Dia da Caatinga: artista plástico faz fotos, pinturas e esculturas para conservar o bioma

Miguel de Paula é pintor, muralista, escultor, ilustrador e fotógrafo e usa a arte como ferramenta de transformação.

Por Gabriela Brumatti, Terra da Gente
28/04/2020 10h53  Atualizado há 22 horas


Fotografia de beija-flor sobre o cacto mostra ao artista a identidade da caatinga, a resistência da ave como a do próprio sertanejo — Foto: Miguel de Paula/Acervo Pessoal

Fotografia de beija-flor sobre o cacto mostra ao artista a identidade da caatinga, a resistência da ave como a do próprio sertanejo — Foto: Miguel de Paula/Acervo Pessoal

No calor do semiárido, na secura de um bioma, uma explosão de natureza emerge e colore a vida do povo sertanejo. O Dia da Caatinga é comemorado em 28 de abril e é uma data que abre espaço para a reflexão e para a arte sobre a natureza e memória desse ambiente de resistência.

Desde o início da história de interação da população com esse bioma, índios e até botânicos atribuíram as características ao local. O próprio termo Caatinga resulta da combinação dos elementos do tupi “ca’a” (floresta), “tî” (branco) e o sufixo “ngá” (que lembra). A “floresta branca” faz referência à estação seca, quando a maior parte das plantas perde as folhas, prevalecendo na paisagem a aparência clara e esbranquiçada dos troncos das árvores.

Caatinga é apontada como berço de pobreza e atraso social, mesmo sendo recheada de riquezas naturais — Foto: Miguel de Paula/Acervo Pessoal

Caatinga é apontada como berço de pobreza e atraso social, mesmo sendo recheada de riquezas naturais — Foto: Miguel de Paula/Acervo Pessoal

Mas é o cair das chuvas dos primeiros meses do ano que traz uma das mudanças mais repentinas de paisagens já conhecidas pela natureza. É por conhecer essa diversidade revelada que o fenômeno serve de inspiração para o trabalho do artista plástico Miguel de Paula, 46. Seja com pincéis, lápis, madeiras ou até usando câmeras fotográficas, o profissional incentiva a conservação da natureza do sertão onde vive, desde que era uma criança.

Eu entendi que, como na natureza, para que a gente possa ter harmonia deve haver uma distribuição bem ordenada. Se eu não estiver em harmonia comigo, eu não vou conseguir produzir nada, pois só posso colocar pra fora o que eu tenho dentro. Então tento me conectar o máximo com o meio onde estou –
Miguel de Paula (artista plástico)

Fotografia também é uma ferramenta artística usada pelo profissional da Caatinga para conscientizar — Foto: Miguel de Paula/Acervo Pessoal

Fotografia também é uma ferramenta artística usada pelo profissional da Caatinga para conscientizar — Foto: Miguel de Paula/Acervo Pessoal

A arte entrou em sua vida como uma forma de ocupação e geração de renda na infância em Crateús (CE), porém conservava um propósito: “Comecei a fazer artesanatos, mas sempre aproveitando madeiras secas. Não pensava em mudar a mente das pessoas, mas quando recebia o trocado me inspirava a fazer com mais teor, mais esperança, mais energia”, explica Miguel.

Apesar de não ter formação, com o tempo, o artista plástico foi aperfeiçoando as técnicas de diversas obras e conquistando reconhecimento pela prática. O alcance abriu espaço para novas reflexões: “eu acredito que a arte é uma ferramenta que vai além do material físico, vai na mente de uma forma subliminar e inconsciente”.

