeiras e fecundas em sua vida, assim como para os que convivem com você, as palavras da antiga bênção irlandesa: “O vento sopre leve em teus ombros. Que o sol brilhe cálido sobre tua face, as chuvas caiam serenas onde moras. E até que, de novo, eu te veja, que Deus te guarde na palma da sua mão”.

 



Marcelo Barros[1] Marcelo Barros, monge beneditino, é biblista de formação e atualmente coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). É assessor nacional das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-escendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação.

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dezembro 27th, 2012 Postado por : vieira Arquivado em: Eventos, Notícias, Publicações

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