A periferização da Covid-19: como a doença que chegou de avião da Europa subiu os morros do Brasil.

Por Vitória Floro.

A Covid-19 chegou ao Brasil por meio da classe-média alta, com os brasileiros que retornaram ao país de viagens pela Europa, mas não demorou muito para subir os morros e encontrar as populações periféricas. A instalação da pandemia em um país de proporções continentais resultou em um fenômeno não experimentado antes por outros países ao redor do mundo e isso diz respeito às diferentes manifestações da doença nos diferentes contextos sociosanitários e geopolíticos.

A edição especial do Boletim Observatório Covid-19 Fiocruz, trouxe uma análise dos seis meses da pandemia no Brasil, que reúne não só dados médicos e científicos sobre o avanço da doença, mas também traz a diferença do desenvolvimento do vírus entre os bairros “sem favelas ou com pouca concentração de favelas” e aqueles com “altíssima concentração de favelas”. Segundo o Boletim, nas áreas onde a pobreza urbana é mais acentuada o novo coronavírus avança com mais rapidez devido a falta de políticas públicas que promovam medidas de saúde coletiva e proteção sanitária.

Diferente dos moradores de outras regiões da cidade, dentro da favela, de acordo com a Fiocruz, existem diversas situações que vulnerabilizam ainda mais a população destes territórios, como a precariedade no acesso aos serviços de saúde; a realização de operações policiais em favelas durante a pandemia; a falta de abastecimento de água; as remoções de moradores de suas casas; as diversas situações de racismo; a fome e insegurança alimentar.

Ainda de acordo com a Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) do IBGE, em 2018, mais de 11 milhões de brasileiros moram em casas superlotadas, que abrigam mais de três pessoas por dormitório. Essas condições tornam mais difícil a manutenção das medidas de prevenção como o isolamento social. Aliado a isso, o Boletim alerta para a situação econômica dos moradores das favelas, em sua maioria trabalhadores informais, que perderam suas fontes de renda e precisam ir às ruas em busca de emprego ou não conseguem continuar seus trabalhos por via remota, acelerando o ritmo de contágio. 

Essa é uma realidade vivida diariamente por Débora Paixão, jovem comunicadora popular da comunidade do Jacaré em Maranguape I no município de Paulista e integrante do Coletivo Fruto de Favela. Ela explica que a secretaria de saúde não esteve presente para atuar com medidas de prevenção, informação e combate a Covid-19 dentro da sua comunidade. Por isso, se viu na obrigação de cumprir o papel que deveria ser do Estado. “Realizamos diversas ações, como a entrega de cestas básicas, produtos de limpeza, máscaras e álcool em gel. Também colocamos cartazes informativos para incentivar a conscientização da comunidade.” Débora ressalta que essas iniciativas são obrigações do governo, mas que os jovens da comunidade não pretendem ficar parados enquanto seus vizinhos e familiares passam dificuldades, por isso, se mobilizam para articular as ações de combate ao novo coronavírus.  Assim, como na comunidade do Jacaré, ao redor do Brasil a Fiocruz afirma ter encontrado “uma multiplicidade de iniciativas potentes dos moradores das favelas no enfrentamento da pandemia, atuando sobre esse conjunto de problemas abordados com efetivos resultados, a despeito da omissão do Estado em prover ações protetivas emergenciais em face da pandemia.”

Imagem: Fruto de Favela.

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