Porque dar graças

Marcelo Barros[1]

No Brasil, desde os anos da ditadura, os governos têm se esforçado para integrar no calendário festivo a última quinta feira de novembro como dia nacional de ação de graças. Apesar dos cultos feitos em catedrais e de shows de músicas religiosas, promovidos por prefeituras, esse feriado norte-americano não se enraizou no Brasil. Nos Estados Unidos e alguns outros países marcados pela cultura norte-americana, o dia de ação de graças é uma grande festa de confraternização. Só quem não dá graças é o peru morto na véspera para alimentar as famílias que agradecem.

Sem dúvida, é positivo que sejamos educados e sempre convidados a desenvolver sentimentos de reconhecimento e gratidão. É importante ser gratos a Deus ou para quem não crê, cantar como Violeta Parra, “gracias à la vida”, uns aos outros e ao universo. A gratidão e a alegria de dizer sim fazem parte de uma postura de amor. E há sempre mil razões para se alegrar e para dar graças. Mas, para que a ação de graças seja verdadeira tem de ser coerente e justa. Não podemos usar a ação de graças como argumento para atribuir a Deus, ou ao destino e à vida, coisas que nada têm a ver com Deus ou com a bênção da vida. É provável que até hoje, muitas pessoas atribuam a Deus a riqueza que possuem, o êxito que tiveram ao explorar os outros ou o fato de que outros morreram, mas a tal pessoa que agradece escapou sã e salva. Há movimentos espiritualistas, católicos e evangélicos, que leem ao pé da letra o versículo do salmo que diz como palavra de Deus para o seu fiel: “Podem cair mil ao teu lado, dez mil à tua direita, a ti nada de mal atingirá” (Cf Salmo 91, 7).

Sobre tudo isso, é preciso deixar claro: o Deus que salva alguns privilegiados e deixa morrer ou sofrer uma porção de outros filhos não é pai de todos. Ao contrário, é o Deus do capitalismo selvagem. Não merece nossa adoração. É o ídolo ao qual os ricos podem agradecer o fato de ter uma casa confortável, o carro do ano ou uma boa conta no banco. Assim, no dia de ação de graças, uma pequena elite tem muito o que agradecer, enquanto a multidão dos empobrecidos ou agradece os bens espirituais, já que não possuem nada, ou iludidos e alienados, agradece ao Deus da elite os benefícios dados aos seus patrões.

Na Bíblia, o livro dos Salmos é a coleção dos hinos de louvor e agradecimento a Deus. Os salmos nos ensinam a um louvor que sempre une a pessoa que ora à comunidade de todo o povo de Israel e à história real da humanidade. A relação com Deus não se dá na legitimação das estruturas injustas. No mundo, ocorrem muitas coisas que não são do agrado de Deus e nem correspondem à sua vontade. Agradecer a Deus a obtenção de riquezas injustas é insultá-lo e chamá-lo de protetor de ladrões e malfeitores, diz o livro do Eclesiástico (Eclo 18, 34 ss). Os evangelhos contam que Jesus agradeceu ao Pai de uma forma muito diferente: “Pai, eu te agradeço, porque escondeste tuas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos simples e aos pequeninos” (Mt 11, 25).   



[1] Marcelo Barros, monge beneditino, é biblista de formação e atualmente coordenador latino-mericano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). É assessor nacional das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-escendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação.

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novembro 26th, 2012 Postado por : vieira Arquivado em: Notícias, Publicações

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