A primavera ameaçada

Por Marcelo Barros[1]

Em tempos de mudanças climáticas repentinas e imprevisíveis as estações do ano podem ser interrompidas, ou prejudicadas por fenômenos, como o aquecimento global ou simplesmente a interferência humana nos ecossistemas que garantem a estabilidade dos climas. Do mesmo modo, nas sociedades e comunidades, experiências que se podem comparar com novas estações podem ser sufocadas ou postas em perigo. Na Igreja Católica, há 50 anos, o papa João XXIII quis preparar uma nova primavera de calor humano e alegria para as Igrejas e para o mundo.  Convocou uma reunião de todos os bispos católicos do mundo inteiro e observadores de várias outras Igrejas cristãs. Esse encontro pioneiro e profético foi o Concílio Vaticano II, pensado e convocado para renovar a Igreja Católica e prepará-la para abrir-se à unidade das Igrejas cristãs, como, segundo os evangelhos, Jesus desejou.

João XXIII foi o papa que o mundo descobriu como homem bom e santo que comoveu a humanidade pela sua simplicidade e seu desejo de que a Igreja voltasse a se parecer mais com a comunidade evangélica de Jesus. Ele não transmitia uma imagem de medo e de autodefesa. Não era um funcionário da religião. Era um pastor e principalmente um cristão de fé que, antes de tudo, desejava que a Igreja voltasse à simplicidade do evangelho.  Para isso, propôs como critérios a volta às fontes da fé (o evangelho) e uma verdadeira atualização da Igreja (adjornamiento).

Pela primeira vez no mundo, em um concilio universal, a Igreja conseguiu, de fato, reunir bispos de continentes como a África, América Latina e Ásia. Também pela primeira vez, cristãos de Igrejas diferentes (pastores e fiéis, homens e mulheres) participaram de um Concílio e puderam participar das discussões em plenário. O Concílio teve quatro sessões e produziu 16 documentos. Não condenou nenhuma heresia, nem proclamou dogmas, mas abriu um diálogo da Igreja com a humanidade.

Hoje, 50 anos depois, perpetuam-se na Igreja sobre o Vaticano II três interpretações divergentes. A primeira compreende que o Espírito de Deus se serviu do Concílio para renovar a Igreja. Essa linha foi majoritária nos anos 60. Uma segunda interpretação é daqueles que rejeitam o Concílio em nome da tradição. Consideram o Concílio a causa da crise que se abateu sobre as Igrejas, como se as outras Igrejas e religiões que não tiveram o Concílio não tivessem sido atingidas pela mesma crise. Uma terceira interpretação, hoje oficial em setores da cúpula romana aceita o Concílio, mas o reinterpreta como continuidade com a velha tradição. Os adeptos dessa linha reduzem o Concílio a uma reunião doutrinal sem maior importância. Ignoram sua mensagem nos pontos em que o Concílio ousou mudar o modo de ser da Igreja. Por exemplo, o Concílio propôs que se valorizassem as Igrejas locais. Hoje, quase sempre, as Igrejas locais são consideradas apenas filiais da cúria romana. O Vaticano II propôs a colegialidade dos bispos como forma de governo da Igreja. Hoje, o papa e a cúria romana mandam sem diálogo e os bispos são meros gerentes locais. A espiritualidade proposta pelo Concílio era uma fé bíblica, centrada em Jesus Cristo e na vida real. Hoje, muitas paróquias voltaram a uma piedade devocionista pouco bíblica e desligada da realidade.

De todos os modos, não podemos nem devemos perder a esperança. Jesus disse: “A verdade vos libertará!” (Jo 8, 35). Na maioria das dioceses, as pastorais sociais, nascidas a partir do Concílio, as comunidades eclesiais de base e todo o caminho ecumênico que o Concílio abriu são hoje opções minoritárias e quase marginais. Entretanto, elas sempre foram minoritárias e pouco compreendidas. Já com mais de 80 anos, Dom Hélder Câmara chamava esses cristãos renovadores de “minorias abraâmicas”, porque de fato são pequenos grupos espalhados aqui e ali. Abraâmicos porque como são o patriarca Abraão. Conforme a tradição, apesar de velho e estéril, Deus tornou Abraão fecundo. Pela bênção divina, ele se tornou pai de uma multidão de povos. Hoje, essas minorias abraâmicas mantêm viva a voz do Espírito e testemunham que o reinado divino vem a esse mundo. Mesmo no meio de estruturas às vezes hostis, unem-se a todos/as que na terra buscam e trabalham por um novo mundo possível.



[1] Marcelo Barros, monge beneditino, é biblista de formação e atualmente coordenador latino-mericano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). É assessor nacional das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-escendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação.

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outubro 09th, 2012 Postado por : Jose Maria Arquivado em: Notícias, Publicações

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