Mulheres empoderadas

Profª Drª Edilene Queiroz[i]

“Este pequeno escrito, não acadêmico, é fruto e reflexo das minhas preocupações com o que vai advir após a pandemia. Ele é o terceiro produzido no e pelo confinamento com relação ao cuidado com o outro.”

Mulheres empoderadas

Surpreendentemente os países governados por mulheres como a Alemanha (Angela Merkel), a Finlândia (Sanna Marin), a Noruega (Erna Solberg), a Dinamarca (Helle Torning-Schmidt), a Islândia (Katrín Jakobsdóttir), a Nova Zelândia (Jacinda Ardern) e o Taiwan (Tsai Ing-wen) foram os que melhores enfrentaram a crise da pandemia, pois tomaram a vida como o bem maior e agora estão retomando a economia com parcimônia e seriedade. O que isso quer dizer? Que as mulheres sabem melhor cuidar da vida? Talvez sim, pela experiência da maternidade. Mas basta passar pela maternidade para adquirir essa aptidão? Creio que não porque a pulsão materna vai do doar a vida pelo filho ao infanticídio. Então qual a substância que a constitui para tender ao cuidado do outro?

Clarissa Pinkola Estés[1], poetisa e psicanalista junguiana americana parece ensaiar uma resposta. Diz ela:

“Em todas as mulheres, sobretudo quanto entram na maturidade, instala-se uma força subterrânea e invisível que se manifesta por meio de comportamentos inesperados, arroubos de energia, intuições perspicazes, ímpetos apaixonados: um impulso arrebatador e inesgotável que as impele obstinadamente rumo à salvação, à reconstrução de toda e qualquer integridade despedaçada. Como uma grande árvore que, quando ameaçada pela doença, golpeada pela intempérie, agredida pela fúria do homem, se recusa a morrer e, milagrosamente e com enorme dose de paciência e persistência, continua a nutrir-se através das próprias raízes, restaura-se e renasce para manter o próprio espírito vital de forma a poder gerar novos frutos, aos quais confiará esta herança inestimável.” (Estés, A ciranda das mulheres sábias, 2007)[2]

Sei muito bem da verdade dessas palavras porque eu mesma acompanhei o renascer de uma árvore centenária que estava morrendo com as intempéries da vida e o golpe do homem que insistia em soterrá-la e intoxica-la. Bastou um pouco de cuidado para ela reflorescer e dar frutos que nutriram e nutrem ainda muitas vidas além de oferecer repouso à sombra para aqueles que de espírito aberto admiram sua pujança e apostam no amor aos seres vivos.  

Estés observa que “toda árvore possui por baixo da terra, uma versão primeva de si mesma” (p.20). Essa versão primeva de si mesma, também indicada por ela como a “alma oculta da árvore”, empurra a energia para cima. Comparar essa força pungente e vital à mulher me parece surpreendente como surpreendente foram as determinações dessas líderes em salvar a vida dos seus compatriotas. A mulher teria também uma alma oculta que empurra a energia para cima em busca da vida. E essa alma que empurra para a vida a autora indica como movimento em direção à cura e complementa: “a mulher quando ferida se torna cheia de cura” (p.40). Dessa bela força da vida, preservada pela mulher oculta, poderá brotar ideias novas e vibrantes em prol de uma vida melhor.

Assim também crê Vandana Shiva, indiana ecofeminista, ganhadora do prêmio Nobel alternativo, ao colocar as mulheres e a ecologia no centro do discurso sobre o desenvolvimento moderno. No entanto, quando aparecem propostas nesta direção, forças contrárias surgem de governantes temerosos de perder a mais valia do capital.

Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, Christine Lagarde, chefe do Banco Europeu e Angela Merkel, chanceler alemã pretendem apresentar um grande plano de recuperação da Europa com uma visão ecológica e estão encontrando resistências antes mesmo de se conhecer a proposta. A Avaaz[3] está mobilizando um grande grupo de políticos, cientistas, acadêmicos, líderes empresariais e da sociedade civil, influentes, para defenderem este plano ambicioso[4].

Apostemos na força oculta dessas mulheres para enfrentarem as resistências e construírem este projeto ousado, que sirva de exemplo para outras comunidades.

É tempo de empoderamento das mulheres.


NOTAS

[1] Ela recebeu o prêmio Joseph Campbell pela obra “Guardiã das tradições” e por ter sido, a vida inteira, ativista e escritora em busca de justiça social.

[2] Estés, C. P. A ciranda das mulheres sábias. Ser jovem enquanto velha, velha enquanto jovem. Rio de Janeiro: Rocco, 2007

[3] Avaaz Avaaz, que significa “voz” em várias línguas europeias, do oriente médio e asiáticas, é uma comunidade de mobilização online, foi lançada em 2007 com a missão democrática de mobilizar pessoas de todos os países para construir uma ponte entre o mundo em que vivemos e o mundo que a maioria das pessoas querem.

[4] https://www.europarl.europa.eu/news/pt/headlines/society/20200429STO78172/covid-19-plano-de-recuperacao-da-ue-deve-incluir-combate-a-crise-climatica


[i] Edilene Queiroz, é psicóloga, psicanalista, mestre em Antropologia Cultural pela UFPE, doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP e Professora titular da UNICAP. Desenvolve pesquisas na área de Psicologia Clínica e Psicanálise, com ênfase em tratamento e prevenção psicológica, investigando sobre psicopatologias (perversão e psicopatologias do corpo) e sobre o tema da adoção e filiação. Tem vários livros e capítulos de livros publicados, além de artigos em revistas científicas.

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julho 15th, 2020 Postado por : vieira Arquivado em: Notícias

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