O Cardeal, a liberdade e a terra

Por Marcelo Barros[1]

Nessa semana, o rabino, ex-presidente da comunidade judaica da Itália vai trazer uma porção de terra de Israel para colocar no túmulo de um cardeal que há um mês nos deixou. O cardeal Carlo Maria Martini foi arcebispo de Milão, a mais extensa diocese de todo o mundo. Entretanto, o que mais chamou atenção na pessoa e no ministério do cardeal Martini é que ele ampliou mais ainda a sua diocese. Não no sentido territorial e sim ao fazer do seu ministério uma missão de diálogo e abertura com o mundo todo. Na universidade católica criou uma cadeira de diálogo com os não crentes e ele mesmo assumiu esse encargo. Tomou a iniciativa de ir ao encontro de intelectuais, artistas e pessoas de outras religiões. Uma vez, no começo dos anos 90, celebrei o casamento de um casal de jovens em uma paróquia de Milão. Durante a celebração, o pároco leu uma breve carta aberta do arcebispo dirigida aos dois esposos e assinada por ele.

Martini era um homem tímido e simples, formado no estudo da Bíblia e aberto ao mundo de hoje. Tinha mais de 50 livros escritos e sobre os temas mais variados. Defendeu publicamente posições inovadoras que nem sempre agradavam a todos. Tomou posição a favor da ordenação sacerdotal de homens casados e de restituir o ministério presbiteral a padres que optam pelo casamento. Defendeu que a Igreja deveria ordenar mulheres como diaconisas, prática que foi comum nas Igrejas antigas até o século V ou VI. Manteve sempre uma postura de abertura e diálogo no campo da moral com pessoas que se sentiam marginalizadas na Igreja, principalmente casais divorciados, unidos em novo casamento e homossexuais que lhe pediam uma orientação pastoral para viver a fé.  

Sobre ele escreveu Luiz Alberto Gomez de Souza: “Martini nos deixou um fortíssimo testamento em forma de entrevista, publicado um dia depois de sua morte: ”A Igreja ficou duzentos anos para trás”. Entretanto esperava: “poderemos buscar pessoas que sejam mais livres e mais próximas do povo, como o bispo Oscar Romero e os mártires jesuítas de El Salvador. Onde estão entre nós os nossos heróis para nos inspirar? Por nenhuma razão devemos limitá-los aos vínculos de uma instituição”. E prosseguia: “Onde estão as pessoas cheias de generosidade como o bom samaritano? Pessoas que estejam perto dos pobres, que estejam cercados por jovens e que experimentem coisas novas”. (…) Assim como o pastor Martin-Luther King fizera sua grande oração, “Eu tive um sonho”,também, em 1999, por ocasião de uma reunião dos bispos europeus, o cardeal Martini apresentou seu sonho, para que a Igreja, num futuro concílio, enfrentasse temas urgentes, como a sexualidade, a posição da mulher na sociedade e na Igreja e outros mais internos, como a disciplina do matrimônio ou a participação dos fiéis nos serviços (ministérios) da Igreja. E em várias ocasiões pedia coragem para medidas concretas. Sobre a sexualidade indica no testamento: “Devemos nos perguntar se as pessoas ainda ouvem os conselhos da Igreja em matéria sexual. A Igreja ainda é uma autoridade de referência nesse campo ou somente uma caricatura apresentada pela imprensa?”.

O funeral do cardeal Martini reuniu milhares e milhares de pessoas, das mais diversas religiões e muitos sem nenhuma pertença religiosa que se sentiam ligadas a esse homem que, por sua abertura ao diálogo, soube fazer-se irmão de toda a humanidade. Em sua trajetória pastoral, Martini nos recordou os grandes pais da Igreja antiga como Santo Ambrósio, Agostinho, Basílio e João Crisóstomo e também os pais da Igreja latino-americana como Bartolomeu de las Casas, Oscar Romero, Leônidas Proaño, Hélder Câmara e tantos outros. Agora cabe a todos nós continuar sua missão de abertura e diálogo para tornar esse mundo mais fraterno e a Igreja cristã um verdadeiro espaço de comunhão para toda a humanidade.



[1] Marcelo Barros, monge beneditino, é biblista de formação e atualmente coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). É assessor nacional das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-descendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação.

setembro 26th, 2012 Postado por : vieira Arquivado em: Notícias, Publicações

Seja o primeiro a comentar Deixe uma resposta:

Seu e-mail não será publicado.Campos obrigatórios*