A Rosa Reinventada: Literatura Brasileira e Direitos Humanos

Andrea Almeida Campos

Professora de Direito Civil da Universidade Católica de Pernambuco – Unicap. Coordenadora do Grupo de Estudos “Direito & Literatura” na Unicap. andalmcampos@uol.com.br
A rosa desabrocha em seu lufar explosivo e sangra o sangue vermelho dos sonhos derramados para quem o acordar será  nunca mais. A rosa que mata apenas pelo aroma de seu perfume, a rosa sem espinhos, a rosa que não espeta, que faz que não dói. O tempo e o vento colheram a rosa inventada pelo homem. A rosa que não tem suas raízes na terra, mas nas veias da alma do homem. A rosa desarrazoada, rosácea ebúrnea esfumaçando a existência, buquê silente  a revelar a fotografia das contradições da condição humana.

Era 06 de agosto de 1945 e a cidade de Hiroshima, no Japão,  acordava para mais um dia que, após o passar da manhã e da tarde, traria a noite. Mas a noite se antecipou e veio antes, não por um eclipse solar, mas pelo eclipse de mentes em guerra, mentes turvadas em ódio, medo, ganância e impiedade. A noite se antecipou por um pássaro de aço cavalgado pelo açoite cruel do guerreiro que aos ares lançou a rosa anoitecedora. O jardineiro empedernido e sedento por fazer desabrochar  rosas com seus aromas mortais, três dias após a sua incursão em Hiroshima, incontinenti, alteou sobre os ares da cidade japonesa de Nagazaki mais uma rosa. E para milhares de pessoas a primavera era jamais. O exército japonês se rendeu e terminada estava a Segunda Guerra Mundial.

A escritora belga Marguerite Yourcenar, sobre os destroços produzidos pelo afã destruidor insano da raça humana durante a guerra, anota em seu diário: “Os vencedores preferem ignorar que tudo acaba em derrota, e os vencidos não gostam de ser lembrados de que há poucas vítimas inocentes”1. Diante da máxima miséria não há mais que se perscrutar de quem é a culpa, a capacidade humana de destruir-se mutuamente em nome de sentimentos sórdidos, talvez seja uma das explicações para o fato de que, mesmo podendo alcançar as estrelas, o ser humano é tão efêmero e vulnerável quanto o mais frágil inseto. A superação de nossa finitude e transitoriedade, possivelmente, é proporcional à nossa capacidade de amar, à nossa disposição de reinventar a rosa, a rosa que desinventamos, que tomamos à natureza, fazendo-a mensageira da morte. Reinventando a rosa, devolvemo-nos a vida.

Em 10 de dezembro de 1948, a humanidade tenta contribuir com essa reinvenção através da promulgação da Declaração Universal de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas – ONU na cidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos. São 30 artigos, são 30 pétalas que procuram, fincadas na haste da vontade dos povos, reconstruir a possibilidade de uma eqüidade semeada pelos homens. Mas não são apenas as leis que se empenham na jardinagem dessa reinvenção, a arte e as suas diversas expressões é e sempre foi uma forma de o ser humano superar a sua própria condição, reinventando-se a si próprio, expressando seus medos, suas angústias e seus dissabores, catarseando os seus amores e as suas saudades, dando forma estética a seus sonhos e aos seus anseios mais profundos. A literatura é uma das expressões artísticas e a sua matéria-prima é a palavra. Os seus artífices não estiveram e nem estão alheios à reinvenção da rosa e à construção do caminho para o pleno gozo dos direitos humanos, mas são soldados insones nesse combate em paz e pela paz, onde não se derrama sangue, mas onde se tecem palavras que atinjam de forma certeira e façam bater mais forte o coração dos homens.

Na literatura brasileira, os escritores pátrios tatuaram em seus livros e escritos esparsos a essência do que estava sendo vivido e experienciado antes e depois da Segunda Guerra Mundial. De 1930 a 1945, logo, da década que antecede a guerra que eclodiu em 1939, até o seu final, configura-se a segunda fase do movimento literário modernista no Brasil. Havíamos passado pela Revolução de 30, tendo sido colocada abaixo a República da política do café-com-leite sob a hegemonia dos Estados de São Paulo e de Minas Gerais que se alternavam no poder. Revolução capitaneada pelo gaúcho Getúlio Dornelles Vargas que se tornou o presidente da chamada República Nova. Em 1932, o país e o seu povo presencia um movimento armado interno, a Revolução Constitucionalista deflagrada em São Paulo em 09 de julho de 1932 e pouco depois abafada pelas forças centrais. Em 1934 é promulgada uma nova Constituição e em 1937, Vargas dá um golpe em seu próprio governo, instituindo o Estado Novo, um estado totalitário sob as suas ordens, estando em suas mãos o poder concentrado. E é sob a égide desse estado autoritário que o Brasil participa da Segunda Guerra Mundial. A obra literária produzida na época é caracterizada pela denúncia social, pelo elevado grau de tensão entre o indivíduo e o mundo a sua volta. Um de seus principais expoentes é o escritor alagoano Graciliano Ramos que em março de 1936 foi preso por praticar atividades consideradas subversivas, inobstante não haver sido acusado formalmente,  sendo parte em um verdadeiro processo kafkiano (lembrando que o escritor tcheco Franz Kafka escreveu  o livro O Processo (1920) durante a Primeira Guerra Mundial). Baseada nessa experiência nefasta, foi gerada a obra-prima Memórias do Cárcere, publicado, apenas, em 1953. Antes, Graciliano Ramos já havia dado à estampa romances de notória angústia e apreensão, como Caetés (1933), São Bernardo(1934), Angústia(1936) e Vidas Secas(1938). Mesmo tendo por temas problemáticas regionais, a produção de Graciliano revela um teor universal escrito por uma alma atormentada e atingida pela tensão de um mundo que estava às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Terminada a guerra e a ditadura de Vargas em 1945, volta o Brasil à normalidade democrática e Graciliano filia-se ao Partido Comunista Brasileiro, o qual integrou até 1947 quando o partido foi, novamente, considerado ilegal. Em 1952 viaja para os países socialistas do leste europeu. Agora, a pena  de Graciliano não trata mais do horror e da opressão, mas sim, traz à lume Viagem (1954), obra permeada pelo sentimento de esperança no futuro da humanidade. Outro autor emblemático dessa fase foi o gaúcho Érico Veríssimo que em seus romances retrata a crise da sociedade moderna, a falta de solidariedade entre os homens e o cotidiano caótico das cidades como ocorre nas obras  Clarissa (1933), Caminhos Cruzados (1935), Música ao Longe (1936), e Olhai os Lírios do Campo (1938). A sua trilogia épica O Tempo e o Vento (1949; 1951 e 1961) esboça um painel histórico do Rio Grande do Sul desde o século XVIII  até o Governo Vargas na década de 30 do século XX, revelando preocupações e anseios universais ao homem da época. A mesma tensão constante nos romances dos escritores estrangeiros durante as guerras como no do já falado Kafka e tão magistralmente expressa no romance Demian (1919) do alemão Hermann Hess, está presente nas obras dos brasileiros Rachel de Queiroz, José Lins do Rego e Jorge Amado, publicados antes e durante a Segunda Guerra Mundial, mesmo que partindo de problemáticas de realidades regionais.

