Racismo Estrutural: a naturalização da violência

Valdênia Brito Monteiro[1]

Final do mês de maio para início de junho, fomos surpreendidos com uma série  de notícias na mídia[2] sobre violência, fruto do racismo estrutural. O primeiro, que abalou o mundo em plena pandemia, foi o caso de George Floyd, negro americano, assassinado pela polícia de Minneapólis durante uma abordagem. O jovem de 47 anos não ofereceu reação e foi durante 8 minutos asfixiado com o joelho do policial no seu pescoço.

No Brasil, João Pedro, jovem negro de 14 anos, foi assassinado dentro de casa durante uma operação policial, no Rio de Janeiro. O adolescente tinha um sonho: terminar seus estudos e fazer o curso de direito. Tomou um tiro de fuzil calibre 5,56 pelas costas, perfurando o seu corpo. A casa onde João Pedro estava com outros cinco jovens foi alvo de mais de 70 disparos.

O caso mais recente, no dia 2 de junho, no Recife, foi o de Miguel Otávio, de 5 anos, que caiu do 9° anda de um prédio de luxo. A empregada doméstica, negra, que trabalhava em plena pandemia, teve que levar seu filho para o trabalho, porque não tinha com quem deixá-lo em casa. A patroa precisava da “serviçal” para passear com o cachorro. Mas a mãe de Miguel não teve o privilégio de ficar em casa como qualquer outra pessoa.   A patroa   deixou a criança no elevador do prédio, com mais de 30 andares, sem nenhuma preocupação e cuidado. Todos esses fatos nos remetem a uma discussão que não foi superada entre nós:  o racismo estrutural. Como diz a canção do Elza Soares, “a carne mais barata do mercado é a carne negra. Que vai de graça pro presídio e para debaixo do plástico. Que vai de graça pro subemprego e pros hospitais psiquiátricos”.

O racismo estrutural abrange vários mecanismos, desde o individual e interpessoal com seus desdobramentos, incluindo a discriminação e o preconceito, bem como o institucional ou sistêmico que tem a ver com a estrutura da sociedade e como se   naturaliza a subalternidade, a exclusão e a diáspora de forma seletiva de grupos racialmente subordinados.

A Organização Não Governamental-ONG Geledés (2016),  diz que o “racismo estrutural é a naturalização daquilo que não é “natural”, mas algo construído histórica e socialmente.  Nesses termos, branquitude é, politicamente, algo “natural” e universal.  Tudo aquilo que nega ou entra em choque com os padrões estabelecidos pela branquitude torna-se “anormal”, “exótico” ou “perigoso”, “nocivo”, devendo, portanto, ser destruído”.

O racismo estrutural remete à  colonialidade do poder, conceito  criado  por Quijano (2005),  que expressa que mesmo com o fim do colonialismo  (dominação das metrópoles europeias sobre suas colônias), se mantem  pensamentos de dominação, exploração, subalternização, legitimando posições  assimétricas, afetando áreas básicas  como o saber, trabalho, gênero, raça, subjetividade, recursos naturais…

A colonialidade se sustenta, principalmente pela dominação destrutiva que se nutre pela violência, pobreza, medo, entre outras. Pensar uma mudança que desconstrua o racismo estrutural é uma longa luta de resistência e de insurgência, buscando dar voz aos silenciados, rompendo com a estrutura dominante eurocêntrica e descolonizando a vida dos considerados historicamente sofridos por sua raça, etnia, gênero e condição social.

Santos (2007, p.28) afirma que “a modernidade ocidental, em vez de significar o abandono do estado de natureza e a passagem à sociedade civil, significa a coexistência da sociedade civil com o estado de natureza separados por uma linha abissal[…]”. Mundos que separam os desejados e os indesejados. Para Santos (2009a), o pensamento abissal continuará a auto reproduzir, a menos que se defronte com uma resistência ativa, que requer um pensamento pós-abissal.

Neste período de pandemia, diante de uma conjuntura em que a humanidade sofre de desesperança –miséria, corrupção, degradação do meio ambiente, discriminação, intolerância religiosa– a luta pelos direitos humanos deve ser, mais do que nunca, de resistência emancipatória, na certeza de que é fundamental empoderar as pessoas para romper com a opressão.

Quanto à indignação ética de todos/todas que lutam por direitos humanos devem ter, é expressada aqui pelo grande ativista  uruguaio Eduardo Galeano, autor  do livro As veias Abertas da América latina, que antes de morrer expressou: ”Se há outro mundo possível, esse outro mundo possível está dentro da barriga deste (mundo) e temos que ajudá-lo a nascer. Esse parto não vai ser fácil, e para isso a energia da indignação é fundamental”! (FRANCO, 2020, online)

Referências:

FRANCO, João José de Melo. Galeano: líder dos indignados. Carta Maior, 2020. Disponível em< https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Memoria/Galeano-lider-dos-indignados-apresentacao/51/47154> Acesso em: 7 de jun.2020.

Quijano, A.  Colonialidad del poder y clasificación social, Clacso. 2000. Disponível em< http://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/se/20140506032333/eje1-7.pdf> Acesso em:07.jun.2020.

SANTOS, Boaventura de Sousa.  Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia de saberes. Novos estud. CEBRAP, v.7, 2007.

Sobre racismo e suas múltiplas manifestações. Portal Geledés. Disponível em <https://www.geledes.org.br/em-pauta> Acesso em: 07.jun.2020.


[1] Doutoranda pela Universidade Católica de Pernambuco-UNICAP, Mestra em Direito Público pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, Professora  e coordenadora do Curso de Especialização em Direitos Humanos (Unicap) e colaboradora do Humanitas/Unicap.

[2] Os dados pesquisados foram do G1 Globo, BBC Brasil e Wikipédia.

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junho 08th, 2020 Postado por : Jose Maria Arquivado em: Notícias

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