Somos todos migrantes

Marcelo Barros [*]

Em torno ao 20 de junho, que a ONU consagra como “dia mundial dos refugiados”, a Pastoral dos Migrantes organiza no Brasil a cada ano a Semana Nacional dos Migrantes. Marcada por vários eventos, isso ocorreu na semana passada e teve como tema: “A vida é feita de encontros“. O lema dizia: “de braços abertos, sem medo de acolher”.

Sem dúvida, cada vez é mais necessária essa reflexão nas diversas regiões do Brasil. Em Roraima, a cada dia aumenta a quantidade de migrantes venezuelanos que escapam da guerra econômica, movida pelos comerciantes de classe média e pela elite contra o governo. No Acre, Rondônia e São Paulo, são muitos os haitianos, fugidos da fome e da violência social em seu país. Por todo o Brasil, africanos e vítimas das guerras no Oriente Médio tentam a vida em meio a muitas dificuldades. Desde 2016, os próprios brasileiros, sem sair do seu país, se transformaram pouco a pouco em um povo de empobrecidos. Somos todos vítimas de golpes econômicos e políticos, que fazem parte da chamada “guerra de baixa intensidade“,  que o império desencadeia contra os países que tentaram se libertar.

No mundo inteiro são quase 200 milhões de migrantes e refugiados. Para a ONU, refugiados são as pessoas que fogem de guerras ou de perseguições e são reconhecidas como necessitadas de proteção internacional. Os refugiados têm estatuto social reconhecido. São protegidos por leis internacionais, que embora nem sempre se cumprem, ainda vigoram. Os migrantes não são reconhecidos legalmente. Cada país tem legislação própria e age como quiser.

Nesses dias, na costa da Itália, os governos da Itália e da ilha de Malta se recusaram a deixar encostar em seus portos o navio Aquarius que trazia 629 migrantes, entre os quais sete mulheres grávidas e mais de cem menores desacompanhados, todos resgatados do mar na costa da Líbia. Alguns passageiros mais corajosos queriam se arriscar em nadar até a costa. Pescadores ou habitantes da aldeia italiana que os ajudassem seriam considerados como fora da lei e poderiam ser presos. Depois que o navio ficou parado durante dias no mar sem ter aonde aportar, o novo governo espanhol decidiu fazer o gesto humanitário de salvar aquelas vidas. Várias cidades espanholas se dispuseram a receber uma quantidade determinada daqueles náufragos de um mundo que afunda.

Em todas as tradições espirituais, acolher quem é migrante ou estrangeiro é considerado uma ação espiritual que agrada a Deus. Na Bíblia, a migração é central. Conforme a tradição bíblica, o patriarca Abraão era um migrante que partiu de Ur na Caldeia em busca de uma terra nova. Moisés era migrante, quando conduziu o povo de escravos para a libertação. No Novo Testamento, o apóstolo Paulo exerceu a sua missão de fundar comunidades e anunciar a boa notícia do reino divino como migrante. Os primeiros cristãos se diziam peregrinos e residentes estrangeiros nesse mundo.

Na época de Paulo, também Roma, em plena expansão imperial, tentou defender-se dos “estrangeiros“. O livro dos Atos dos Apóstolos menciona o decreto do imperador Cláudio, que estabelecia a expulsão dos judeus da Urbe (cf. Atos 18,2). Pelo fato que aqueles estrangeiros se tornavam cada vez mais numerosos e reivindicaram direitos civis, Roma decidiu expulsá-los. Mas o curso dos eventos é tortuoso. Depois de poucos anos, um judeu – precisamente Paulo – desembarca na capital do Império. Por dois anos, Paulo se estabelece em Roma. Mora em quarto alugado. E justamente naquele pequeno local – que pertencia talvez ao que, hoje, chamaríamos a prefeitura de Roma – Paulo “evangelizava” (cf. At 28,30).

Atualmente, vários países da Europa recebem os migrantes colocando-os presos e isolados em campos de concentração. Mesmo muitos cristãos se posicionam como contrários ao acolhimento. O papa Francisco tem repetido apelos fortes a favor dos migrantes. Apesar disso, nos países da Europa Ocidental, mais da metade dos católicos, inclusive padres e bispos, se pronunciam contra receber estrangeiros.

Não é difícil saber que conclusões podemos extrair disso. Antes de tudo que o Cristianismo e outras tradições espirituais têm falhado em sua missão de testemunhar que Deus tem um projeto para o mundo e ser dele é entrar e participar desse projeto de solidariedade e acolhida para todos. Sem dúvida, a palavra fundamental é a de Jesus ao dizer: “Fui estrangeiro e vocês me acolheram”. “O que vocês fizerem com um desses pequeninos em meu nome é a mim que fazem (Mt 25, 36 e 40).

  • [*] Marcelo Barros, monge beneditino, teólogo e biblista, é membro da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT) e assessora comunidades eclesiais de base e movimentos sociais. Tem se dedicado especialmente a estudar o pluralismo cultural e religioso e particularmente ao contato com as religiões de matriz afro-descendente. Publicou 44 livros no Brasil, alguns traduzidos em outros idiomas, além de vários livros coletivos, como a coleção “Pelos muitos caminhos de Deus”, sobre teologia pluralista da libertação. E-mail: contato@marcelobarros.com Site: www.marcelobarros.com
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junho 27th, 2018 Postado por : vieira Arquivado em: Marcelo Barros

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