Terminada a Segunda Guerra Mundial e sob os novos ares propagados pela criação da Organização das Nações Unidas, a ONU e pela publicação da sua Declaração Universal dos Direitos do Homem, a literatura brasileira passa por profundas alterações, o escritor brasileiro se ensimesma, volta-se para o seu mundo interior, procura investigar a sua condição de ser e estar no mundo. É como se, depois de uma embriaguez pelo excesso de ágora e das suas calamidades imanentes, o indivíduo-escritor  se  recolhesse em uma concha e, voluntariamente, arremessasse-se às profundezas de seu oceano intrínseco mais abissal. Exemplo máximo dessa dinâmica no Brasil é a da escritora Clarice Lispector, cujo principal eixo da obra é o questionamento do ser, do “estar-no-mundo”, consubstanciado em romances densos e introspectivos como A Paixão segundo G.H.(1964). De forte caráter introspectivo é, à época, a poesia de Vinícius de Moraes e, mesmo que regionalista, a poesia de João Cabral de Melo Neto está eivada de simbolismo e surrealismo, a forte preocupação com a vida humana “severina” e o seu renascer. O poeta maranhense Thiago de Mello decreta  em seu poema “Os Estatutos do Homem”: (…) que agora vale a verdade,/ que agora vale a vida,/ e que de mãos dadas,/ trabalharemos todos pela vida verdadeira. (…). João Guimarães Rosa, romancista que já reinventa a rosa no próprio nome, ao escrever sobre o sertão mineiro, descreve um sertão místico, penetra na psicologia do jagunço do Brasil central e cria personagens de jagunços filósofos como o seu Riobaldo de Grande Sertão: Veredas (1956). Nota-se, portanto, no escritor brasileiro, uma forte e séria necessidade de reinventar a realidade tão nua e cruamente revelada pelos autores literários antes e durante a Segunda Guerra e essa reinvenção parte do conhecimento de si mesmo. Urge conhecer esse “homem humano” e reinventar a rosa através, por vezes, do misticismo e  do realismo fantástico, afirmar e reafirmar os direitos individuais na voz de uma literatura que transpassa os poros da pele humana em busca do entendimento do seu sonho e da sua fantasia, procurando atravessar o seu abismo e levá-lo a alçar o mais alto vôo possível de sua condição.  A reinvenção da rosa traz em seu regaço a reinvenção dos direitos e da literatura que procuram fazê-la brotar das próprias mãos do homem, exalando o a(roma) revelado no espelho de si mesmo – onde lê-se o seu inverso “(amor)” –  no mundo:

São corpos letárgicos que se estendem

Vislumbrando um infinito

De sódio e pedra, de fogo e cal.

É o apocalipse de peles

Que se anuncia

E do ventre de uma mãe

Pare um espelho

Inundando de azul

Novas imagens.

São vitrines do passado

Oferecendo o futuro

Que se multiplica

Em mil sorrisos

E em mil lágrimas

Gazefeitas e coloridas.

São caravelas e foguetes

Que se entrecortam

E cumprimentam-se

Cumprindo

A trajetória da vida.

Gagarins ecoam,

Colombos resplandescem-se,

Einsteins deleitam-se:

A terra é azul!

O mundo é redondo!

E o tempo é conforme!

São corpos letárgicos que se estendem

Vislumbrando um infinito

De sódio e pedra, de fogo e cal.

É uma criança

Que se aproxima

Com mil rosas para oferecer,

Se são vermelhas ou de Hiroshima,

Brotarão de mim, de nós

E de você.

Recife, 13 de novembro de 2008.

One Reply to “A Rosa Reinventada: Literatura Brasileira e Direitos Humanos”

  1. Wilma Martins de Mendonça

    Olá,
    Como professora de literatura brasileira, gostei muito das ligações apontadas entre a literatura brasileira e os “anseios universais” do humano. Esse é um tema que eu venho trabalhando, mas não conhecia esse trabalho iniciado em Pernambuco. Fiquei contente até porque fiz meu doutoramento na UFPE. Se houver outros textos nessa linha, gostaria de recebê-los.
    Atenciosamente,
    Wilma

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