COMO VIVE A POPULAÇÃO DO AMAPÁ NA TERCEIRA SEMANA SEM ENERGIA

O estado do Amapá segue há 17 dias em crise energética. Com o primeiro apagão no dia 3 de novembro, e um segundo na última terça-feira (17), os moradores das regiões atingidas precisam viver com um racionamento que distribui poucas horas de energia instável por dia em sistema de rodízio.

Com 90% da população afetada, o Amapá já está na terceira semana de crise, e a falta de energia não é o único problema dos moradores do estado. Para conseguir aproveitar o pouco tempo de eletricidade trazido pelo rodízio, muitos amapaenses não têm tido mais do que algumas poucas horas de sono, ainda enfrentando o calor e os insetos. A instabilidade da energia também deixa muita gente com medo de perder eletrodomésticos, que podem acabar danificados pelas retomadas e desligamentos súbitos. Os serviços de comunicação e de internet também sofrem as consequências da crise energética, assim como caixas eletrônicos e bombas de postos de gasolina, que também pararam de funcionar.

Mas a rotina alterada, a falta de comunicação e eletrodomésticos danificados ainda não são a pior entre as dificuldades que os amapaenses precisam enfrentar. Pela falta de refrigeração durante dias inteiros, alimentos que precisam de refrigeração estão estragando. Além disso, o blecaute afetou o sistema hidráulico do estado, que interrompeu o fornecimento de água encanada e mineral. Muitas pessoas não possuem outra opção a não ser beber água que não é própria para o consumo.

Profissionais de saúde do estado acreditam que a má qualidade dos alimentos e da água foi a principal causa da alta no número de atendimentos de crianças com diarréia e vômito no Pronto-Atendimento Infantil (PAI), o único pronto-socorro pediátrico do estado. O PAI é a porta de entrada para o Hospital da Criança e do Adolescente (HCA), que também relatou uma alta no atendimento, com pacientes apresentando irritações gastrointestinais e desidratação.

Além de sobreviver ao dia-a-dia, os cidadãos do Amapá ainda precisam manter seu sustento. Hospitais e estabelecimentos que possuem gerador próprio ainda conseguem continuar funcionando, mas os trabalhadores autônomos precisam improvisar – como aproveitar a luz do dia e atender os clientes na calçada.

A SITUAÇÃO DOS QUILOMBOLAS

Se para os principais municípios do estado a crise energética virou a vida das pessoas de cabeça pra baixo, a situação é ainda pior nas comunidades quilombolas, que já eram negligenciadas antes mesmo do apagão acontecer.

Apesar de já terem conquistado o direito à energia elétrica há mais de uma década, as dezenas de comunidades quilombolas no Amapá já estavam acostumados com a instabilidade. Em um único mês, algumas comunidades chegam a registrar três ou quatro quedas de energia, que podem durar dias.

Acompanhando o histórico de negligência, as comunidades quilombolas ficaram de fora do sistema de rodízio de energia do estado durante toda a primeira semana de blecaute – mesmo aquelas que ficam a cerca de 10 km de distância da capital e que possuem um fácil acesso. Os moradores de muitas comunidades precisaram voltar a utilizar lamparinas, já que também não possuem acesso a velas.

Os mesmos problemas de infraestrutura dos municípios também afetaram as comunidades. Em quilombos como Conceição do Macacoari, as bombas d’água foram danificadas, e os moradores precisam recorrer a um poço na comunidade para levar água para suas casas. A falta de energia para refrigerar os alimentos e o medo de perder os eletrodomésticos também fez com que muitos quilombolas recorressem a técnicas tradicionais para conservar carnes e peixes – uma solução desesperada depois de dias perdendo todo tipo de comida.

Apesar da desassistência do governo estadual, os quilombos têm tido ajuda de ONGs, doações e empresas que prestam serviços sociais às comunidades quilombolas – como a empresa Sankofa Quilombo Cultural, que organizou a distribuição de cestas básicas para comunidades próximas a Macapá.

NOITES DE PROTESTOS

Entre tantas dificuldades, os amapaenses não poderiam ficar calados. Desde o início do apagão, diversos protestos foram registrados por todo o estado. Apenas na noite de terça-feira, quando houve o segundo blecaute, nove manifestações tomaram as ruas de Macapá, capital do estado. Apesar disso, a população tem poucas esperanças de que a crise esteja próxima de ser resolvida e de que alguém seja responsabilizado pelos danos.

PREVISÕES PARA A SOLUÇÃO

Segundo a Eletronorte, a usina termelétrica deve começar a funcionar a partir do sábado (21). Os geradores, movidos à combustível, chegaram de balsa ao Amapá, e devem servir como uma alternativa provisória para a geração de energia até que os transformadores da principal subestação do estado voltem a funcionar.

Um novo transformador chegou a Macapá na quarta-feira, e a previsão é de que esteja totalmente instalado até o dia 26 – quando a energia deve começar a ser restabelecida definitivamente.

 

TEXTO: Guilherme Anjos

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