A ONU e a OMHU na construção de uma nova política

Marcelo Barros*

No dia 24 de outubro, a ONU celebra mais um aniversário de sua fundação, ao publicar a Carta das Nações Unidas, em 1945. Embora frágil e com muitos desafios a superar, esse organismo internacional tem sido útil a conduzir a humanidade nos caminhos do diálogo e da paz. A ONU cumpre uma importante missão. Deve zelar para que a sociedade internacional seja impregnada de valores como o respeito à dignidade de todos os humanos, a supremacia da justiça, a consciência ecológica e a abertura à transcendência. No entanto, é organismo de governos. Seus membros são Estados nacionais e governantes. Já há mais de uma década, através da FAO, a ONU reconheceu que a Venezuela superou o analfabetismo e em todo o país estava superada a fome e a desnutrição. No entanto, o império norte-americano armou um bloqueio internacional. Isolou o país que não pode receber de fora nem medicamentos. Além disso, incentivou os comerciantes a boicotarem os gêneros alimentícios. Por isso, a população sofre a ausência de bens necessários para o consumo.

Cada vez mais fica claro que a hegemonia e o controle exercidos pela economia sobre a política, no decorrer dos últimos 30 anos, foi uma catástrofe para o mundo. É preciso unir todas as pessoas de boa vontade e grupos da sociedade civil para “democratizar a democracia”. Isso significa elaborar novo estilo modelo de Política, efetivamente, centrado no bem comum. Dom Oscar Romero, o santo arcebispo de El Salvador, martirizado em 1980, propunha o retorno ao que ele chamava  de “grande política”.

O Banco Mundial afirma que 20% da população mundial, pouco menos de um bilhão de pessoas, consomem sozinhos 83% dos recursos disponíveis na terra. Metade da humanidade, mais de três bilhões de pessoas, devem viver com US$ 2 por dia. A Unicef adverte que mais de 1 bilhão de crianças vive abaixo da pobreza. Por causa disso, a cada ano morrem de fome de 40 a 60 milhões de pessoas. Conforme cálculos do Banco Mundial, com US$ 40 bilhões, se poderia resolver o problema da fome e da saúde dos pobres do mundo. Ora somente, em um ano, um país como os Estados Unidos gastam mais de um bilhão de dólares em armas para as guerras que mantêm no mundo. Ao mesmo tempo, a sociedade dominante que provoca as guerras contra os povos pobres, fecha suas fronteiras aos migrantes que tentam sobreviver ao extermínio. Decreta que o destino deles deve ser a morte em seus países ou o fundo do mar nas portas das ilhas de luxo do primeiro mundo. 

Por isso, grande parte da humanidade sonha com um organismo mundial que abranja não somente governos, mas também uma representação legítima da sociedade civil internacional. Só uma organização internacional que, além de Estados, reúna também representantes das organizações civis terá força para exigir do governo das grandes potências respeito pelas leis e decisões internacionais. Só um organismo assim poderá intervir para que o governo de Israel pare de massacrar o povo palestino e proíba os países ricos de estabelecer leis agrícolas protecionistas que destroem a economia dos países africanos.

A humanidade não pode mais aceitar a fome e a miséria como condições normais no mundo. Não basta garantir o cumprimento das leis. É preciso e urgente estimular uma nova cultura que não permita mais a insensibilidade vigente com o que se passa com milhões de seres humanos. O papa Francisco pede que superemos “a cultura da indiferença”.

É preciso que a ONU, as organizações internacionais e cada grupo humano tenha um coração que opte pela vida e nos faça amar. A humanidade está descobrindo a espiritualidade social e política da paz e da justiça. Organismos internacionais da sociedade civil estão propondo a criação de uma OMHU, Organização Mundial da Humanidade. Não se trata de substituir a ONU e sim de assessorá-la e ajudá-la em sua missão pela paz e pela justiça eco-social. Para isso, no mundo inteiro, as pessoas e grupos estão se organizando em Ágora dos/das Habitantes da Terra. Essa organização se propõe falar em nome da humanidade e defender a vida ameaçada no planeta. Esse tipo de projeto não é apenas importante no plano social e político. É objetivo da fé e da espiritualidade. O Evangelho diz que Jesus deu a sua vida para reunir na unidade todos os filhos e filhas de Deus dispersos pelo mundo (Jo 11, 52).

[*] Marcelo Barros, monge beneditino, teólogo e biblista, é membro da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT) e assessora comunidades eclesiais de base e movimentos sociais. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-descendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação. E-mail: contato@marcelobarros.com Site: www.marcelobarros.com

Partilhar
outubro 24th, 2019 Postado por : vieira Arquivado em: Marcelo Barros

Seja o primeiro a comentar Deixe uma resposta:

Seu e-mail não será publicado.Campos obrigatórios*

X