O massacre do carandiru: uma reflexão

Por Karina Nogueira Vasconcelos[1]

Àqueles que gostariam de não ter registrado essa data, àqueles que preferiam ter sido aquele dois de outubro mais um dia qualquer, àqueles que tanto horror sentiram ou tão rapidamente partiram e também àqueles que ainda sofrem hoje essa dor.

É com muita tristeza que hoje lembramos do massacre do Carandiru, um dia que se eternizou para os brasileiros como sinônimo de covardia, de morte em massa, de horror e muita dor. Dia também em que muitos, comandados pelas vozes insanas dos que atendem à difusão de nossa violência, protegidos pelo dever de proteção de algo tão valioso, tão necessário que, em nome desse bem, tantos outros bens se tornam de tão menos valor, que tantos não tem mais seu bem, seu benzinho, atentaram contra a vida de uns para proteção da vida de outros. A vida não é ainda um valor absoluto.

Quem dera não ter essa triste lembrança daquele dia em que tantos mortos se foram e tantos mortos ficaram na constante perseguição do dever de cumprir o dever que se deve. O morto que deixou matar o respeito absoluto pelo outro, que leva a vida na eterna necessidade de combate contra o inimigo abstrato que de épocas em épocas se apresenta em diferentes faces sempre miseráveis. Os mortos que ficaram talvez ainda ouçam as vozes do desespero e vejam as cenas devastadoras daquelas ações. Talvez esses sejam atormentados pelo sentimento de culpa ou talvez se eximam da culpa no cumprimento de um dever. Outros ainda talvez nem se lembrem, tendo sido aquele dia mais um entre os demais… que percurso ainda têm pela frente!

É triste lembrar de quanta violência ainda há na nossa sociedade e quão tortuoso será o regressivo e ultrativo caminho do perdão e da reparação. O perdão que é humano e que se torna necessário para seguir em frente depois do descumprimento da maior de todas as leis – aquela que nos constitui como diz Riane Eisler – a lei do amor, que está na origem paleolítica de nossa civilização. Faz tanto tempo que cultivamos a violência que de cultural passou a ser vista como natural.

É uma pena essa cegueira que não nos permite perceber o óbvio: somos seres que nos desenvolvemos com o outro e aniquilar o outro é nos aniquilarmos também. Poderíamos invocar tantas ciências para legitimar o que diz essa afirmação, mas para quê? Parece que o que nos falta não são fenômenos que comprovem a existência das coisas para que possamos alterar o nosso dia a dia. Apesar de conhecermos os malefícios de muitas substâncias, anunciados por exaustivos esforços de cientistas, continuamos nossas vidas ingerindo-as. Parece-me que saber não é o suficiente para alterarmos nossa vida e nos liberarmos de antigos paradigmas ou enquadramentos mentais ou morais.

Quando estaremos prontos para prevenir ao invés de remediar? De oportunizar ao invés de julgar? De acolher ao invés de punir? Como perceber pessoas e sofrimentos quando só se enxerga monstros e maldade? Até quando enredar pessoas nas tramas violentas de uma perseguição contínua? Até quando não perceber mais o óbvio? Até quando o sentimento de culpa afastará nosso bem-estar soerguendo o sofrimento a uma instância de prazer?

Pelos mortos que se foram e pelos que aqui estão, eu convoco todos a essa reflexão.



[1] Professora do curso de Direito da Universidade Católica de Pernambuco

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setembro 28th, 2012 Postado por : vieira Arquivado em: Notícias, Publicações

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