Escultura de tatu-bola feita na época da Copa do Mundo pretendia mostrar que cada um é uma engrenagem na preservação  — Foto: Miguel de Paula/Acesso Pessoal

Escultura de tatu-bola feita na época da Copa do Mundo pretendia mostrar que cada um é uma engrenagem na preservação — Foto: Miguel de Paula/Acesso Pessoal

E foi buscando transmitir mensagens através das obras que Miguel fez trabalhos como “Gaia”. A escultura de uma gestante feita em um tronco de um cajueiro carrega muito mais significados em suas raízes. “Um senhor estava cortando uma árvore de cajueiro em Jericoacoara para fazer uma casa no lugar e eu estava passando bem na hora. A árvore que nos alimenta estava sendo mutilada pela ignorância do homem e ele estava sacrificando o ecossistema. Essa criança representa cada um dia de nós morrendo com a mãe terra”, explica o artista.

Escultura "Gaia" deu vida a um tronco de madeira de um cajueiro que havia sido derrubado — Foto: Miguel de Paula/Acervo Pessoal

Escultura “Gaia” deu vida a um tronco de madeira de um cajueiro que havia sido derrubado — Foto: Miguel de Paula/Acervo Pessoal

Se não bastasse a genialidade da escultura, o meio ambiente ainda não tinha terminado seu recado através da obra. Cupins começaram a entrar na madeira e fizeram “veias” no tronco e na mulher representada. Em um banho de água salgada no mar para afastar os insetos, “Gaia” foi levada pelas águas e encontrada no Piauí por pescadores que acreditaram ser uma oferenda e divindade. “A escultura teve ajuda da natureza para ficar mais bonita ainda”, vibra o artista.

Há quem não veja diversidade e beleza na Caatinga, mas para obras tão sensíveis e coloridas o profissional dedica tempos de estudo sobre os assuntos e busca por detalhes sobre os animais e o ambiente. “A Caatinga não é um lugar de pessoas passando fome ou da caveira da cabeça da vaca, é um bioma rico e com papel fundamental dentro do ecossistema. A gente precisa desmistificar”, conclui.

Confira alguns detalhes sobre o bioma da Caatinga, homenageado no dia 28 de abril — Foto: Arte/TG

Confira alguns detalhes sobre o bioma da Caatinga, homenageado no dia 28 de abril — Foto: Arte/TG

Veja mais obras:

A foto inicial da reportagem foi flagrada após uma observação intensa do ninho de beija-flor feito em um cacto — Foto: Miguel de Paula/Acervo Pessoal

A foto inicial da reportagem foi flagrada após uma observação intensa do ninho de beija-flor feito em um cacto — Foto: Miguel de Paula/Acervo Pessoal
Diversidade dos animais da Caatinga é representada em murais pelo artista plástico — Foto: Miguel de Paula/Acervo Pessoal

Diversidade dos animais da Caatinga é representada em murais pelo artista plástico — Foto: Miguel de Paula/Acervo Pessoal
Para ilustrar a biologia dos animais o artista estuda estruturas, cores e hábitos das espécies — Foto: Miguel de Paula/Acervo Pessoal

Para ilustrar a biologia dos animais o artista estuda estruturas, cores e hábitos das espécies — Foto: Miguel de Paula/Acervo Pessoal
Pinturas em muros de cidades do Nordeste focam na conservação da Caatinga — Foto: Miguel de Paula/Acervo Pessoal

Pinturas em muros de cidades do Nordeste focam na conservação da Caatinga — Foto: Miguel de Paula/Acervo Pessoal
Diversos materiais são utilizados pelo artista para retratar a natureza do sertão e da Caatinga — Foto: Miguel de Paula/Acervo Pessoal

Diversos materiais são utilizados pelo artista para retratar a natureza do sertão e da Caatinga — Foto: Miguel de Paula/Acervo Pessoal
Bando de anus-branco traduziu uma parte da natureza da Caatinga para o artista plástico — Foto: Miguel de Paula/Acervo Pessoal

Bando de anus-branco traduziu uma parte da natureza da Caatinga para o artista plástico — Foto: Miguel de Paula/Acervo Pessoal
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abril 29th, 2020 Postado por : Jose Maria Arquivado em: Notícias

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