50 anos do assassinato do padre Henrique

Com informações do Diário de Pernambuco

Dom Helder Camara no enterro do padre Antônio Henrique

Marcelo Santa Cruz
Advogado, militante dos Direitos Humanos e membro da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Olinda e Recife.

Antônio Henrique Pereira da Silva Neto, conhecido como Padre Henrique, nasceu no Recife, no dia 28 de outubro de 1940. Foi o primogênito de uma prole numerosa de 12 filhos, constituída pelo casal José Henrique Pereira da Silva Neto e Isaíras Pereira da Silva, falecidos, respectivamente, em 1972 e 2003. Ele, um dos administradores do Aeroporto dos Guararapes. Ela, mãe e dona de casa que posteriormente cursaria Direito, movida pelo sentimento de justiça, buscando esclarecer o assassinato de seu amado filho e identificar os responsáveis pelo terrível crime.

Menino estudioso, Henrique fez o curso primário no Grupo Escolar Martins Junior, no bairro da Torre, e o primeiro grau no Ginásio da Madalena, obtendo excelente desempenho. Cursou o “científico” – correspondente, hoje, ao ensino médio – no Colégio Salesiano, no período noturno, pois pretendia tornar-se engenheiro, e trabalhava como office boy em um banco, durante o dia. Antes de completar 16 anos, contudo, resolveu ingressar no Seminário Menor, no bairro da Várzea, surpreendendo a família com a sua determinação em tornar-se padre. 

Dona Isaíras, muito católica, concordou e apoiou a decisão, ao contrário do pai, que queria ver o filho formado em engenharia. E o avô paterno, Antônio Henrique, de quem o mesmo ganhou o seu nome, fez o seguinte comentário: “Padre é um homem que estuda muitos anos, para depois pedir esmolas para viver”. No livro Padre Henrique – Dissimulações do Regime Militar de 64, as organizadoras Isaíras Pereira Padovan, Terezinha de Jesus Pereira da Silva, Maria Concepta Pereira da Silva Santos e Maria José de Matos Luna contam que o garoto achou graça na tirada do avô, mas permaneceu firme na sua resolução. 

Face ao seu excelente desempenho no seminário, Henrique foi contemplado com uma bolsa de estudos de um ano nos Estados Unidos, em 1961. Depois de passar nove anos como seminarista, foi ordenado padre na Igreja da Torre, em cerimônia oficializada pelo Arcebispo de Olinda e Recife, Dom Helder Camara, no dia 25/12/1965, aos 25 anos de idade. Já no dia seguinte, celebrou sua primeira missa, na Igreja do Rosário dos Pretos. Muito perspicaz, dom Helder logo percebeu o potencial daquele jovem padre e o convidou para assessorá-lo, atribuindo-lhe a responsabilidade pela Pastoral da Juventude. 

A escolha não poderia ser mais acertada. Rapidamente, Henrique tornou-se muito popular entre a garotada recifense, falando a sua mesma língua, sabendo dialogar e sendo respeitado por ela. Mais que isso, tornou-se, de fato, amado pela garotada. E não cobrava pelos serviços de apoio e orientação que oferecia como sacerdote, costumando dizer que “ninguém é tão rico que possa pagar pela palavra de Deus: ela não tem preço”. 

Membro da Igreja progressista, Henrique, nessa época, se colocava contra os métodos praticados pelo regime militar, implantado em 1º de abril de 1964. Foi ele quem celebrou, no Recife, uma missa em memória do estudante Edson Luiz de Lima Souto, secundarista assassinado por policiais no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro, em 28/03/1968. E, devido ao seu trabalho junto a dom Helder, que corajosamente denunciava a repressão e defendia a justiça social, passou a ser visado por uma organização de extrema direita denominada Comando de Caça aos Comunistas (CCC). 

A repressão era particularmente dura contra os estudantes, que eram, então, a maior força de oposição ao regime. Em 29/04/1969, por exemplo, o presidente da União dos Estudantes de Pernambuco (UEP), Cândido Pinto de Melo, aluno de engenharia da UFPE, de 22 anos, sofreu um atentado à bala que o deixou paraplégico, na Ponte da Torre. E só não acabou sendo sequestrado e assassinado, naquela ocasião, porque, ao ser transportado para o Pronto Socorro, que ficava na Praça Oswaldo Cruz, foi identificado pelos médicos residentes, os quais, corajosamente, mobilizaram-se em defesa de sua vida, enfrentando os agentes da repressão que o perseguiam. 

Nessa época, estava em vigência o AI-5 (Ato Institucional No5), decretado em 13/12/1968. E também o seu filho legítimo, o Decreto Lei Nº 477/1969, que punia professores e alunos com a pena de expulsão dos estabelecimentos de ensino, sob a acusação de “subversão”. Mesmo assim, em protesto contra aquele ato terrorista praticado pela repressão política, foi decretada uma greve dos estudantes, apoiada por dom Helder Camara e, naturalmente, pelo Coordenador da Pastoral da Juventude, o Padre Henrique.

Pois foi ele a vítima seguinte. Na noite de 26/05/1969, após uma reunião com pais e alunos na residência de uma família, Henrique foi visto pela última vez, sendo sequestrado no Largo do Parnamirim. Ele foi levado em uma camionete Rural Willys verde e branca, que pertencia à Secretaria de Segurança Pública, segundo o que seria constatado, mais adiante, pela Comissão da Verdade. Na manhã do dia seguinte, encontraram-no morto, com violentas marcas de tortura, em um terreno baldio da Cidade Universitária. 

Embora os meios de comunicação de Pernambuco, sob censura, fossem rigorosamente proibidos de tocar no assunto, a notícia do assassinato de Henrique se espalhou rapidamente, de boca em boca. No dia do seu enterro, uma multidão de jovens estava presente na Matriz do Espinheiro e fez questão de carregar o caixão nas mãos, num longo percurso até o cemitério da Várzea. Quem lá esteve, jamais esquecerá esse dia. E a figura do Padre Henrique – mulato, pequenino, gentil, extremamente inteligente, idolatrado pelos jovens – também é lembrada com muito carinho e muita revolta por toda uma geração de pernambucanos/as.

Pelo Direito à Memória. Ditadura Nunca Mais!

Veja as atividades que marcam os 50 anos do assassinato do Padre Henrique:

Hoje às 19h, na Unicap – Mesa redonda com participação do Pe. Hernanne Pinheiro (assessor da CNBB/Brasilia), Henrique Mariano (relator do caso Pe. Henrique na Comissão da Verdade) e Roberto Franca (ex-Secretário de Justiça de PE, amigo do Pe. Henrique). 

Dia 26/05 – Celebração Eucarística às 9h, na Catedral da Sé, com dom Fernando Saburido.

Dia 27/05, às 18h, na Igreja das Fronteiras – Vigília em memória dos 50 anos do martírio de Padre Henrique. Apresentação da peça O Profeta, Bispo do Povo com os atoresJúnior Aguiar e Daniel Barros.

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maio 24th, 2019 Postado por : vieira Arquivado em: Notícias

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