O concílio 50 anos depois: entrevista com o monge Marcelo Barros

Entrevista com o monge beneditino Marcelo Barros, ao jornalista Acchille Rossi, para a revista Altrapagina. Tradução Marcelo Barros.

RA – Depois de 50 anos, é possível fazer um balanço do significado que o Concílio Vaticano II teve para as Igrejas da América Latina?

MB – Na América Latina, até o Concílio, (1962), as Igrejas cristãs eram como se fossem embaixadas dos países europeus e centros de difusão da cultura ocidental que a maioria dos padres estrangeiros e brasileiros identificava como sendo a única forma de viver e de pensar a fé cristã. A partir do Concílio, começam a surgir Igrejas com cara e coração verdadeiramente latino-americanos. A partir da 2° conferência geral dos bispos latino-americanos em Medellin, na Colômbia, 1968,  reunião que aplicou o Concílio ao nosso continente, muitos cristãos e pastores se envolveram nos movimentos sociais pela libertação dos nossos povos.

RA – Quais foram as indicações do Concílio que mais influenciaram a Teologia da Libertação e os seus desenvolvimentos sucessivos?

MB – Sem dúvida, os documentos do Concílio Vaticano II que mais tiveram influência sobre a teologia e as Igrejas latino-americanas foram a constituição sobre a palavra de Deus (Dei Verbum) e a que trata da missão da Igreja no mundo (Gaudium et Spes). Mas, é importante dizer que mais ainda do que através dos documentos, o Concílio influenciou nas nossas Igrejas e na nossa teologia pelo ambiente eclesial aberto e misisonário que criou. A Igreja parecia irmã e companheira de todos os seres humanos em sua busca. E falava uma linguagem amorosa e de vida e não somente de sexo e pecado. Nesse sentido, para nós foi fundamental o testemunho do papa João XXIII, um pastor verdadeiramente cristão e sem medo de viver o evangelho. Também o Concílio provocou um clima entre os bispos que fez bem a toda a Igreja. Os bispos já não eram mais doutores que davam sobre tudo a última palavra sem escutar ninguém, mas, ao contrário, se punham como irmãos e parceiros de diálogo da humanidade. Além disso, a Igreja inteira se colocou o problema que sempre aparece em todos os momentos de reforma eclesial: o compromisso com os pobres. Durante o Concílio, mais de cem bispos assumiram um compromisso de ser pobres e solidários com os pobres. Foi o chamado “pacto das catacumbas”. Não foi um documento do Concílio, mas teve uma profunda influência em tornar a Igreja mais simples, mais dialogante com a humanidade e uma Igreja com os pobres e dos pobres.  

RA – Em um tempo de sua vida, você foi uma das pessoas próximas a um dos protagonistas do Concilio Vaticano II. Quais foram as contribuições mais importantes de Dom Hélder Câmara ao processo do Concílio?

MB – Dom Hélder Câmara foi um dos mais importantes pais do Conílio, mesmo se ele fez isso de forma voluntária e fora das sessões plenárias. Ele foi um grande articulador de todos os movimetnos e iniciativas importantes dos bispos e dos teólogos. Ele foi um dos principais inspiradores da constituição sobre a Igreja no mundo de hoje (Gaudium et Spes) e da abertura da Igreja ao mundo dos pobres. Na América Latina, ele fundou a primeira conferência de bispos do mundo (no Brasil, 1955) e o CELAM, Conselho episcopal latino-americano. Ele abriu a Igreja ao mundo e às grandes causas da humanidade. Soube ser pastor e profeta não a partir do poder e sim do amor solidário e do serviço simples e humilde ao povo.

RA – Parece que o Concilio, ao menos na Europa, tenha esgotado sua energia criativa. Acontece a mesma coisa na América Latina e por que?

MB – No encerramento do Concílio, o papa Paulo VI fez um discurso cujo título e tema principal era: “Igreja, o que dizes de ti mesma?”. O assunto principal do Concílio foi a natureza e a missão da Igreja. A transformação mais profunda que o Concílio trouxe à Igreja foi a eclesiologia das Igrejas locais. Isso significa que a Igreja não pode ser uma multinacional religiosa, mas sim uma comunhão de Igrejas locais autônomas e unidas na diversidade. Logo que o Concílio acabou e os bispos voltaram, cada um para a sua diocese, a cúria romana retomou a função de poder central controlador. A partir do pontificado de João Paulo II, o Vaticano tenta recriar uma nova cristandade. Isso anula o Concílio e dificulta que o espírito do Vaticano II possa ainda soprar sobre o mundo. Hoje, às vezes, se tem a impressão de que o Santo Ofício (a Congregação romana para a doutrina da fé) tomou a Igreja inteira, reduz tudo a si mesmo e faz das Igrejas locais e das conferências episcopais simples organismos executores das decisões romanas. Seja como seja, com dizia um ditado da época das ditaduras latino-americanas, “podem destruir algumas flores, mas não conseguirão deter a primavera”. Na América Ltina, como também na Europa, nas bases das Igrejas, muitas comunidades e movimentos cristãos inseridos resistem como “minorias abraâmicas”, expressão de Dom Hélder Câmara para indicar os grupos proféticos no mundo e na Igreja de hoje..

RA – Como é possível hoje no interior da Igreja retomar o espírito conciliar e, em tua opinião,  sobre que temas é necessário prosseguir a reflexão?

MB – Em pleno século XIX, uma vez, perguntaram ao cardeal Newman, como ele via o futuro da Igreja. Ele respondeu: Pio IX não será o último papa”. Hoje, creio que devemos viver na Igreja como os irmãos e irmãs que na década 50 levaram adiante diversos movimentos eclesiais que não eram aceitos por Roma e eram até perseguidos, mas criaram o clima que depois, tornou possível o Concílio. Os teólogos e pastores que, naquela época, sustentaram e levaram adiante o movimento litúrgico, o movimento patrístico, o movimento ecumênico, bíblico, teológico e tantos outros, fecundaram o terreno eclesial em uma época que era como um frio inverno teológico e institucional. Mesmo se eram ignorados e até perseguidos por Roma, esses movimentos de base prepararam o terreno. Quando chegou o santo papa João XXIIII, imediatamente a primavera pode renascer. Hoje, devemos repensar a fé a partir do paradigma pluralista e como serviço à paz e à justiça no mundo. Sabemos que só uma Igreja que escolhe a liberdade como valor- fim pode ser acreditável e reconhecida como testemunha do evangelho de Jesus no mundo. Vivamos isso na diáspora das pequenas comunidades eclesiais. 

outubro 26th, 2012 Postado por : vieira Arquivado em: Notícias, Publicações

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