Humanitas promove roda de diálogo sobre os 130 anos da abolição

O Instituto Humanitas Unicap convidou o coordenador do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (Neabi), Pe. Clóvis Cabral, para uma roda de diálogo sobre os 130 anos da abolição da escravatura no Brasil.

A Assecom esteve presente e registrou os melhores momentos dessa conversa.

Abolição ou a “bulição”?
“A nossa perspectiva é que buliram, mas não aboliram a escravidão. Evidente que, do ponto de vista formal, legal, sim, a abolição foi há 130 anos. Do ponto de vista da vida real, evidente que não; a abolição é uma obra inconclusa, uma obra em aberto. Porque, por exemplo, nos, talvez, dois anos em que o movimento abolicionista ficou forte, em todo o Brasil se tinha associações abolicionistas. Ferviam grupos, pessoas. Mesmo gente da aristocracia, das classes médias, aderiram, e o grande debate que se travou no parlamento é uma lei que foi escrita no Senado e sancionada pela regente, a princesa Isabel. Lacônica, diz: ‘está abolida a escravidão no Brasil. Revogam-se as posições contrárias’. E isso foi feito sem qualquer provisão ou previsão do que fazer com os africanos que foram escravizados e saíam do regime de escravidão.”

Prioridades…
“O debate foi o contrário: se debatia a indenização para o senhor de escravo, não para o escravo. Quer dizer, o Estado e os setores que organizavam o Estado – as lideranças que eram donas do poder na época – estavam preocupados com o prejuízo que os senhores de escravos poderiam ter com a libertação dos escravizados. O grande debate foi esse e nada foi feito. Então, os escravizados saíram sem terra, sem trabalho e sem educação.”

Pouca coisa mudou
“130 anos depois, os afrodescendentes, as populações que se autodeclaram negras no Brasil somam maioria. Entre 54 e 57% da população se autodeclara negra. Mas são os mais pobres dentre os pobres. O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo e a desigualdade econômica é também uma desigualdade étnico-racial, é também uma desigualdade de gênero (as mulheres negras são as mais pobres), é também uma desigualdade geracional (os jovens negros são os mais pobres, as crianças negras são as vítimas preferenciais da pobreza…).”

O desejo
“O que nós queremos é fazer com que as pessoas que compõem a comunidade universitária da Unicap sejam profundamente solidárias à causa, se sensibilizem e se coloquem solidariamente ao lado das maiorias negras empobrecidas do país. Tanto do ponto de vista da solidariedade comungando com a causa da luta do movimento negro organizado, como também solidarizados no sentido de que essa luta por uma abolição efetiva não é somente dos negros, das negras, mas tem a ver com o país. Definitivamente, abolir a escravidão, não somente na sua forma contemporânea, que a legislação chama de trabalho análogo à escravidão, mas, para reverter essa herança maldita da escravidão, que colocou milhões de homens e mulheres negros e negras nas mesmas condições que a 130 anos atrás, é necessário que toda sociedade brasileira assuma essa luta, essa causa.”

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