Pastor Henrique Vieira: uma visão progressista do evangelho

O projeto Dois Dedos de Prosa, do curso de Letras e do Programa de Pós-graduação em Ciências da Linguagem, recebeu nesta quinta-feira (15) o pastor, escritor, poeta e ator Henrique Vieira. Nascido em Niterói (RJ), formado em Teologia, Ciências Sociais e História, ele estuda a arte da palhaçaria e é membro do conselho deliberativo do Instituto Vladmir Herzog. Vieira tem se notabilizado por apresentar uma interpretação considerada progressista do evangelho. Ele esteve no Recife para lançar o livro O Amor Como Revolução (Ed. Objetiva). Na obra, o pastor da Igreja Batista do Caminho fala de fundamentalismo religioso, espiritualidade, religião e do amor enquanto sentimento altruísta comunitário. Pouco antes de participar do debate mediado pelo Prof. Dr. Pe. André Araújo, coordenador do projeto Dois Dedos de Prosa, no auditório G2, Henrique Vieira conversou com o Boletim Unicap. Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

Boletim Unicap – Em um trecho do seu novo livro, você define o fascismo como “modelo comportamental que se alimenta estruturalmente da intolerância, da incapacidade de convívio com as diferenças e da necessidade permanente de controle e domínio sobre os outros”. No seu entendimento, o Brasil já se transformou num país fascista ou está caminhando para isso?        

Pastor Henrique Vieira –  Eu acho que está caminhando para isso. Tentei, no livro, caracterizar o fascismo justamente como um modelo. Mais do que um determinado modelo histórico do Nazi-fascismo da Itália Alemanha da década de 1930, chamo a atenção para determinados dispositivos fascistas que continuam existindo na sociedade e que podem ganhar cada vez mais contornos institucionais. Eu acho que é o que está acontecendo no Brasil hoje, dispositivos fascistas de eliminação da diferença, de supressão da diversidade, de tutela sobre o comportamento do outro. Esses dispositivos vão ganhado contornos de política, de institucionalidade, de decisões de governo, de discursos de autoridade, ou seja, são dispositivos fascistas ganhando status de autoridade. O Brasil está nesta transição, num momento perigoso de eliminação do diferente. O antagônico não é alguém que eu queira conversar para produzir síntese, o antagônico é alguém que eu queira eliminar porque ele não tem o direito de existir. Ele (o fascismo) alimenta uma lógica bélica o tempo inteiro, estamos em guerra o tempo inteiro e temos que extirpar o mal da sociedade. Quem é esse mal? E o que fazer com ele? Então primeiro você desumaniza alguém, para depois autorizar o extermínio. Muitas vez são as mulheres que lutam pelos seus direitos, os LGBTs que lutam pela sua sobrevivência com dignidade, os militantes de esquerda…É muito perigoso. O fascismo vai tomando conta de tudo aos poucos e definindo quem não precisa mais viver.

Fotos: Carla Siqueira

B.U – As sociedades ocidentais estão cada vez mais plurais. Como a democracia pode conviver com interesses cada vez mais conflitantes?

PHV – Esse é o exercício diário da democracia. Democracia não suprime conflito. O que suprime conflito e o faz de maneira violenta são modelos totalitários, autoritários, ditatoriais. A democracia é você criar o espaço para que o conflito seja trabalhado na base do diálogo, do respeito e da não-supressão da voz de uma minoria. Democracia é mais do que a força da maioria, é uma sutileza. Evidente que ela cria mecanismos de representatividade de uma vontade majoritária, mas democracia não elimina quem pensa diferente. É o tempo inteiro esse aprendizado de transformar um conflito num diálogo para que as decisões sejam tomadas, respeitando vontade majoritária sem supressão de minoria a partir do respeito fundamental à dignidade humana.

Democracia é desafio. As múltiplas identidades só tornam a democracia cada vez mais necessária. Como criar uma sociedade em que as pessoas caibam, com suas especificidades. O grande problema está no autoritarismo de quem não consegue conviver com o plural. De quem quer transformar tudo à imagem e à semelhança do seu micromundo. O problema está na imposição de um modelo global que não respeita a diversidade, a especificidade, a territorialidade. Esse modelo neoliberal que vai privatizando tudo, que vai reduzindo os espaços de cidadania, de convívio, de sociabilidade também é um fator que dificulta porque a gente é muito mais competitivo do que solidário. O modelo neoliberal capitalista aposta muito mais na competição do que na solidariedade. Essa é uma tragédia civilizacional, conceitual, existencial.

