Brasil, resistência ou morte!

Carlos Alberto Pinheiro Vieira[1]

“Só um novo tipo de homens capazes de ousar pensar, ousar refletir e de ousar passar à ação poderá realizar uma verdadeira economia baseada no desenvolvimento humano e equilibrado”.
(Josué de Castro)

No próximo dia 7 de setembro, comemora-se, em nosso país, o dia em que o Brasil se tornou independente, num processo que culminou com a sua emancipação política, com relação ao Reino Unido de Portugal, no início do Século XIX. Oficialmente, a data comemorada é do ano de 1822, em que D. Pedro bradou, perante a sua comitiva: “Independência ou Morte!“, às margens do Rio Ipiranga (alguns historiadores contestam essa versão em nossos dias).

Em nossa cidade (Recife), muitas famílias vão à Avenida Mascarenhas de Morais levar seus filhos e filhas, num ato de cidadania e reverência ao seu País e, logicamente, prestigiar aqueles que promovem o exercício da referida cidadania, num belo desfile, em que marcam presença nomes ilustres da nossa sociedade. É, realmente, um evento para poucos, levando em consideração que a grande maioria da população sequer sabe o que significa a palavra cidadania.

Etimologicamente, o conceito de cidadania origina-se do latim, civitas, que significa “cidade”. Portanto a cidadania é o conjunto de direitos e deveres ao qual um indivíduo está sujeito em relação à sociedade em que vive. O conceito teve origem na Grécia clássica, sendo usado, então, para designar os direitos relativos ao cidadão, ou seja, o indivíduo que vivia na cidade e, ali, participava, ativamente, dos negócios e das decisões políticas.

Desde o dia em que D. Pedro bradou as margens do rio Ipiranga “Independência ou Morte!“, o que restou ao nosso povo foram alguns resquícios de morte. Como é possível pensarmos numa nação independente em que, ainda, ecoam os brados dos nossos excluídos socialmente? Como pensar em cidadania, se a grande maioria da nossa população são de excluídos?

Em outro canto da cidade do Recife, os movimentos sociais e pastorais sociais promoverão manifestações em todo o país, na 25ª edição do Grito dos Excluídos, com o lema “Esse sistema não vale: lutamos por justiça, direitos e liberdade”. A proposta dessa edição é denunciar, particularmente, os desmontes econômicos, sociais, os crimes ambientais e exigir a preservação da vida em primeiro lugar, atendendo ao apelo do Papa Francisco, ao conclamar a todos a um estilo de vida simples e livre da dominação (Evangelii Gaudium, 49-51).

Sua origem remonta à Segunda Semana Social Brasileira, promovida pela Pastoral Social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB –, realizada entre 1993 e 1994. O primeiro Grito ocorreu em 1995, quando estava à frente da Pastoral Social o bispo Dom Luiz Demétrio Valentini. Embora a iniciativa esteja, diretamente, ligada à CNBB, desde o início, outros organismos participam do movimento: as igrejas vinculadas ao Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, movimentos sociais, organizações e entidades envolvidas com a Justiça Social. As manifestações são variadas: celebrações, atos públicos, romarias, caminhadas, seminários e debates, teatro, música, dança, feiras de Economia Solidária, além de outras.

Como um estudioso das Ciências da Religião, mais especificamente do Cristianismo, inquieta-nos a posição atual de algumas Igrejas cristãs ao calarem-se ou omitirem-se diante das diversas desigualdades apontadas acima. Quando nos referimos à Igreja, não estamos delimitando o nosso questionamento apenas a um determinado grupo ou instituição, ciente de que existem grupos, ainda que pequenos, em algumas Igrejas, que se posicionam incisivamente contra as injustiças sociais do nosso País.

Vivemos atualmente uma onda de extremismo e de discursos de ódio em nossa sociedade, discursos muitas vezes elaborados por quem deveria praticar e promover a paz. A religião tem um papel fundamental e importante na promoção de uma cultura de paz, de diálogo e de convivência pacífica, dando voz a todos os excluídos e marginalizados da nossa sociedade.

O grande desafio da Igreja Cristã, atualmente, é esvaziar-se do seu discurso dogmático e abrir-se para uma nova concepção de Igreja, cujo Deus kenótico esvazia-se da sua concepção Divina para amar e acolher a dor do seu povo.

O cristianismo contemporâneo precisa renascer como uma espiritualidade humanizadora e hospitaleira, e em constante diálogo com a sociedade. A religião renasce quando todos os que estão a margem (excluídos) em nossa sociedade (gays, lésbicas, negros, mulheres, índios etc.) ganham voz (hospitalidade) e são acolhidos.

O cristianismo contemporâneo, no que se refere à problemática da justiça social, deveria, pois, promover e praticar o amor, a caridade e a hospitalidade como fundamento ordenador para a construção de uma pátria livre, mais humana, mais acolhedora, mais respeitosa com as diferenças e no combate às desigualdades sociais em nossa sociedade e no mundo.


[1] Mestre em Ciências da Religião (2011) e licenciado em Filosofia (2008) pela Universidade Católica de Pernambuco. Pesquisador vinculado ao Grupo de Pesquisa (CNPQ), “Religião Cristã, Fundamentos e Desafios Contemporâneos”. Membro do Núcleo de Estudo e Pesquisa sobre as Juventudes – NEPEJ e colaborador do Instituto Humanitas Unicap. E-mail: carlos.vieira@unicap.br

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setembro 06th, 2019 Postado por : vieira Arquivado em: Notícias

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