Ivone Gebara realiza conferência de encerramento do 6º Encontro Internacional das Águas

Do Boletim Assecom por Elano Lorenzato

Fotos: Paulo Maia

A conferência de encerramento do 6º Encontro Internacional das Águas teve como tema “As águas e um novo humanismo do século XXI” e foi proferida pela teóloga Ivone Gebara, na noite da sexta-feira (13), no auditório G2. O Pró-reitor Comunitário e coordenador do Instituto Humanitas Unicap, Padre Lúcio Flávio Ribeiro Cirne, presidiu os trabalhos da mesa.

A teóloga paulistana Ivone Gebara é doutora em Filosofia pela Universidade Católica de São Paulo e em Ciências Religiosas pela Universidade Católica de Louvain, na Bélgica. Ela lecionou durante 17 anos no Instituto de Teologia do Recife, até sua dissolução, decretada pelo Vaticano, em 1989. Atualmente, vive e escreve em Camaragibe, Pernambuco. Percorre o Brasil e diferentes partes do mundo, ministrando cursos, proferindo palestras sobre hermenêutica feminista, novas referências éticas e antropológicas e os fundamentos filosóficos do discurso religioso. Tem vários livros e artigos publicados em português, espanhol, francês e inglês, entre eles As Incômodas filhas de Eva na Igreja da América Latina. São Paulo: Paulinas, 1989; e Rompendo o silêncio: uma fenomenologia feminista do mal. Petrópolis, Vozes, 2000.

Ivone Gebara abordou em sua conferência a divisão social do trabalho na perspectiva das mulheres. “Nós estamos tentando mostrar que, ao longo da história humana, aquilo que a gente chama de divisão social do trabalho tocou mais de perto as mulheres. Quer dizer, as mulheres sempre foram consideradas de segunda categoria e sempre foram aquelas que tiveram de manter algumas coisas fundamentais no equilíbrio da vida familiar e doméstica. São as mulheres que procuram o alimento, são as mulheres, também, que procuram e cuidam especialmente da água. Por isso que, quando eu falo de relação entre ecologia e feminismo, eu estou mostrando não uma questão de natureza, não que as mulheres são mais natureza do que os homens, mas eu estou dizendo que, do ponto de vista da responsabilidade social, recai sobre as mulheres. No Brasil, na América Latina, nos países africanos, nos países asiáticos, recai sobre os ombros das mulheres a questão de uma água potável para sua família. Então, por isso que eu proponho para a nossa reflexão que a água, antes de ser um problema ecológico sentido por todas as pessoas, é um problema para certos grupos e, entre esses grupos, mais vulneráveis estão as mulheres.”

“Essa questão não é novidade. Essa questão da água revela, ainda hoje, que existe uma maioria excluída dos bens da terra, em especial da água, e existe uma minoria que, apesar de seu discurso em favor da qualidade da água, continua a manter a discriminação e as barreiras para o acesso democrático às águas. O que eu quero dizer é que nem todo discurso teológico favorece a repartição das águas. Nem todo discurso científico ecológico de fato pensa no bem comum, basta que a gente veja, por exemplo, a quantidade de dinheiro que é investida em pesquisas submarinas e a pouca quantidade de dinheiro que é investida na renovação da rede de distribuição de água.”

“Mais uma vez, eu lembro que as mulheres devem prever e prover a água para a manutenção da vida familiar. A canção brasileira já consagrou a mulher que cozinha, que lava roupa, que limpa, que cuida da família, a célebre música: ‘lata d`água na cabeça, lá vai Maria’. Há uma simbologia que revela esse reconhecimento pela poesia popular, pela música popular, dessa divisão social do trabalho doméstico. É por isso que eu insisto em mostrar que o problema da água afeta todo mundo, mas afeta especialmente as mulheres porque são elas as provedoras desse bem para suas famílias.”

“Alguns anos atrás, eu soube de uma pesquisa nos morros do Recife, Morro de Casa Amarela, onde havia um número muito grande de mulheres hipertensas. Se chegou a uma assustadora conclusão de que a doença era devida à escassez de água. A gente pode até se espantar como a escassez de água gera pressão alta, mas muitas das mulheres pesquisadas viviam em constante sobressalto, porque a água chegava de madrugada, ou no meio da noite, então, o sono atribulado tinha efeito direto sobre a saúde das mulheres. Hoje, estes dados estão sendo atualizados em nível nacional e, infelizmente, os resultados estão mais ou menos semelhantes”.

“O que mais falta não é água, mas é o cuidado com os nossos corpos, que é água. O que mais falta não é água, mas é cuidar, amar o próximo, que é água também, como a nós mesmos”, finalizou a Ivone Gebara.

Padre Lúcio Flávio Ribeiro Cirne agradeceu à conferencista. “Obrigado Ivone por essas palavras tão inspiradoras nesta conferência que encerra este 6º Encontro Internacional das Águas.”

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maio 18th, 2011 Postado por : admin Arquivado em: Eventos, Notícias

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