Felicidade: fome e sede de plenitude

Muitas são as pistas sobre o lugar onde se encontra a chave da felicidade e, claro, o seu provável modelo. Alguns o situam na arte desenfreada, outros, numa religião obsessiva. Muitos, num consumo desordenado. Vários, na política indolente, tantos outros no sucesso a todo custo. Mas poucos na militância comprometida. Inúmeros, no trabalho estressante e raros no serviço desinteressado.

O que seria esse almejado horizonte a que uma chave desconhecida e distante poderia proporcionar o acesso? Revelando-se em nossa existência sempre como uma ocorrência episódica, somos remetidos ao terreno ocupado por uma sabedoria misteriosa contida na frase do escritor francês Barbey D’Aurevilly: o prazer é a felicidade dos loucos, a felicidade é o prazer dos sábios.

Ou, como diz Santo Agostinho: “Ninguém é sábio, se não for feliz”. A sabedoria é a graça de saborear o universo, ela tem a ver com felicidade. Somente a sabedoria é capaz de nos dar razões para viver.  “Lamente por aquele que julga haver achado a felicidade; inveje aquele que a procura e a abandonará tão logo a encontrar. A única felicidade consiste em esperar a felicidade” (Saadi, escritor muçulmano).

A felicidade não se encontra no final

Dito por Guimarães Rosa: “a coisa não está nem na partida nem na chegada, está é na travessia”. Nesse sentido, felicidade pode ser entendida como um estado de espírito, não uma situação material ou uma carreira brilhante. Pode ainda despontar como um sentimento passageiro ou um devaneio rápido. Felicidade é viver sem chegada, sem partida, é experimentar uma sensação de renascimento de satisfação interior.

O escritor Gilberto Amado, no livro “A chave de Salomão”, afirma que “felicidade é sinônimo de tranquilidade; ser feliz é ser tranquilo”. Felicidade como estado de serenidade, como a capacidade de atravessar as perturbações cotidianas sem cair no desespero. Felicidade como possibilidade de acalmar a consciência e repousar a mente muitas vezes atormentada. Felicidade como vivência mansa, mas distante do imobilismo e da acomodação.

A verdadeira felicidade coincide com a paz interior, é o prazer de descobrir a cada dia que a vida se inicia novamente a cada amanhecer. É fazer da mesma vida uma grande aventura. O significado de felicidade: sensação primordial ou meta inalcançável? Conquista paulatina ou ingenuidade pueril? Liberdade de busca ou armadilha romântica? Se o soubéssemos, seríamos mais felizes?” (Mário Cortella).

Sentir despertar em si um potencial de bondade

Inquieto está o nosso coração até que encontre a felicidade. Segundo São Tomás, “a felicidade é o fim último do ser humano, infinito no seu objeto e na sua causa”. A busca da felicidade exige que seja uma ação última do ser humano: para além da felicidade, nada. Porque, para além de Deus, fonte última, nada.

“Feliz quem acorda cedo para procurar a Sabedoria, pois a encontrará, sentada, à sua porta. Feliz quem se consagra à gratuidade inútil, pois irá gozar férias com o Senhor. Feliz quem acha tempo para simplesmente existir, porque se encontrará com o Autor do Sétimo Dia. Feliz quem mergulha nas raízes do seu ser, porque sentirá dentro de si brotar a Fonte. Feliz quem se reconhece mendigo do Absoluto, porque apetite será o nome de seu grito. Feliz quem descobre seu rosto interior, porque saltará de alegria. Feliz quem esquece até os próprios pecados, pois conhecerá o repouso do Amor. Feliz quem olha o outro como Deus o vê, porque se tornará aquilo que contempla”. (Jacques Gauthier)

Texto Bíblico  Gn 29,1-30 / Is 35,1-10 / Is 40,27-31

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outubro 08th, 2019 Postado por : Jose Maria Arquivado em: Reflexões inacianas
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