Frei Aloísio Fragoso aborda a morte no Fórum do Envelhecimento da Católica

por Elano Lorenzato do Boletim Unicap

O Fórum sobre Questões do Envelhecimento da Universidade Católica de Pernambuco realizou, na tarde desta terça-feira (1º), véspera do feriado de Finados, no auditório G1, um encontro com o tema: “O tempo não para: reflexões sobre a (in) finitude”, com os palestrantes Frei Aloísio Fragoso e a professora do curso de Psicologia da Unicap Vânia Maria Ferreira.

Antes de começar a palestra, o público assistiu à apresentação do músico do MBP Unicap, Percy Marques, que cantou, ao som de seu violão, canções que emocionaram os presentes. Em seguida, duas integrantes da Associação de Idosos de Rio Doce (Olinda), dona Cida Gusmão e dona Rita de Cássia Delgado, realizaram uma encenação do texto: “A mulher de ontem e a mulher de hoje”, de autoria de dona Cida. (Leia o texto abaixo).

Após o momento cultural, o mestre de cerimônia e pastoralista Gilmar Araújo convidou o diretor do Centro de Ciências Biológicas e Saúde (CCBS), professor Aranildo Rodrigues de Lima, para fazer a abertura do Fórum. Professor Aranildo cumprimentou o público, o Pró-reitor Comunitário, Padre Lúcio Flávio Ribeiro Cirne S.J., e os organizadores do evento, professor João Luiz e Sônia Rodrigues. Professor Aranildo, dentro da temática, realizou uma apresentação intitulada “o incrível processo da morte”, do Dr. Dráuzio Varella. (Clique aqui para assistir a apresentação).

Depois da abertura do diretor do CCBS, Gilmar Araújo convidou o Frei Aloísio Fragoso e a professora do curso Psicologia da Unicap Vânia Maria Ferreira para comporem a mesa. Professora Vânia foi a primeira a falar.

“Nós fizemos uma sondagem no último encontro de idosos aqui na Católica e vimos o que eles associavam com infinitude, porque podia ser infinitude no sentido da vida. A gente queria saber o interesse em relação ao assunto. Mais de 70% das respostas foram sobre a morte e, pior, o medo da morte. Os idosos, a partir dos 60 anos, estão vivendo ainda do medo e da culpa, um medo muito grande. Pessoas que hoje têm 60, 70 e 80 anos foram socializadas numa época da pedagogia do terror. Ainda hoje, existem pessoas que educam para o medo, porque acham que a pessoa vai deixar de agir errado por conta do medo. Antigamente, essa forma de agir era maciça e, também, aquelas ideias da época medieval que ainda eram trazidas nas igrejas. Eu tenho 61 anos, mas se falava de ‘fogo do inferno’ de ‘oceano com fogo borbulhando’ para as pessoas. Minhas amigas de infância eram de colégio de freiras e elas, também, tinham medo do pecado. Nós perdemos coisas da doce infância, muita alegria, por conta dessas pequenas coisinhas que a psicologia e, hoje, eu sou psicóloga, a gente vê que são brincadeiras infantis, são curiosidade que eram consideradas pecado e motivo de culpa. As pessoas de 80 anos se tremem de medo da morte. Medo do castigo (pós-morte) por conta do que fizeram no passado, ligado, por exemplo, à sexualidade. Isso tudo vem à tona na memória. Então, eu acho muito importante que esses idosos falem sobre isso, em grupos, para ir ressignificando e pensando no tempo atual. Cada um vai vendo a opinião com um mediador que possa ajudá-los a enxergar as coisas de outra forma, se perdoar e perdoar o outro, para realmente, quando chegar a hora da grande passagem, eles estarem mais tranquilos. Então, precisa ser passada a imagem de um Deus mais misericordioso, um Deus que acolhe, aquele Deus do filho pródigo que o pai recebe de braços abertos, principalmente quando se fala para idosos”, finaliza professora Vânia.