B.U – Em que medida o fundamentalismo religioso pode incitar o ódio?

PHV – O fundamentalismo religioso incita o ódio quando e porque ele elege uma verdade absoluta. Essa verdade é inquestionável. Quem pensa ou crê diferente é visto como inimigo ou alguém que precisa ser convertido. O fundamentalismo estimula o ódio à medida que não convive com a diferença, que não aprende com a experiência religiosa do outro, que pretende dono de uma verdade absoluta e que foram dessa verdade não há salvação. O fundamentalismo não abre espaço no indivíduo para ele escutar com sinceridade. O fundamentalismo é uma concepção religiosa fechada. O extremismo é quando essa concepção se traduz numa atitude de violência e de projeto de poder. O fundamentalismo é a semente do extremismo.

B.U – O senhor defende o amor como revolução. Qual é a natureza desse amor: romântico, egoísta? Como torná-lo altruísta?

PHV– O livro fala de um amor que amplia o nosso olhar, que desafia o nosso entendimento. Um amor mais altruísta que amplia meu coração, que faz ver o mundo nos seus dramas e suas angústias e nas suas esperanças. Portanto é necessariamente um amor ético, político (não no sentido partidário eleitoral) que me compromete com o bem comum e altruísta porque eu passo a deseja a plenitude de vida do outro. O amor é capaz de sacralizar o que está dessacralizado no mundo atual: a Mãe Terra. O amor pode ser tão altruísta que eu começo a reconhecer novamente a sua alteridade, sua sacralidade, a sua beleza. Portanto, o amor é uma atitude revolucionária porque é necessariamente altruísta, ético, político, afetivo e comunitário.

B.U – Em outro trecho do seu livro, o senhor conceitua  a religião como a sistematização da espiritualidade. Como distinguir uma da outra?

PHV – A espiritualidade é a essência do ser humano. Eu aprendi muito sobre essa distinção com Frei Beto. A espiritualidade é essa pergunta pela plenitude da vida, desse desejo de transcendência, esse desejo de vida plena. Essa dimensão nossa que procura sentido para a vida. A religião pega a espiritualidade e de alguma forma sistematiza nua doutrina, num culto, numa liturgia, num cerimonial, numa determinada visão de mundo e de comportamento humano. Então a espiritualidade é a potência. A religião é o contorno, a forma que se dá a essa potência. Daí que vem a experiência religiosa que pode fomentar a espiritualidade, que pode nos deixar pessoas mais generosas, mais altruístas, mais sensitivas, mais humanas ou mais fundamentalista. Eu costumo dizer que o fundamentalismo é a experiência religiosa que sequestra e abafa a potencialidade da espiritualidade.

B.U – Doroty Stang e Dom Helder Camara, personagens do Catolicismo contemporâneo brasileiro, de alguma maneira lhe influenciam. O diálogo inter-religioso pode ser uma porta para este amor revolucionário?

PHV – É uma obrigação teológica de um lado e democrática por outro para promover o bem comum, para defender a Mãe Terra, para defender a causa do pobre. Como é bom quando as religiões dão um sinal de paz. Já se matou tanto em nome de Deus ao longo da história. Eu acho que a gente tem que fazer o exercício do diálogo, da comunhão, do respeito e de perceber Deus na pluralidade que o mundo nos apresenta.

B.U – Como as posições progressistas têm sido recebidas no meio evangélico, tendo em vista essa onda conservadora presente no Brasil?

PHV – O meio evangélico é muito plural. Resumindo: nos meios conservadores aquilo que eu falo tem muito bloqueio, pouca aceitação. Por outro lado, tenho visto muitas portas se abrindo. Pessoas evangélicas do Brasil inteiro me procurando, criando espaços de encontro. Tem movimento negro evangélico. A minha comunidade de fé tem um setorial feminista de mulheres se organizando, estudando a Bíblia a partir da experiência das mulheres. Existe debate sobre diversidade sexual dentro do campo evangélico. Então o campo evangélico é plural.  A minha posição é rechaçada por um determinado campo e acolhida por outro campo. Basicamente este é o meu lugar: a minha militância, o meu ministério tem a ver com fortalecer esse segmento evangélico comprometido com a paz, com a justiça, com a dignidade humana e respeito à diversidade. Eu não estou preso à rotulações. Acho que a gente tem que ter capacidade de dialogar, produzir síntese.

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