Semana Santa e Políticas Públicas

Marcelo Barros *

Em todo o Brasil, nesse final de semana, aeroportos e rodoviárias se enchem de gente. Muitas pessoas aproveitam o feriado para passear, visitar parentes ou simplesmente para descansar. Em alguns lugares, grupos encenam a paixão de Jesus.  Em muitas Igrejas, as comunidades celebram o fato mais importante da fé: a festa da Páscoa, memória da paixão e morte de Jesus, celebradas como vitória e vida nova que o Pai lhe deu.

A Páscoa é uma festa judaica que os cristãos assumiram. Até hoje, nas sinagogas de todo o mundo, cada ano, as comunidades judaicas comemoram a Páscoa para recordar a libertação do Êxodo. Os símbolos da festa expressam: toda pessoa humana tem a vocação da liberdade. Precisa caminhar para um mundo novo e mais feliz. Para os/as cristãos/ãs, durante uma Páscoa, em Jerusalém, Jesus foi morto e Deus lhe deu uma vida nova. Essa vida nova, ele reparte com todas as pessoas que aceitem segui-lo, na missão de testemunhar ao mundo o projeto divino de paz e justiça.

Em alguns lugares da América Latina, na sexta-feira santa, as procissões do Senhor morto reúnem multidões.  Mesmo pessoas que, comumente, não frequentam Igreja, acorrem à adoração do Senhor morto. Talvez porque, mesmo inconscientemente, se sintam representadas na imagem do Crucificado.

No mundo antigo, a crucifixão era o castigo imposto a escravos rebeldes e a pessoas que se levantavam contra a dominação do império. Jesus foi acusado de percorrer a Galileia levantando o povo contra o domínio de César (Cf. Lucas 23, 1). Por isso, foi condenado à morte na cruz pelo governador romano Pôncio Pilatos,

Atualmente, a cruz continua existindo. No tempo da ditadura militar brasileira, tornou-se famosa como instrumento de tortura de presos políticos. Até hoje, o “pau de arara” resiste em não poucas delegacias que atendem pobres. No entanto, mais do que uma madeira na qual os indefesos são pendurados, a cruz se tornou realidade de imensa maioria da humanidade, roubada dos seus direitos de viver dignamente. No mundo atual, mais de um bilhão de pessoas não tem segurança alimentar. Milhões não têm acesso à agua potável e passam fome. Multidões são obrigados a deixar sua terra para não morrer em meio à fome, à guerra, enquanto os que ficam sobrevivem em condições de uma pobreza injusta, apenas para garantir o lucro e o conforto de uma minoria ínfima de privilegiados. Em todos os continentes, as Igrejas celebram a paixão de Jesus, mas são os empobrecidos, povos inteiros, crucificados pelo deus dinheiro, que vivem na carne e prolongam, dia após dia, a paixão de Cristo.

Esse fato é uma contradição com o que a Igreja sempre ensinou: Jesus morreu na cruz para que ninguém mais precise morrer assim. Por isso, celebrar a paixão de Jesus e proclamar que o Pai lhe deu uma vida nova devem renovar a nossa força de resistir ao mal e aos sofrimentos. Na Campanha da Fraternidade desse ano, a CNBB nos ensina que celebrar a Páscoa de Jesus deve se expressar na luta comunitária e constante por Políticas Públicas que sirvam a todos.

Atualmente, no plano cultural e religioso, o mundo é diversificado e pluralista. Uma cultura não deve se impor sobre outra. Menos ainda tem sentido uma religião civil, como se fosse a ideologia religiosa da sociedade dominante.  Alguns países da Europa, sob pretexto de laicidade do Estado, ocultam forte racismo contra os muçulmanos e proíbem as mulheres de usar véu. No Brasil, sob o falso pretexto de defesa dos animais, existem projetos para proibir as religiões afrodescendentes de fazer seus sacrifícios. E quando não conseguem mais mascarar a perseguição, tentam até vetar o uso de tambores em terreiros afro. Nesses casos, os grupos visados pela lei são sempre os mais pobres e minoritários. Uma política pública inspirada na Páscoa trata de dar a todos os segmentos a mesma liberdade e de ajudar cada grupo a se abrir aos outros.

Para que a Páscoa tenha um sentido para toda a sociedade, é importante que, sem perder o sentido próprio que ela tem para as Igrejas, juntos com toda a humanidade, os cristãos possam recuperar a sua dimensão ecológica e transformadora da sociedade. Assim, juntos poderemos festejar um novo cuidado com a Vida e uma forma mais amorosa de organizar a sociedade como sinal do amor divino.

[*] Marcelo Barros, monge beneditino, teólogo e biblista, é membro da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT) e assessora comunidades eclesiais de base e movimentos sociais. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-descendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação. E-mail: contato@marcelobarros.com Site: www.marcelobarros.com

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abril 22nd, 2019 Postado por : vieira Arquivado em: Marcelo Barros

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