Em sua palestra, Frei Aloísio Fragoso abordou a morte. “Na verdade, eu fui convidado explicitamente para falar da morte. Não há necessidade de dizer essa palavra, mas eu gostaria de pronunciar para a minha plateia a fim de tentar resgatar o sentido teológico, vivencial, filosófico e, até mesmo, em parte, cultural da morte. Por isso, vou falar sobre uma visão cristã, lembrando que tudo o que a gente disser sobre a morte, tem como pano de fundo a vida e não a morte. Lembrar que o próprio Cristo nunca se definiu assim, a si mesmo, usando a palavra morte, mas sempre usando a palavra vida e quando ele tinha que usar a palavra morte, ele sempre associava a ressurreição. É verdade que na cultura, na tradição, nos costumes do povo essa palavra vem desgastada, ela traz uma carga de sensações negativas, porque ela foi associada ao fim e a minha intenção é, justamente, dissociar a palavra morte da palavra fim para mostrar que, na verdade, ela significa o último nascimento, que a gente só acaba de nascer quando morre”, concluiu Frei Aloísio.

No final do Fórum, a reportagem do Boletim Unicap ouviu algumas participantes para saber suas opiniões sobre o que foi apresentado.

Maria da Conceição Souza Leão do Nascimento, 64 anos, moradora de Olinda. “Eu achei a palestra maravilhosa. Estou aqui num momento difícil porque perdi meu marido há pouco tempo e tudo isso foi reconfortante, foi reanimador pra mim e eu espero, nunca mais, perder os fóruns. Com uma palestra dessa, sobre a morte, você se refaz, passa a ter uma nova visão do que é a vida eterna.”

Maria Auxiliadora Guerra de Melo, 69 anos, moradora de Olinda. “A Drª Vânia quando fala, desmantela a gente, fazendo com que a gente fique balançada, desestrutura a gente. Então, quando entra Frei Aloísio, ele coloca a gente no caminho mesmo de chegar até o amor de Deus. Eu achei ótima.”

Edna Farias Carneiro, 59 anos, moradora de Olinda. “Eu já participo dos fóruns. Durante o ano, eu já vim para vários encontros, porque fiquei sabendo por meio de minha filha, que é aluna da Católica. Eu saio hoje daqui bastante feliz e com a visão, de como Frei Aloísio colocou pra gente, que só existe vida a partir da nossa prática do amor no dia a dia, Isso daí é a vida. Então, a gente sai daqui hoje animada, com mais força para viver. Foi a própria vida que foi colocada pra gente de uma forma bem bonita.”

 

A mulher em duas épocas
Por Cida Gusmão

Eu sou a mulher de ontem
Meu Deus que vida danada
É no tanque, cozinha e banheiro
Cuidando da criançada.

Eu sou a mulher de hoje
Coquete sempre arrumada
Trabalho fora de casa
Pra isso já fui preparada.

Eu sou a mulher de ontem
Trabalho tanto, que horror!
Cansada inda vou pra cama
Servir ao meu amo e senhor.

Eu sou a mulher de hoje
Em casa tenho empregada
Que cuida das minhas crianças
E deixa a casa arrumada.

Eu sou a mulher de ontem
Pro amor já vou suspirando
Quando chego nos finalmente
Ai! O bebê acorda chorando.

Eu sou a mulher de hoje
Faço amor com muito prazer
Estou sempre muito disposta
E sou bem feliz, pode crer.

Eu sou a mulher de ontem
Por todos discriminadas
Socialmente falando
Não tenho direito a nada.

Eu sou a mulher de hoje
Liberdade tenho demais
No trabalho estou realizada
E também nas questões sociais.

Eu sou a mulher de ontem
Sem voz, sem vez, sem vontade
É o maridão que resolve
E diz que é machão de verdade.

Eu sou a mulher de hoje
Os problemas são divididos
Despesas e outras questões
Divido com o meu marido.

São duas épocas distintas
São duas realidades
Feliz da mulher de hoje
Que venceu as dificuldades.

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novembro 03rd, 2011 Postado por : admin Arquivado em: Eventos

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