CUIDADO COM A MAGIA NEGRA

 

Matéria extraída do blog do mestrado em Ciências da Religião da Unicap, publicada em 02/03/2011

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Por Gilbraz Aragão
Coordenador do Mestrado em Ciências da Religião da UNICAP

 

Está nos jornais de hoje (veja aqui, por exemplo) que a “polícia prendeu dois homens e uma mulher que esquartejaram professora em ritual de magia negra”. Pois bem, resumindo, a professora Maria Iracema de Morais foi assassinada em suposto ritual de magia negra. Os acusados são o pai de santo Paulo Vitor de Araújo, a mãe de santo Elizabete de Lima e o filho de santo Ailton Félix . De acordo com a polícia, Paulo Vitor teria injetado uma substância na professora durante um ritual no terreiro Axé Ilê de Maria Padilha, no bairro do Cordeiro, no Recife. Adormecida, Maria Iracema foi levada até Surubim, onde foi queimada três vezes e esquartejada. Seus restos mortais foram jogados em um açude. A faca utilizada no crime foi partida em três pedaços, que foram jogados no mesmo local. Pronto: é Magia! E da Negra! Que falta faz um cursinho de história das religiões e de cultura religiosa pra essa gente…

Pois quem estuda um pouco os fenômenos religiosos sabe que a interpretação dada ao fato está equivocada. Não é a primeira vez que a polícia e a imprensa, no Recife e alhures, atribuem assassinatos macabros a “rituais de Magia Negra”. Se os próprios assassinos explicam-se assim, estão abusando da religiosidade: Magia Negra (ou Satanismo) é uma tradição espiritual criada pelos gringos nos Estados Unidos, cujos ritos (que não incluem mortes) dificilmente estariam sendo praticados na periferia da nossa cidade. Se os policiais e jornalistas, por sua vez, associam nomes africanos e títulos de terreiros afro-brasileiros com a Magia Negra, eles são ignorantes e/ou colaboram para reforçar a secular criminalização do Xangô-Candomblé ou da nossa Umbanda e Jurema, como coisas ruins e perversas: saibam que a religião dos negros não mata gente! Os Nagô e Bantu na África, que legaram a matriz da religiosidade negro-brasileira, sacrificam animais para os espíritos da natureza. Na África não se matava mais gente para as divindades do que entre os seus avós de olhos azuis lá na Europa, ou os nossos antepassados astecas aqui na América – mas trouxemos os negros como escravos, para morrerem de trabalhar, e ainda acusamos os seus remanescentes de possuírem uma cultura assassina: piedade!

Dito isso, vamos desmistificar também a tal Magia Negra (que não é a religião dos negros, pelo amor de Deus, mas de loiros!). Primeiro, esse Culto do Diabo não deve confundir-se com a Wicca ou qualquer outra forma de paganismo (em 2007 a imprensa do Recife misturou bruxaria e satanismo no estupro e assassinato de uma menina, veja aqui) . Os pagãos ou neopagãos praticam uma religião natural em que não participa a figura de Satã, que é bíblica. Depois, em verdade o Satanismo começou como uma crítica “contra-cultural” à doutrina, simbolismo e prática do cristianismo, cuja civilização ele acusa de corrupta e hipócrita – e por isso recorre ao símbolo negativo dos cristãos como seu ícone de sabedoria (“a Chama Negra”), buscando inspiração na divindade Set (arquétipo da rebeldia provocadora, que a bíblia associa ao mal, como Satã). Trata-se, assim, do avesso simbólico do “american way of life”. Há jovens rebeldes que utilizam elementos generalistas do Satanismo, através da imagética gótica ou da cultura musical do rock (como o simbolismo do crucifixo invertido), para manifestar a sua oposição à sociedade cristã ou mesmo justificar o seu comportamento antissocial (em 2008 um rapaz matou o colega por ciúmes e se aventou um pacto satânico, veja aqui).

Porém, o Satanismo contemporâneo tem mesmo a ver é com a Igreja de Satã, de Anton Szandor LaVey (falecido em 1997), que no dia 30 de abril de 1966, na Califórnia, declarou-se o “papa negro” e anunciou a Era de Satã. Em suas “cavernas”, realizava casamentos satânicos para celebridades e batizados satânicos de crianças. LaVey escreveu a Bíblia Satânica (1969) e Os Rituais Satânicos (1972). Critica o cristianismo por renegar os apetites “animais” da humanidade e estimula o “darwinismo social”, a subjugação dos fracos. Uma apostasia dessa Igreja, em 1975, por Michael Aquino, oficial do exército norte-americano, fundou o rival Templo de Set: insiste em que o intelecto interrogador dos humanos não resulta da simples evolução animal, mas é dádiva de Set à humanidade. O Templo de Set, numa via espiritual de estilo iniciático e gnóstico, procura exercitar esse dom, lançando ceticismo à sabedoria das religiões instituídas. Em seus “pilares” ou igrejas, atribui especial importância à magia ritual e cerimonial, pois, como explicado no livro de Aquino, Magia Negra em Teoria e Prática (1992), ela aumenta o poder subjetivo e potencia a nossa vontade sobre o universo.

Uma coisa é a gente não concordar com esse caminho de Magia Negra ou Culto ao Diabo, mas daí a “demonizar” seus seguidores e associar-lhes todos os crimes cometidos em recintos religiosos; daí, mais ainda, a vincular esses “crimes da Magia Negra” (sem lógica que justifique) aos terreiros afro-negro-brasileiros, é uma ruindade – ingênua ou maliciosa  – de “almas sebosas” não tão alvas quanto se imaginam. Então, professores, jornalistas, delegados (e assassinos também!), vamos ter um pouco mais de cuidado com a Magia Negra. Não cuidado no sentido do medo e da execração, mas do respeito e da consideração por uma tradição espiritual que compõe o patrimônio imaterial da humanidade. Religião, como toda experiência de conhecimento humano, tem sempre um lado sombrio na sua tentativa de nomificar o cosmos e organizar a vida – e sacrifícios, inclusive humanos, faziam e fazem parte do seu repertório. Mas a Magia Negra é algo mais sério e mesmo sublime do que imagina a vã criminologia popular. E se “ritual de magia negra” é uma referência atravessada aos nossos xangôs, então saibam que não é só um rito não, tem também mito e interdito: é uma religião completa, com a mesma dignidade – e limites – que as outras. Portanto, por obséquio, parem de usar “Magia Negra” para nomear a maldade e a safadeza do comezinho ritual humano de sacrificar o próximo! Pois isso se faz, prática ou simbolicamente, com obssessão “religiosa” até, em altares de todas as cores, denominações e repartições. Ou não é?!

Para saber mais:
A violência e o sagrado, de René Girard, Editora Paz e Terra, 2008.
Coisas ocultas desde a fundação do mundo, de René Girard, Editora Paz e Terra, 2009.
Enciclopédia das Novas Religiões, de Christopher Partridge, Editora Verbo, 2006.
O altar supremo: uma história do sacrifício humano, de Patrick Tierney, Editora Bertrand Brasil, 1993.

Veja também no blog:
Ritual do exorcismo: sobre o filme que está nos cinemas!
História da África: coleção da Unesco para você ler!
Diabos…: palestra (em francês) com o historiador Jean Delumeau!
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março 17th, 2011 Postado por : admin Arquivado em: Notícias

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